Caravaggio, o pintor que conseguiu iluminar a escuridão

Neste ano Roma celebra quatro séculos de sua morte

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Por Carmen Elena Villa

ROMA, quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010 (ZENIT.org).- Famoso pelos contrastes de luz e sombra, pela audácia das representações, tantas vezes revolucionárias para a época. Um “chiaroscuro” (claro-escuro) que realça a humanidade das figuras bíblicas, despertando em seu tempo muitas polêmicas. Assim são as obras de Michelangelo Merisi de Caravaggio, morto há 400 anos.

Antes deste célebre artista, na história da pintura, a luz carecia de ter uma direção precisa. Na maioria das obras de Caravaggio, esse elemento chegou para realçar e iluminar arrebatadoramente a obra.

Roma presta homenagem ao pintor nascido em Milão em 1571. Atualmente acontece no museu Scudiere del Quirinale uma exposição dedicada ao artista, que reúne várias de suas obras-primas, entre elas a “Ceia em Emáus”, “São João Batista”, “A prisão de Cristo”, entre muitas outras.

Apesar da rica coleção em exposição, os organizadores não quiseram extrair das igrejas romanas várias das obras-primas de Caravaggio. Tal é o caso da “Conversão de São Mateus”, que pode se vista na igreja de São Luis dos Franceses, ou a “Conversão de São Paulo” e a “Crucificação de Pedro”, ambas na Igreja de Santa Maria del Popolo, ou a “Virgem dos peregrinos”, que fica na Igreja de Santo Agostinho.

As mostras convidam seus visitantes a ir a essas três importantes igrejas romanas para apreciar as obras que ali se encontram.

Reflexo de sua vida

As pinturas de Caravaggio podem ser classificadas em três partes: a juventude que vai de 1592 até 1599, que retrata a célebre obra do jovem com a cesta de frutas, presente nessa mostra e que pode ser vista na Galeria Borghese de Roma.

A do sucesso que vai de 1600 (ano jubilar em que vários cardeais lhe encarregaram de pintar algumas cenas bíblicas) até 1606, e a da fuga, quando o artista teve que fugir de Roma culpado por um homicídio. Esta terceira época durou até sua morte, em 1610.

“Caravaggio é atraente porque sua vida e suas obras estão estreitamente e quase necessariamente unidas”, garante Claudio Strinati, organizador da mostra.

“Viveu uma vida trágica e desesperada, transmitia uma força extrema na pintura (alguns diziam também que continha feiura), cheia de violência, tragédia, destino trágico e de desespero”, disse Strinati.

Obras que refletiam sua vida, nas que aparece seu rosto, como “Davi e Golias”, na qual, segundo os críticos, o gigante vencido é representado com seu autorretrato. Ou a “Prisão de Cristo”, onde, dentre os mesmos personagens bíblicos (Judas, João e os soldados que os capturaram), se encontra um homem com uma lanterna que, acredita-se, é ele mesmo se representando.

“A revolução está talvez no fato que o professor fala de si desde o início até o fim e interroga o espectador de como é possível ninguém tê-lo feito antes” assegura o organizador da mostra.

Pintor de quadros ao natural, Caravaggio chegou ao ponto de expressar com os gestos, o corpo e a luz, a humanidade de personagens bíblicos. Tal é o caso da obra intitulada “Coroação de espinhos”, que expressa o rosto de sofrimento de Jesus no momento da paixão conjugada com a aceitação íntima desse momento. Ou a “Adoração dos pastores”, na qual, diferentemente de muitas obras famosas que narram o mesmo tema bíblico, ressalta, no entanto, não o tom alegre, mas o tom recolhido e silencioso de seus personagens.

Duas obras sobre o mesmo tema mostram a evolução do pintor tomando uma expressão cada vez mais realista: ambas recebem o nome de “Ceia em Emáus”, a primeira, pintada em 1601 e que normalmente fica na National Gallery de Londres, mostra um Jesus sem barba, como em vários mosaicos paleocristãos. Mostra algumas frutas que não são da estação que corresponde a Páscoa (início da primavera) enquanto a segunda obra com o mesmo nome (pintada em 1606 e que normalmente fica na Pinacoteca de Brera, em Milão) exibe sobre a mesma tela uma natureza morta mais simples, uma atitude mais recolhida da parte dos discípulos e do próprio Jesus que se mostra abençoando e partindo o pão.

Devido a sua morte precoce, e ao fato de que começou ser conhecido aos 21 anos (geralmente os artistas de sua época alcançavam a fama na adolescência), Caravaggio não deixou um grande número de obras. Contudo, nos últimos anos, vários especialistas e historiadores da arte atribuíram novas obras que até o momento eram anônimas, devido à técnica que utilizava e a alguns documentos alusivos a elas que foram encontrados.

Caravaggio morreu só e abandonado no hospital Maria Auxiliadora de Porto Ercole, um pequeno povoado italiano localizada na costa Mediterrânea e que pertence à província de Grossento. Conta a história que foi sepultado às pressas em uma vala comum. Logo foi esquecido, ao contrário do que aconteceu com vários artistas que começaram a ser valorizados logo depois da morte. Suas obras começaram a ser mais reconhecidas no começo do século XX. Por esse motivo, atualmente há muitas lacunas na pesquisa sobre sua biografia e obras.

Um pintor que transmitiu o “claro e escuro, realizando uma pintura capaz de expressar em uma dimensão real o dramático desenvolver da representação, exaltando os valores espirituais dos conteúdos com uma certeza que não tem igual”, disse Francesco Buranelli,  membro da Comissão Pontifícia de Bens Culturais.