Brasil: "Os cristãos devem levar o sal e a luz do Evangelho ao mundo da política"

Entrevista com Dom Henrique Soares. Orientações para os católicos nas próximas eleições

São Paulo, (Zenit.org) Igor Rafael Oliveira Carneiro | 492 visitas

Em 2014 é a vez do Brasil voltar às urnas. A cada vez que isso acontece, surge uma oportunidade para crescimento na formação sobre a missão do católico na política, para que, em vez de alheio ou desorientado, possa ser sal da terra e luz do mundo. Nesse contexto, ZENIT entrevistou Dom Henrique Soares, bispo auxiliar de Aracaju/SE.

Dom Henrique é bastante atuante nas redes sociais, onde expande sua atuação como formador e evangelizador para além de suas fronteiras, prestando verdadeiro favor a nós católicos.

Nesta entrevista, ele responde de forma sucinta, mas que não deixa de ser profunda, algumas perguntas pontuais sobre o tema “política”, que já nos acomete e nos prepara para bem realizarmos nossa missão de cidadãos no ano vindouro. Acompanhe a entrevista abaixo:

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ZENIT: Dom Henrique, diz no Catecismo da Igreja, no nº 1879, que a vida social é necessidade para o ser humano. Pode-se considerar, em virtude disso, a participação política na sociedade, não apenas como dever humano, mas como um dever do cristão?

Dom Henrique: Sim. A política no seu sentido mais profundo de cuidado e responsabilidade pela construção da sociedade, da pólis, em que se vive e, em última análise, da própria sociedade humana, é um dever do cristão. O Papa Paulo VI dizia mesmo que a política é uma das mais belas formas de caridade, de vivência efetiva do amor ao próximo, já que busca o bem comum. É preciso compreender que, se para os cristãos, Cristo Jesus é o Salvador da humanidade e do cosmo, nada que interesse ao ser humano e à criação pode ficar fora do Seu âmbito e da Sua luz redentora e transfigurante. Os cristãos, em nome de Cristo, devem levar o sal e a luz do Evangelho ao mundo da política. É um dever nosso, sob pena de omissão.

ZENIT: A Igreja direciona algum posicionamento político, como ser de direita ou esquerda, ser mais liberal ou social?

Dom Henriquei: Não. A Igreja não indica espectros ideológicos quaisquer. Ela preocupa-se com valores concretos. Um cristão não deveria nunca apoiar grupos que defendam ideias contrárias ao Evangelho. Por outro lado, todas as propostas dos vários grupos políticos, têm suas ambiguidades. Os cristãos devem estar atentos a isso para não aderirem de modo ingênuo e acrítico a uma cartilha ideológica, a uma partido ou candidato. Adesão sim, mas com senso crítico, separando o joio do trigo. Poder-se-ia pensar: Então, por que não criar um partido especificamente cristão? Pode-se criar um partido de inspiração cristã, mas não é de modo algum conveniente que a Igreja adote um partido ou se ligue a este ou aquele grupo político. Este tipo de solução, ao final, revela-se sempre muito prejudicial!

ZENIT: É lícito ao católico, ou o senhor mesmo reconhece o bom efeito das lutas dos socialistas dos séculos passado e retrasado no modelo estatal atual? Por exemplo, na nossa Constituição temos os direitos sociais elencados como direitos fundamentais, o senhor crê que isso foi resultado de uma luta dos movimentos sociais?

 Dom Henrique: Certamente que as grandes lutas dos movimentos sociais ajudaram a configurar o ordenamento dos direitos dos trabalhadores. No entanto, é necessário distinguir aí o que é luta legítima e os aspectos ideológicos incompatíveis com a fé cristã ou mesmo irreais no âmbito da prática. A Igreja não canoniza ideologia alguma! Procura exercer um constante discernimento sobre as mesmas, sejam de direita, de centro ou de esquerda. Todas elas trazem as marcas da ambiguidade! Um exemplo concreto desse constante discernimento: vários papas condenaram o marxismo como um bloco; isto não impediu que o Papa Bento XVI apontasse algumas intuições corretas no pensamento de K. Marx. Uma coisa é certa: tem que haver responsabilidade social por parte do Estado, mas é um grave erro pensar-se num Estado onipotente e onipresente. Deve haver espaço real para a iniciativa privada. Mais que teorias, é a própria prática, a experiência que demonstrou isto!

ZENIT: Além das razões do Papa Pio XI na Encíclica Divinis Redemptoris, o senhor tem mais razões pessoais, baseado nas quais deseje orientar os católicos, acerca do comunismo, de suas falhas e de seu perigo? 

Dom Henrique: Falar hoje em comunismo é meio anacrônico. O comunismo clássico, aquele de que tratou o Magistério no passado, não é mais um perigo nem seduz mais ninguém. As condições materiais e espirituais do mundo mudaram de tal modo que somente guetos totalmente alienados da realidade podem ainda defender o comunismo clássico como solução para alguma coisa. Os últimos Papas têm chamado atenção para os elementos contrários à fé cristã seja no comunismo que no capitalismo. No comunismo, grandes perigos são (1) a contradição e a luta como instrumentos indispensáveis para conseguir uma sociedade justa, (2) uma concepção imanentista da história – aí não há lugar para Deus e a religião. E, apesar de todo o abrandamento dessa visão, feita por alguns teóricos marxistas, esta percepção de fundo continuará dominante no comunismo clássico e determina a discussão de temas como aborto, família, sexualidade, liberdade de expressão... e (3) o excessivo estatismo, que nega um princípio muito caro ao pensamento católico: a subsidiariedade! O Estado não pode abarcar tudo, determinar tudo! Isto levará sempre, inapelavelmente à tirania. Mas, atenção: tudo isto não quer dizer canonizar o capitalismo. Um capitalismo selvagem, desprovido de sensibilidade social, de leis que obriguem o Estado aos serviços básicos a todo cidadão, um capitalismo que não garanta um arcabouço legal para os menos favorecidos e os trabalhadores, seria desumano quase tanto quanto uma tirania comunista!

ZENIT: Por fim, como senhor orienta o católico para que ele possa bem votar nas próximas eleições?

Dom Henrique: Eu diria o seguinte: vote pensando em três coisas: (1) Você estará ajudando a construir um mundo pró ou contra o sonho de Cristo;  (2) Vote pensando nos valores do Evangelho; (3) Vote pensando no bem comum e não somente nos seus interesses. Penso que estes três pontos orientem bem o nosso voto.

(Red.T.S.)