Bento XVI tem nomeado monges como bispos, pois os monges ao longo da História foram guardiães da fé e dos bons costumes

Entrevista com Dom Abade Paulo Celso Demartini O. Cist, abade da Abadia Nossa Senhora de São Bernardo São José do Rio Pardo SP

Brasília, (Zenit.org) Thácio Siqueira | 1723 visitas

Dessa vez, ZENIT entrevistou Dom Abade Paulo Celso Demartini O. Cist, abade Cisterciense da Abadia Nossa Senhora de São Bernardo – São José do Rio Pardo-SP.

“Ao longo da História da Igreja já tivemos 2 papas da Ordem Cisterciense, 37 cardeais e centenas de bispos”, disse, dentre os quais Dom João Orani Tempesta, O. Cist. , atual arcebispo do Rio de Janeiro e Dom Edmilson Amador Caetano O. Cist., Bispo de Barretos-SP.

Publicamos a seguir a entrevista na íntegra:

ZENIT: O que faz com que uma pessoa entre na vida monástica? Qual é o sentido da vida monástica hoje?

Dom Paulo: A Igreja sempre viu os mosteiros como “oásis de contemplação”, “escola do serviço do Senhor”, “escola da caridade”. É interessante notar que as vocações monásticas, ao menos nos mosteiros fora da Europa, têm até crescido, não obstante à redução drástica no Velho Continente.

È lógico que temos que purificar as motivações iniciais, que fazem um vocacionado  procurar um mosteiro, em motivações que o façam entrar e perseverar até o fim “usque ad mortem”. Um vocacionado às vezes pode se interessar pela vida monástica por causa do hábito, do canto gregoriano, da arquitetura, da história, da espiritualidade, da amizade espiritual com um monge, mas tudo isso pode passar com o tempo, até que fique o mais importante: ver se procura a Deus verdadeiramente (“si revera Deum quaerit”), como nos diz São Bento na Santa Regra cap. 58.

A vida monástica continua a atrair jovens hoje em dia, pois o mundo oferece tantas coisas que não preenchem, não dão felicidade duradoura.

ZENIT: Fale-nos um pouco do seu mosteiro. Vida, número de membros, fundação...

Dom Paulo: Nosso Mosteiro procura ser a Casa de Deus, lugar do perdão e da festa. No final da década de 30 um abade alemão (Dom Alphonso Heun) chegou em São José do Rio Pardo durante os horrores da guerra, convidado pelas Irmãs da Congregação de Jesus. Em 1949 chegaram três monges cistercienses italianos, mas ainda não se tinha nem iniciado a construção do prédio do mosteiro. A primeira parte só foi inaugurada em 1958. Em 1968 o Santuário São Roque se tornou Paróquia, e isto para ajudar na manutenção dos monges, que passavam muitas dificuldades. Até então ajudavam na pastoral em cidades vizinhas. As vocações foram chegando e em 1978 é que começou o noviciado próprio em nosso mosteiro. O número de monges foi crescendo, de modo que em 1987 o prédio começou a ser aumentado graças à ajuda de nossa Congregação de São Bernardo na Itália, que na época podia nos ajudar. Em 1996 o mosteiro se tornou Abadia. Seu primeiro Abade, Dom Orani João Tempesta, logo foi nomeado bispo, o mesmo com o segundo abade, Dom Edmilson Amador Caetano. Sou o terceiro abade. Hoje contamos com 10 monges sacerdotes no mosteiro e mais uns 10 monges não sacerdotes. Estamos com 2 noviços e um postulante.

ZENIT: Para o mundo vocês estão presos e estão perdendo a vida. É assim mesmo?

Dom Paulo: Por sermos livres e querer viver na liberdade dos filhos de Deus encontramos no mosteiro a alegria de viver juntos, pois “homem algum é uma ilha” – já dizia Thomas Merton OCSO. Livremente escolhemos um mosteiro para viver a vida de santidade, santificando o mundo alternando o trabalho e a oração – “ora et labora”. Os muros e claustros podem nos defender de certas tentações mas o importante é que, longe de nos sentirmos trancados, nos sentimos juntos do Senhor, ora escutando-O na Liturgia, na Leitura Orante da Bíblia (Lectio Divina), ora reconhecendo-O no Abade, no hóspede e no irmão.

Não nos sentimos presos por estar num mosteiro. Sabemos que o mundo está dentro de nós. O silêncio, a clausura, a vida fraterna nos ajudam a estar com o Senhor, a sentir-se amado por Ele, a amar-se e a amá-lo nos irmãos que Ele colocou ao nosso lado para nos santificar. No mosteiro aprendemos a rezar pelo mundo em seus desafios sempre crescentes.

ZENIT: Temos um Papa que escolheu um nome monástico para o seu pontificado, Bento XVI. O que tem significado Bento XVI para a espiritualidade monacal?

Dom Paulo: O papa Bento XVI, além de evocar o fecundo papado de um de seus predecessores Bento XV, quis colocar seu pontificado sob a proteção de São Bento, um dos Padroeiros da Europa. Em suas alocuções o Santo Padre costuma citar trechos da Regra de São Bento e de autores espirituais monásticos como São Bernardo de Claraval etc. Em 2011 proferiu Catequeses semanais sobre alguns dos autores espirituais monásticos mais importantes. Recentemente proclamou a monja Hildegarda de Bingen como Doutora da Igreja. Numa visita a uma Cartuxa disse que “os mosteiros não somente são importantes mas até indispensáveis para o nosso tempo”. O papa tem nomeado monges como bispos, pois os monges ao longo da História foram guardiães da fé e dos bons costumes.

