Bento XVI: perseguições contra cristãos, «sinal de pobreza moral»

«As religiões podem contribuir para lutar contar a pobreza», adverte

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Por Inma Álvarez

CIDADE DO VATICANO, quinta-feira, 8 de janeiro de 2008 (ZENIT.org).- Bento XVI lamentou nesta quinta-feira, em seu discurso aos membros do Corpo Diplomático acreditado na Santa Sé, as perseguições que milhares de cristãos sofreram, especialmente na Índia e Iraque, durante o ano acaba de terminar. 

Diante dos embaixadores reunidos na Sala Régia do Palácio Apostólico Vaticano, o Papa dedicou uma ampla passagem de sua intervenção à liberdade religiosa, dentro do tema principal de sua intervenção: a pobreza e a paz. 

«As discriminações e os graves ataques de que foram vítimas, no ano passado, milhares de cristãos, mostram como o que afeta a paz não é só a pobreza material, mas também a pobreza moral. De fato, é na pobreza moral onde tais atrocidades têm suas raízes», afirmou o Papa. 

Mas advertiu também que no Ocidente «se cultivam preconceitos ou hostilidades contra os cristãos, simplesmente porque, em certas questões, sua voz perturba». 

Diante dos representantes das diversas nações, o Santo Padre afirmou que «o cristianismo é uma religião de liberdade e de paz e está a serviço do autêntico bem da humanidade», e que as religiões «podem dar uma valiosa contribuição à luta contra a pobreza e à construção da paz». 

«Renovo o testemunho de meu afeto paternal aos nossos irmãos e irmãs vítimas da violência, especialmente no Iraque e na Índia», assegura. Em 13 de março apareceu o cadáver do arcebispo caldeu de Mosul, no Iraque, Dom Paulos Faraj Rahho, de 65 anos, quem dias antes havia sido sequestrado. 

Em 2008, na Índia, em particular no Estado de Orissa, segundo dados da Conferência Episcopal desse país, a violência de radicais hindus contra os cristãos provocou 81 mortos, mais de 40 mil desabrigados do distrito de Kandhamal, 4.677 casas destroçadas, 236 igrejas e 36 conventos destruídos ou seriamente afetadas; cinco sacerdotes católicos feridos, assim como o estupro e o escárnio público de uma religiosa. 

O pontífice mostrou sua proximidade às vítimas e as convidou a «não perder o ânimo» diante destas provas, e a não deixar de «proclamar o Evangelho desde os telhados». 

«O testemunho do Evangelho é sempre um ‘sinal de contradição’ com relação ao ‘espírito do mundo’. Se as tribulações são duras, a constante presença de Cristo é um consolo eficaz», afirmou. 

Por outro lado, pediu aos governos das nações onde houve perseguições cruentas contra os cristãos que «as autoridades civis e políticas se dediquem com energia a acabar com a intolerância e com as humilhações contra os cristãos; que intervenham para reparar os danos causados, em particular nos lugares de culto e nas propriedades; que estimulem por todos os meios o justo respeito por todas as religiões, proscrevendo todas as formas de ódio e de desprezo». 

Liberdade religiosa 

Em seu discurso, o bispo de Roma aludiu em várias ocasiões à questão da liberdade religiosa, à qual deu grande importância dentro da busca da paz. 

Referindo-se em geral à situação da Ásia, recordou que as comunidades cristãs que vivem lá «com frequência são pequenas do ponto de vista numérico, mas desejam oferecer uma contribuição convencida e eficaz ao bem comum, à estabilidade e ao progresso de seus países». 

O testemunho destes cristãos expressa, explicou, «a primazia de Deus, que estabelece uma sã hierarquia de valores e outorga uma liberdade mais forte que as injustiças. A recente beatificação no Japão de 124 mártires o destacou de forma eloquente». 

O sucessor de Pedro recordou que a Igreja «não pede privilégios, mas a aplicação do princípio de liberdade religiosa em toda sua extensão», e pediu especialmente aos países asiáticos que «garantam o pleno exercício deste direito fundamental, no respeito das normas internacionais». 

Em outro momento, recordou suas viagens à França e aos Estados Unidos, e com elas a questão da «sã laicidade». 

«Uma sociedade saudavelmente leiga não ignora a dimensão espiritual e seus valores, porque a religião, e me pareceu útil repeti-lo durante minha viagem pastoral à França, não é um obstáculo, mas, ao contrário, um fundamento sólido para a construção de uma sociedade mais justa e livre», advertiu. 

O mundo contempla a Igreja 

Bento XVI, ao recordar suas recentes viagens, constatou que pôde «perceber as expectativas de muitos setores da sociedade com relação à Igreja Católica». 

«Nesta fase delicada da história da humanidade, marcada por incertezas e interrogantes, muitos esperam que a Igreja exerça com decisão e clareza sua missão evangelizadora e sua obra de promoção humana», afirmou.