Capitão Thiago Silva: sobrevivente do aborto e uma tatuagem evocativa

A mãe do capitão da seleção brasileira de futebol diz que tinha sido tentada a interromper a gravidez. Seu pai a dissuadiu: "Não cometa pecado"

Roma, (Zenit.org) Federico Cenci | 424 visitas

As imagens mostram-no, enquanto abraçado à sua mulher, admira a beleza de Paris a bordo de um barco que navega no rio Sena. Aproveitando do serviço que a TV brasileira Globo está realizando sobre a sua biografia, o jogador Thiago Silva,  esfrutar de um momento de relaxamento na romântica cidade onde ele trabalha como defensor do time do Paris Saint Germain.

Um trabalho não como os outros, esse do jogador futebol em determinados níveis; um trabalho que lhe dá a abundância de lucros e reputação. Privilégios que podem desgastar aqueles que os possuem. Este é o caso de muitos atletas que, atraídos pelo encanto da fama que os precede, acabam correndo sim, mas fora do campo de jogo, atrás dos fetiches do star system.

Thiago Silva, por outro lado, corre e sua apenas dentro do retângulo verde atrás da bola e dos atacantes adversários. Na vida prefere ir devagar, pensar antes de falar e tomar uma atitude sóbria e digna diante das câmeras. Isto foi visto no último dia 9 de julho, quando, no estádio de elo Horizonte, consumou-se a pior derrota na história da seleção brasileira. Uma derrota de 7-1 contra a Alemanha, que ficará como uma marca indelével, impressa na pele dos torcedores e dos jogadores brasileiros durante toda a vida.

O capitão do time verde amarelo, Thiago Silva, teve que assistir das arquibancadas a hecatombe futebolística dos seus companheiros. A TV de todo o mundo o imortalizou enquanto, com olhar contrito, levava as mãos à cabeça. No final do jogo, em seguida, desceu ao campo, abraçou seus companheiros ainda marcados pela humilhação e, juntamente com eles, levantou os braços para os seus torcedores, em um gesto de desculpas. Gesto que depois repetiu na frente dos microfones dos jornalistas.

Afinal, de uma derrota, por pior que seja, sempre é possível sair. Uma lição que Thiago Silva aprendeu ao longo de sua vida, forjada no contexto duro e perigoso de uma das piores favelas do Rio de Janeiro, Santa Cruz. É aqui que a estrela brasileira teve que lutar para crescer e chegar onde chegou hoje, evitando a tentação de anestesiar a pobreza e a segregação com recurso “fácil” do crime.

Com a luta, Thiago Silva teve muito trabalho pela frente aos 14 anos, quando, por uma tuberculose quase morreu. Mas, antes disso, conheceu a luta sem estar consciente ainda. Trata-se da luta que teve de travar a sua mãe, Angela, exatamente trinta anos atrás, pressionada por uma vida que estava crescendo em seu ventre e pelo desejo insano de interromper aquele maravilhoso processo vital.

A mesma Angela fala daqueles momentos durante o especial de Thiago Silva que foi ao ar na Globo. "Pai, eu não queria fazer um aborto, mas não tenho condições de ter uma criança”, disse desesperada ao seu pai, com lágrimas que quebravam as palavras e colocava em risco o futuro avô da estrela brasileira. O homem ouviu a sua filha, tentando dissuadi-la com cuidado e firmeza ao mesmo tempo. "Ele me impediu – explica hoje a mulher -, me disse que eu não poderia cometer um pecado". Aquele conceito, que alguém hoje - na cultura dominante - diluiria com gotas de falsa piedade, lentamente penetrou no coração de Angela abrindo-o ao amor de nova vida.

Foi assim que convenceu-se a levar adiante a gravidez, até aquele 22 de setembro de 1984, dia em que Thiago Silva veio à luz. Entre a lama de uma família favelada não teria garantido uma existência fácil, mas feliz sim, graças ao amor por um filho que chegou de repente, e, no final, aceito como um presente. Um dom vindo do alto, como o mesmo Thiago Silva sabe em seu coração. E isso está escrito bem na sua pele com uma tatuagem que diz: "Eu não possuo o mundo, mas sou o filho do dono."