Bom dia, tristeza... O pecado do desespero

Uma meditação com Jürgen Moltmann

Roma, (Zenit.org) Robert Cheaib | 572 visitas

Dizem que o pecado "original" é o desejo do homem de ser como Deus. Esta é só uma face do pecado. Há outra face complementar: a do desejo de não ser original, de não querer a divinização, de não querer ser semelhante a Deus, de não querer chegar ao “Télos” (cf. Jo 13).

Nas palavras de Jürgen Moltmann, "o outro lado da postura da soberba consiste no desespero, na resignação, na indolência e na melancolia". E ele explica: "A tentação não consiste tanto na pretensão titânica de ser como Deus, mas na fraqueza, na pusilanimidade, no cansaço de quem não quer ser o que Deus espera dele".

“O que o acusa não é o mal que ele faz, mas o bem que negligencia”. Nas palavras de São João Crisóstomo: "O que nos leva à perdição não é tanto o pecado quanto a falta de esperança".

E por que a alma se refugia no desespero?

O desespero protegeria a alma das desilusões. “Quem muito espera, louco acaba”. Por isso, tenta-se permanecer no terreno da realidade e “pensar com clareza, sem esperar mais” (cf. Albert Camus).

Eis o rosto sutil, pacífico e aparentemente inócuo do desespero: ele não precisa mostrar expressões desesperadas; ele pode ser a simples e silenciosa falta de sentido, de perspectiva, de futuro e de propósito. Mais: o desespero pode ter o aspecto da sorridente resignação. “Bom dia, tristeza!”... Permanece aquele sorriso amargo de quem esgotou as suas possibilidades e não encontrou nada que lhe desse motivos de esperança.

O homem que se rebela contra Deus não assume necessariamente as formas de um Prometeu, mas sim as de um Sísifo, o honesto fracassado que se redobra sobre os próprios fracassos e abraça a incompletude, o limite, o absurdo, o nada...

A força que renova a vida, porém, não está nem na presunção, nem no desespero, mas somente na esperança durável e segura. Têm uma força misteriosa aquelas palavras de Heráclito: "Quem não espera o inesperado, não o terá".

Longe de ser uma ilusão, Moltmann nos lembra que só a esperança tem o direito de se considerar realista, porque só ela leva a sério as possibilidades que subjazem a toda a realidade... As esperanças e as expectativas de futuro não são, portanto, uma chama de transfiguração destinada a embelezar uma existência cinzenta, mas percepções realistas do vasto panorama de possibilidades reais.

Assim, a esperança é bem diferente da utopia. Ela não se projeta em direção à "ilha que não existe", e sim àquilo que "ainda não tem lugar, mas pode ter". Na verdade, é o desespero que merece a acusação de utópico, porque é ele que "se agarra à realidade existente duvidando das suas possibilidades", sem conceder "lugar nenhum" para o possível.

A conclusão de Moltmann é esta: as afirmações da esperança da escatologia cristã devem se impor também à rigidez utópica do realismo para manter viva a fé e guiar a obediência, que se explicam no amor, no caminho das realidades terrenas, físicas, sociais.