«Caminho Neocatecumenal está em função da nova Evangelização» (II)

Kiko Argüello explica algumas particularidades desse itinerário de formação cristã

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Por Inmaculada Álvarez

PORTO SAN GIORGIO, quarta-feira, 2 de julho de 2008 (ZENIT.org).- Nesta segunda parte da entrevista concedida à Zenit por ocasião da aprovação definitiva dos estatutos do Caminho Neocatecumenal, o espanhol Kiko Argüello explica algumas das notas características desse itinerário catecumenal, como os seminários «Redemptoris Mater», a liturgia e as famílias em missão.

Nas celebrações litúrgicas, o Caminho Neocatecumenal introduz uma série de novidades que, em alguns casos, provocaram conflitos, como a mudança de lugar do rito da paz, a forma de realizar a comunhão ou as celebrações realizadas à noite, especialmente a Vigília Pascal, em que a Eucaristia dura até o amanhecer. Poderia explicar a que se devem estas mudanças?

–Kiko Argüello: Estas mudanças não são novas, mas supõem uma volta a tradições antigas. Em toda a Igreja do Oriente, o rito da paz se realiza depois da oração dos fiéis, seguindo a frase que diz o Evangelho, «antes de apresentar tua oferenda no altar, vai reconciliar-te com teu irmão».

Nós, ao fazermos um itinerário catecumenal aberto aos afastados da Igreja, vivendo em uma comunidade cristã na qual aparecem nossos problemas e defeitos mais profundos, o rito da paz, estando presente o Corpo de Cristo, era conflitivo porque as pessoas se moviam muito para ir perdoar-se, para reconciliar-se com algum irmão. Então perguntamos se era possível trasladar o rito ao lugar atual, como sabíamos que se fazia no rito ambrosiano, para não romper a solenidade do momento da Comunhão, e isso se compreendeu perfeitamente.

Com relação à Vigília Pascal, o próprio Concílio ajudou em sua recuperação. Muitos teólogos e liturgistas insistiram na importância desta noite na qual não se dorme, a noite da Páscoa, de nossa salvação. Celebrar esta noite ajudou muitos irmãos de Madri, por exemplo, que saíam em férias depois da Sexta-Feira Santa (na Espanha esses dias são festivos), a viverem de uma forma nova a Semana Santa.

Nisso, como em tantas outras coisas, atuamos sempre com boa intenção, buscando ajudar o homem de hoje a redescobrir sua fé e a viver o Evangelho.

Uma das acusações que se faz ao Caminho é que as comunidades «vivem» à margem da paróquia.

–Kiko Argüello: Completamente o contrário! O Caminho nasce na paróquia, vive nela e está a seu serviço. O estatuto definitivo indica inclusive que as Eucaristias que as comunidades neocatecumenais celebram fazem parte da pastoral litúrgica da paróquia e estão abertas a todos os que queiram participar delas.

Pois bem, o viver a fé em uma comunidade pequena é importantíssimo, pois os irmãos se conhecem, ajudam-se inclusive economicamente, rezam juntos. Um dos maiores problemas que o homem moderno tem, e cada vez mais, é a solidão. Há muita gente vivendo sozinha nas cidades. Como nos primeiros tempos do cristianismo, o testemunho dos cristãos através do amor mútuo é necessário, era o que surpreendia os pagãos, que diziam: «vede como se amam». Como diz São Paulo, o cristão está chamado a amar o outro, mas especialmente o irmão na fé.

Também é preciso levar em consideração que muitas pessoas que entram no Caminho estavam afastadas da fé, são «filhos pródigos» que voltam à Casa do Pai, e é necessário ter muita misericórdia com eles até que sua fé amadureça e possam se integrar plenamente na paróquia. Neste sentido, é muito importante o trabalho dos párocos, para explicar isso e que não surjam suspeitas.

Outra das questões que chamam a atenção, e mais ainda porque você é o autor, são as imagens religiosas próprias do Caminho, e que na realidade são ícones de origem cristã oriental que você reproduziu e promoveu. Por que esse tipo de arte e não outro?

–Kiko Argüello: Porque é necessária uma síntese, uma inculturação da fé, uma estética que falta hoje no Ocidente. No passado, a Igreja teve sua estética, na arte bizantina, no barroco, no romântico ou no gótico. Hoje isso não existe, constroem-se paróquias que esteticamente não têm significado. A Igreja participa do mesmo desconcerto cultural que domina o Ocidente na arte.

Nós vimos que é muito importante recuperar a tradição. Até a chegada do Renascimento, a estética do Oriente e Ocidente era comum, até Cimabue. Com Giotto começa uma separação que dura até nossos dias, e a razão fundamental é que a arte ocidental perde o canon. Antes, um autor não podia pintar como queria a arte sacra, porque não tinha uma razão meramente estética, mas evangelizadora. Por isso devia ajustar-se a um cânon, e isso no Oriente se conservou.

Portanto, a recuperação desse tipo de arte no Caminho obedece a duas questões: a primeira, a recuperação do cânon, e a segunda, estender pontes com a Igreja do Oriente. Por isso, para nós é muito importante como se constroem os templos, com uma estética determinada que remete à arte oriental, na qual as pinturas formam uma «coroa mistérica» que recolhe os momentos mais importantes da vida de Cristo, na qual a Eucaristia faz presente o Céu na terra... Pouco a pouco, com muitas dificuldades, fomos recuperando isso.

