Bento XVI: «Que a Shoá seja para todos uma advertência contra o esquecimento»

O Rabino de Israel, após o caso Williamson, agradece a intervenção do Papa

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Por Mirko Testa

CIDADE DO VATICANO, quinta-feira, 29 de janeiro de 2009 (ZENIT.org).- «Que a Shoá seja para todos uma advertência contra o esquecimento», afirmou Bento XVI, ao término da audiência geral, na data que fazia memória dos hebreus massacrados pelos nazistas durante a 2ª Guerra Mundial.

Em 27 de janeiro, de fato, graças a uma Resolução aprovada em 1º de novembro de 2005 nas Nações Unidas, com o decidido apoio da Santa Sé, foi declarado Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. 

Nestes dias se recorda a libertação, em 1945, por parte do exército soviético, de Auschwitz-Birkenau (Polônia), o principal campo de concentração nazista. 

O Papa, em um comunicado ao término da audiência, afirmou: «vêm-me à memória as imagens recolhidas em minhas repetidas visitas a Auschwitz, um dos lugares nos quais se consumou o brutal massacre de milhões de hebreus, vítimas inocentes de um cego ódio étnico e religioso». 

Por isso, acrescentou, «enquanto renovo com afeto a expressão de minha total e indiscutível solidariedade com nossos irmãos destinatários da Primeira Aliança, auguro que a memória da Shoá induza a humanidade a refletir sobre o imprevisível poder do mal quando conquista o coração do homem». 

«Que a Shoá seja para todos uma advertência contra o esquecimento, contra a negação ou o reducionismo, porque a violência feita contra um só ser humano é violência contra todos», advertiu. 

«Nenhum homem é uma ilha», acrescentou o Papa, citando os versos do poeta inglês John Donne (1571-1631). 

«Que a Shoá ensine tanto às antigas como às novas gerações que só o fatigoso caminho da escuta e do diálogo, do amor e do perdão, conduz os povos, as culturas e as religiões do mundo ao desejado encontro da fraternidade e da paz na verdade.»

«Que a violência nunca mais humilhe a dignidade do homem!», exclamou no final. 

As palavras pronunciadas por Bento XVI na quarta-feira, e expressadas «já em diversas ocasiões» no passado, «deveriam ser mais que suficientes para responder às perguntas de quem expressa dúvidas sobre a postura do Papa e da Igreja Católica sobre a questão», comentou o diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, Pe. Federico Lombardi, S.J., imediatamente depois da audiência geral. 

As palavras do porta-voz da Santa Sé, recolhidas pela Rádio Vaticano, chegam depois de vários dias de polêmicas, enquanto os meios de comunicação internacionais difundiam certos rumores publicados pelo «Jerusalém Post» sobre uma possível ruptura de relações entre o rabino de Israel e a Igreja Católica. 

O caso estourou após as controvertidas declarações à televisão pública sueca de Dom Richard Williamson – um dos quatro bispos ordenados em 1988 por Dom Marcel Lefebvre, a quem lhes foi revogado recentemente a excomunhão – negando a existência das câmaras de gás nos campos de concentração e reduzindo a 300 mil o número de hebreus assassinados durante a 2ª Guerra Mundial. 

O jornal israelense havia assinalado a intenção do Rabinato de Israel de interromper «indefinidamente» as relações oficiais com o Vaticano e de cancelar também um encontro com a Comissão para as Relações Religiosas da Santa Sé, previsto de 2 a 3 de março em Roma. 

O Pe. Lombardi concluiu com o desejo de que «as dificuldades apresentadas pelo Rabinato de Israel possam ser objeto de uma ulterior e mais profunda reflexão, em diálogo com a Comissão para as Relações com o Judaísmo do Conselho para a Unidade dos Cristãos, de modo que o diálogo da Igreja Católica com o hebraísmo possa seguir adiante com fruto e serenidade». 

Em uma entrevista concedida ontem a Sky Tg24, o diretor geral do Rabinato de Israel, Oded Wiener, afirmou ao contrário: «Não interrompemos as relações com o Vaticano, também porque creio que elas são fundamentais, tanto para nós como para o próprio Vaticano». 

«Esta questão tão importante deverá, contudo, ser discutida – precisou. Adiamos este encontro enquanto não falamos de tudo isso com as pessoas da Santa Sé e discutimos como retomar nossas relações.»

«Certamente, neste âmbito tão sensível e em um período histórico tão importante, todo  o mundo hebraico está comovido por esta questão», observou. 

Sobre as palavras de condenação de Bento XVI sobre o negacionismo do Holocausto, Wiener sublinhou: «Em primeiro lugar, creio que a declaração do Papa desta manhã foi extremamente importante, para nós e para o mundo inteiro. Não há lugar para pessoas como Williamson, que negam a existência do Holocausto». 

«Creio que foi um grande passo adiante – acrescentou – e uma importante declaração para resolver esta questão, ainda que devemos discutir junto com os membros da Comissão da Santa Sé e do governo de Israel sobre o que pode ser acrescentado para colocar fim a este problema.»

Como sinal de distensão, o embaixador israelense na Santa Sé, Mordechay Lewy, em declarações publicadas por Apcom, afirmou estar «muito contente por uma declaração de tão alto nível por parte da Santa Sé, que esclarece e ajuda a superar os equívocos». 

«Penso que é equivocado, agora, personalizar a questão, concentrando-se em um único bispo», precisou Lewy. 

Com relação à intenção de Bento XVI de viajarà a Terra Santa no próximo mês de maio, o embaixador israelense sublinhou que «o Papa é bem-vindo em Israel hoje, como era bem-vindo ontem e anteontem».