Biologia não condiciona totalmente a pessoa, afirmam especialistas

Realizado em Roma um congresso sobre neurociência e ação moral

| 1110 visitas

ROMA, sexta-feira, 4 de março de 2011 (ZENIT.org) - "A biologia tem um papel importante no comportamento humano - o que é classicamente conhecido como ‘carga biológica' -, mas esse aspecto do homem não é, em si mesmo ou de forma única, o que proporciona unidade ou dinamismo a toda a pessoa."

Esta foi a explicação dada a ZENIT por José Manuel Giménez Amaya, professor de Anatomia e Embriologia há muitos anos na Universidade Autônoma de Madri, e agora diretor do grupo de pesquisa "Ciência, razão e fé" da Universidade de Navarra.

"Há condicionamentos genéticos do homem que têm relação com seu comportamento, mas não se pode dizer que são absolutamente determinantes. Infelizmente, muitas vezes, quando se fala sobre os chamados genes que regulam o nosso comportamento, por exemplo, o ‘gene da conduta sexual', pretende-se dar a entender que tudo no homem é determinado pelo genoma. E neste caso, é importante notar, portanto, que, do ponto de vista científico, esta tese não pode ser sustentada."

O docente expôs estas ideias no simpósio "Neurociências e ação moral: as condições neurobiológicas da afetividade e das decisões da virtude", realizado nos dias 28 de fevereiro e 1º de março, em Roma, na Universidade de Santa Cruz, reunindo importantes especialistas no tema.

O professor Giménez Amaya lembrou que é verdade que "há correntes da neurociência atual que, de fato, afirmam que o cérebro é o único que regula toda a atividade humana".

Para o professor da Universidade de Navarra, "não parece apropriado tentar abordar o estudo do homem em compartimentos estancados, que proporcionam uma visão parcial e, infelizmente, por vezes, muito distorcida. Daí a importância fundamental da interdisciplinaridade, que permite completar, unificar, dar sentido e levantar estudos muito mais completos e profundos".

Sobre o determinismo dos atos do homem, que nasceria de uma situação biológica fechada e unidirecional, como se afirma em algumas correntes do pensamento científico atual, o professor espanhol disse que, "em primeiro lugar, não está plenamente demonstrado, do ponto de vista científico - como vimos durante este simpósio -, que existe um determinismo totalmente validado da ação neurobiológica".

"Do ponto de vista da neurociência, que é a minha área de estudo - apontou -, para muitos neurocientistas existe uma clara indeterminação em algo tão essencial para o nosso funcionamento cerebral, como a transmissão sináptica ou as configurações das redes neurais corticais e subcorticais, aspectos estes que são essenciais no funcionamento biológico do cérebro."

Em relação à conduta moral e ao fator biológico e genético, o professor Sergio Sánchez-Migallón, palestrante do simpósio e diretor do Instituto de Antropologia e Ética da Universidade de Navarra, disse que "a conduta moral se baseia na experiência moral e tanto a filosofia clássica como a fenomenologia veem que a experiência moral é muito rica e tem aspectos que a ciência experimental não consegue captar".

O professor Sánchez-Migallón, que estudou filosofia na Universidade Complutense de Madri e se doutorou nessa disciplina na Universidade de Navarra, disse que "a experiência moral filosófica está descobrindo diversos outros campos muito coerentes com a ciência. Portanto, não se trata de uma oposição, mas de uma colaboração entre os dois: aspectos que faltam e aspectos que iluminam a própria ciência".

E concluiu: "Sobre o comportamento moral, há alguns dados irredutíveis à ciência experimental, como a consciência do dever moral, a consciência da responsabilidade, a própria decisão livre, por mais condicionada que seja por diversos fatores: em suma, a pessoa tem a última palavra e pode dizer ‘sim' ou ‘não', sobrepondo-se a tais fatores biológicos, porque, no final, não são eles os determinantes".