Esta aproximação da Igreja Oriental tem um significado ecumênico que não estava presente no início do Caminho?

–Kiko Argüello: Efetivamente, estamos surpresos pelos milagres que estamos presenciando. Nunca teríamos aberto seminários, e já temos cerca de 70, nem tampouco teríamos pensado na missão «ad gentes»...

Também a Igreja Ortodoxa, que está presente nesta região, interessou-se, porque viram que nossa catequese é a mesma e se sentiram identificados com nossa estética, perfeitamente oriental. Vieram ver o mural sobre o Juízo Final que pintamos na Domus Galilaeae e se sentiram como em sua casa, com o mesmo espírito. Estavam muito surpresos e se perguntavam o que acontece na Igreja Católica. E o que acontece é simplesmente o que dizia o Concílio Vaticano II, o espírito que o Papa tem, a comunhão entre as Igrejas.

Sobre a Domus Galilaeae, a Casa que o Caminho na Galiléia abriu no Monte das Bem-Aventuranças: com que sentido ela nasce?

–Kiko Argüello: Essa casa, edificada sobre alguns terrenos da Custódia da Terra Santa, nasceu como um desejo de acolher os irmãos das comunidades que terminavam o Caminho (a última etapa desse «itinerário batismal» consiste na renovação solene das promessas batismais na noite da Páscoa diante do bispo, após o qual a comunidade inteira realiza uma peregrinação de vários dias à Terra Santa).

Contudo, também nisso fomos superados, porque essa Casa está supondo uma ponte de união imprevista entre a Igreja Católica e o povo hebreu. Este ano vieram nos visitar cerca de 700 ônibus cheios de hebreus, e ficam surpresos ao ver que lá temos a Torah, os Dez Mandamentos, em relação com as Bem-Aventuranças, que cantamos o Shemá (um canto que recolhe em hebraico o primeiro mandamento da lei de Deus: «Escuta Israel, amarás o Senhor teu Deus de todo teu coração, com toda tua alma, com toda tua mente e com todas tuas forças»).

O Ministro do Turismo de Israel veio à Domus para conhecer-nos e nos perguntou de onde vinha para o Caminho este amor ao povo hebreu. Eu lhe respondi que para os cristãos, a história do povo hebreu era como um «catecumenato» que levava a Cristo; por isso as raízes do cristianismo são hebraicas. No Caminho ressoam com força as palavras de João Paulo II, que os judeus são «nossos irmãos mais velhos na fé», evitando julgá-los, já que o próprio São Paulo explica que lhes foi posto como um «véu» para que não reconheçam o Messias até que os gentios entrem.

Outra das notas características do Caminho é, como você assinalava anteriormente, o caráter missionário, com a criação dos seminários diocesanos missionários «Redemptoris Mater» ou as famílias em missão. Você poderia explicar em que consistem?

–Kiko Argüello: Os «Redemptoris Mater» são seminários diocesanos, do bispo, com a particularidade, como assinalava o anterior arcebispo de Madri, cardeal Suquía, de que a diocese devia respirar «através de dois pulmões, um diocesano e outro para o mundo». O Concílio Vaticano II, nos artigos 9-10 daPresbyterorum Ordinis, diz que na ordenação de todo sacerdote deve estar «a solicitude por todas as Igrejas». Os seminaristas de um «Redemptoris Mater» sabem que podem ser enviados a qualquer lugar do mundo, lá onde os bispos os solicitem. Mas estes seminaristas são do bispo, nós não temos autoridade alguma sobre o clero.

Com relação às famílias em missão, a iniciativa surgiu a partir do Sínodo da Europa de 1985, quando João Paulo II, analisando a situação de secularização do Ocidente, especialmente no que diz respeito à destruição da família, diz aos bispos, surpreendentemente, que o Espírito Santo já estava respondendo a esta necessidade, e que era necessário deixar os modelos de evangelização de sempre e ver onde o Espírito estava suscitando a resposta. Desde então, famílias do Caminho foram aonde os bispos lhes pediram.

Depois está a «missão ad gentes», «missão entre os gentios», que surgiu nos últimos anos. O Papa havia falado também de voltar ao primeiro modelo apostólico, que nasce em torno das casas e em pequenas comunidades. Nos Atos dos Apóstolos encontramos várias dessas comunidades, como o caso de Ninfa, ou de Áquila e Priscila. Nós, no Caminho, vimos que voltar a este modelo é muito importante, especialmente naqueles lugares onde a secularização apagou todas as marcas de cristianismo, uma nova «implantario ecclesiae». Para isso, são, como sempre, os bispos que solicitam esta missão, e vão varias famílias com seus filhos, acompanhadas de um sacerdote.

Mas há mais, porque vimos também a necessidade de enviar «comunidades em missão», ou seja, comunidades que terminaram o Caminho, que já têm uma maturidade na fé, que são enviadas, a pedido dos párocos, a paróquias que atravessam dificuldades, para ajudá-las. Por exemplo, em Roma há 12 comunidades que se ofereceram ao vigário para ir às paróquias mais necessitadas dos arredores.

A aprovação dos Estatutos supõe, portanto, um ponto de chegada, mas certamente também um ponto de partida. O que vem agora?

–Kiko Argüello: O que vem é poder oferecer-nos aos bispos, já com a garantia de que isso é algo da Igreja, para a nova evangelização. O que vem agora é dar um salto à nova evangelização. Porque a felicidade consiste em dar a vida pelos homens, e é a isso que os cristãos estão chamados.