Brandmüller: O Vaticano II está longe da sua realização na vida da Igreja

Entrevista com o cardeal alemão cujo livro recém-lançado percorre séculos de história da Igreja a fim de entender o seu rosto e missão

Roma, (Zenit.org) Salvatore Cernuzio | 567 visitas

Um passeio através dos séculos para quem quer compreender o mundo e a Igreja de hoje: poderia ser esta a síntese do novo livro do cardeal Walter Brandmüller, que reúne os seus escritos publicados no Osservatore Romano ao longo das últimas décadas. “Eventos eloquentes: o agir da Igreja na história” é o título da obra do purpurado que, durante muito tempo, presidiu o Comitê Pontifício das Ciências Históricas.

O livro fala de espaços entre pontificados, concílios, excomunhões e conclaves, desenhando o rosto e a missão da Igreja e aprofundando "na realidade concreta", não só na ideia generalizada que existe dela.

Nesta entrevista concedida a ZENIT, o prudente e reservado Brandmüller, de 85 anos, prefere não falar do seu colega de universidade Joseph Ratzinger, que "ainda vive e eu o respeito", nem expressar um parecer sobre o pontificado do sucessor, Bergoglio, porque "eu sou um historiador: falo do passado e não do presente ou do futuro". E sobre a história e o passado, ele tem muito a dizer e recordar.

ZENIT: Eminência, quais são os "eventos eloquentes" de que fala o seu livro?

Card. Brandmüller: São muitos. A relação entre a Igreja e a arte, a presença de Giovanni Hus no Concílio de Constança, a visita a Roma de Martinho Lutero em 1510 durante o Concílio de Trento, a relação entre Galileu Galilei e a Igreja. Mas também o papel da Igreja católica na Alemanha comunista, os pontífices alemães, etc.

ZENIT: Por que repassar os séculos de história da Igreja hoje?

Card. Brandmüller: Eu acho que este livro, em nossos dias, poderia ter pouca sorte. Hoje o interesse da maioria, inclusive no governo da Igreja, está voltado ao presente, ou melhor, ao futuro. “Sim”, eles dizem, “temos que estudar a história eclesiástica”, mas não são muitos os que consideram esta disciplina realmente importante. São muitos, por outro lado, os que a consideram um "antiquário", que preserva as curiosidades, que conta episódios edificantes, às vezes extravagantes e divertidos, mas que, no geral, não é muito útil para resolver os problemas de hoje. Este pensamento é sintomático dessas heresias filosóficas muito difundidas, como o utilitarismo e o pragmatismo, que são correntes intelectuais realmente destrutivas, em especial quando invadem o pensamento teológico e a atitude pastoral.

ZENIT: A introdução do livro diz: "Quem conhece o passado concreto da Igreja percebe a realidade vital...". Certas problemáticas, certos desafios e lacunas da Igreja de hoje podem ser resolvidos à luz do passado?

Card. Brandmüller: Absolutamente sim. A Igreja, no percurso dos séculos, põe em prática, realiza o seu próprio ser. No fim das contas, a natureza de uma coisa não pode ser conhecida se não for através da sua atuação. Por isso, a natureza da Igreja também não pode ser conhecida se prescindimos da sua atuação ao longo da história.

ZENIT: Nos seus estudos, o senhor encontrou um fio condutor em todos estes séculos?

Card. Brandmüller: O fio condutor é sempre o mesmo: a genuína missão da Igreja. A transmissão autêntica da verdade do Evangelho e da graça de Cristo à humanidade em todos os séculos através dos sacramentos. A maneira de a Igreja realizar a sua missão é uma coisa que podemos estudar levando a sério os resultados da pesquisa histórica.

ZENIT: E o que a pesquisa histórica diz: a Igreja cumpriu sempre a sua missão?

Card. Brandmüller: Sempre mais ou menos! (ri). Não é um percurso homogêneo. Há momentos de grandes prestações religiosas, mas muitos outros períodos de decadência. A vida é assim...

ZENIT: O momento atual, por exemplo, no pontificado de Francisco: para os seus olhos de historiador, que momento é este para a Igreja católica?

Card. Brandmüller: Precisamente porque eu sou um historiador, eu me ocupo do passado, não do presente. Tudo está em movimento agora, tudo está aberto... Serão os meus colegas do próximo século que vão dar um parecer.

ZENIT: E os últimos 50 anos desde o Concílio Vaticano II, como podemos defini-los quanto à vida da Igreja?

Card. Brandmüller: (Ri) Teríamos muitas coisas para dizer... No livro há um estudo meu que se concentra em particular nos conflitos de interpretação pós-conciliar. Estas décadas foram certamente muito agitadas, demais, por problemas que, em grande parte, ainda esperam uma resolução.

ZENIT: Seria culpa também do "concílio da mídia", de que falava Bento XVI?

Card. Brandmüller: Sim, também, mas não é um traço distintivo do Vaticano II. Também no Concílio Vaticano I os jornalistas da época publicaram notícias inexatas e tiveram um papel de grande relevância.

ZENIT: Por que acontecem essas distorções dos ensinamentos conciliares?

Card. Brandmüller: Talvez por causa de um falso conceito do que é a Igreja. Se a Igreja é definida como o Cristo místico presente na história, uma realidade humano-divina, com certeza se interpreta de outra maneira o concílio. Um concílio ecumênico como o Vaticano II é a atuação do sumo Magistério da Igreja, cujos documentos são de valor decisivo para a Igreja. Mas muitos o consideraram e interpretaram sempre só como uma realidade histórica, humana, sociológica, política e assim por diante.

ZENIT: Cinquenta anos não bastaram para se compreender e pôr em ação os ensinamentos conciliares?

Card. Brandmüller: Não, o Concílio Vaticano II ainda está longe de ser realizado na vida da Igreja. É necessário ainda estudar os documentos de forma mais profunda para depois colocá-los em prática.

ZENIT: Na sua opinião, é possível que Francisco abra um Concílio Vaticano III?

Card. Brandmüller: Possível é tudo, mas eu acho que não… Em todo caso, não falamos de futuro. Como eu lhe dizia, sou um historiador. Prefiro falar do passado.