ZENIT: A vida de oração é muito complicada?

Dom Paulo: Quem reza se salva. Terá mais forças para superar as dificuldades sempre crescentes.  A oração é uma luta, pois pode surgir a distração, o desânimo, a dúvida, mas sempre vem a consolação. O púlpito da vida monástica é o coro, lugar onde os monges passam boa parte do dia na Igreja do mosteiro, rezando pela Igreja, como Igreja e em nome da Igreja, intercedendo pelo mundo, louvando o Senhor. É belo alternar o ritmo do dia num mosteiro, rezando e trabalhando, santificando as horas em nome da criação. Por vezes a oração pode ser complicada no sentido de que precisamos nos preparar bem para este momento, para “que nossa mente concorde com nossa voz”. Levantamos ainda de madrugada para as Vigílias e Laudes. Interrompemos nosso trabalho para o Opus Dei – Trabalho de Deus (oração da liturgia da Horas). Rezamos as três Horas Menores em nossa Abadia, esses momentos são importantes para a santificação das horas, cada uma delas com seu significado específico. Em nosso mosteiro temos também leigos e oblatos que costumam participar junto com os monges de orações, especialmente nos tempos fortes do Advento e Quaresma.

 ZENIT: Há paz detrás dessas grades ou muros? Qual é a essência de um consagrado?

Dom Paulo: O lema “PAX” costuma encimar a porta de entrada de muitos mosteiros, que sempre foram vistos como lugar de serenidade. Quantos hóspedes se encantam com o clima de silêncio dos nossos claustros.

Obviamente que, como toda a sociedade composta de pessoas humanas, temos momentos de tensão, dificuldades de convivência, mas é maravilhoso como o Mosteiro oferece tantas oportunidades para viver esta serenidade, esta paz que vem da alegria de estar na Casa do Senhor. Somos humanos e tudo que é humano não nos é alheio. Mas o que é próprio nosso é a capacidade de superar conflitos, de perdoar, de conviver com o diferente. Estamos num mosteiro por causa do Senhor, que primeiro nos amou. As pessoas passam, nos decepcionam, morrem, saem, mas Deus não passa. Os votos monásticos de obediência, estabilidade numa comunidade e conversão dos costumes são um caminho a ser trilhado dia-a-dia, em comunidade.

ZENIT: Vocês fazem algum trabalho apostólico?

Dom Paulo: Nosso mosteiro, desde suas origens, teve uma preocupação em ser presença marcante na vida da Igreja Local. Nasci na mesma cidade onde está o mosteiro, em São José do Rio Pardo-SP. Dos monges recebi minha formação desde a catequese pois desde pequeno frequentei o mosteiro. Desde que entrei na Comunidade Cisterciense escutei dos mais velhos a importância do sentir com a Igreja (“sentire cum ecclesia”), mas isso sem perder a espiritualidade e ritmo da vida interna da espiritualidade monástica. Temos alguns trabalhos pastorais como o atendimento na portaria (confissões, bênçãos, orientação espiritual, assistência a necessitados), temos a acolhida na hospedaria (retiros espirituais, hospedagem de peregrinos, discernimento vocacional), temos o nome e humilde serviço do monge nas orações e trabalhos internos, dos maiores aos mais simples. A nossos cuidados temos a Paróquia Santuário São Roque, onde os 10 monges sacerdotes ajudam na pastoral. Sou Abade e pároco-reitor na Igreja onde fiz a Primeira Comunhão, Crisma, onde professei os votos monásticos e fui ordenado. Atualmente não dispomos mais de funcionários no mosteiro, pois “os monges são verdadeiros monges quando vivem do trabalho de suas mãos”.

Muitas graças já foram derramadas em nosso Mosteiro. Como a Igreja é maior que o Mosteiro, com dor, mas também muita alegria, meus dois Abades predecessores foram nomeados bispos: Dom Orani João Tempesta, O. Cist, atual arcebispo do Rio de Janeiro e Dom Edmilson Amador Caetano O. Cist., Bispo de Barretos-SP. Foi uma perda mas uma graça oferecer para a mãe Igreja esses monges. Ao longo da História da Igreja já tivemos 2 papas da Ordem Cisterciense, 37 cardeais e centenas de bispos. “O que nos falta é sermos e termos santos”, alguém nos disse!

ZENIT: Como os leitores de ZENIT podem ajudar o mosteiro de vocês?

Dom Paulo: A maior necessidade que temos é de orações para que sejamos o que a Igreja espera de nós: monges cistercienses, vivendo a radicalidade de nosso batismo de maneira visível numa comunidade que reza e trabalha sob a Regra de São Bento. Precisamos dessas orações para que o Senhor da Messe envie santas e perseverantes vocações para a sua Igreja.

Ainda o prédio de nosso mosteiro não está todo pronto. Falta muito para terminar tudo: subsolo, hospedaria, portaria, ateliers, sala de conferência, garagens, elevador, pintura externa. A manutenção é sempre cara: veículos, energia, alimentação, saúde. Temos pensado em montar uma loja com produtos de artesanato feito pelos monges mas ainda não temos recursos para a mesma.

Contamos sempre com a Providência Divina e doações de almas generosas.

Todos os dias rezamos pelos nossos benfeitores e pelos que necessitam mais que nós.

Que em tudo seja Deus glorificado!

Para maiores informações: domabade@hotmail.com

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