Cardeal austríaco às vésperas da visita do Papa: cristianismo, via do futuro (I)

Entrevista ao cardeal Christoph Schonborn

| 1244 visitas

VIENA, segunda-feira, 3 de setembro de 2007 (ZENIT.org).- O cardeal Christoph Schonborn, arcebispo de Viena, lança nesta entrevista um grande desafio: viver a fé cristã como «alternativa». Em um ambiente secularizado, é necessário «oferecer a fé como autêntica alternativa para a sociedade atual».



Pensando na iminente visita de Bento XVI a Viena, Mariazell e Heiligenkreuz (7-9 de setembro), o presidente da Conferência Episcopal Austríaca concedeu uma entrevista a Zenit sobre o ministério petrino e o lado humano do Papa, sobre a importância vital de famílias numerosas para o futuro da Áustria e da Europa, assim como sobre a presença de Jesus nos cristãos.

«Quando o Papa Bento fala, é necessário estar muito atentos, porque o que tem a dizer é sempre muito claro... Eu não sei o que nos dirá. É preciso abrir-se a suas palavras.»

–A visita do Papa Bento XVI está na boca de todos. Mas quem é verdadeiramente o Santo Padre?

–Cardeal Schonborn: É muito simples. É o sucessor do apóstolo Pedro e, por isso, para nós, é o vigário de Cristo, o representante do Senhor aqui na terra, na Igreja visível. Isso é assim. É algo ao mesmo tempo inconcebível e imenso, mas este é, afinal de contas, o segredo do ministério petrino. Para quem quer que o exerça, ser de um determinado país ou ter um outro idioma, é importante, mas secundário. Ele é, antes de tudo, para nós, segundo a fé da Igreja, simplesmente Pedro entre nós, com toda a profundidade, a grandeza e a força do que Jesus profetizou a Pedro, do ministério que lhe confiou, ministério que continua existindo, muito além da figura histórica de Pedro.

–Como são seus encontros com o Santo Padre?

–Cardeal Schonborn: Muito normais. É uma pessoa que conheço há 35 anos, com quem estudei e pude colaborar durante muitos anos; uma pessoa que com o transcorrer dos anos aprendi a conhecer e a estimar profundamente, com grande veneração e admiração. Mas em 19 de abril de 2005, aconteceu em sua vida e em nossa vida muito mais: ele foi eleito como sucessor de Pedro.

Esta é naturalmente uma dimensão nova, que é constante também nos encontros com ele. É o homem, o professor e o cardeal que conheço bem e há tantos anos e, ao mesmo tempo, é Pedro.

–O senhor conhece Joseph Ratzinger/Bento XVI há muito tempo e inclusive apresentou em Roma seu livro sobre Jesus. Quais são suas características como pessoa?

–Cardeal Schonborn: Eu poderia dizer muitas coisas. Em suas memórias, escreveu muito modestamente, mas também acertadamente sobre sua vida. É muito sóbrio na manifestação de sua vida privada. Não fala muito de sua vida, mas se percebe a profunda raiz cristã nela. Vê-se que provém de uma família moldada profundamente na fé, uma família unida na fé e no amor.

Tive a ocasião de conhecer bem a sua irmã Maria, falecida de maneira repentina em 2 de novembro de 1991. Os três irmãos eram muito unidos e deveriam ter pais que os formaram profundamente.

Quem é o Papa a partir de sua história pessoal? É um teólogo especialmente gabaritado e inteligente. Não duvido em dizer que é o último dos grandes teólogos da geração do Concílio – De Lubac, Congar, Rahner, Balthasar. É o mais jovem do amplo leque de teólogos que marcaram o Vaticano II, e é certamente um dos maiores por sua capacidade espiritual e teológica.

–Durante sua audiência com Bento XVI em Castel Gandolfo, organizaram detalhes do programa de sua iminente visita à Áustria. O que o Santo Padre espera dela?

–Cardeal Schonborn: Ele nos fará saber isso e considero que é bom. Quando o Papa Bento fala, é preciso estar muito atento porque o que tem a dizer é sempre muito claro, importante, incisivo, pessoal e fascinante. Não sei o que nos dirá e é bom estar abertos a isso.

O que posso dizer com segurança é que receberemos material suficiente para ulteriores meditações.

–Que tipo de Igreja o Papa encontrará? Qual é, em sua opinião, a situação da Igreja na Áustria?

–Cardeal Schonborn: Da situação da Igreja, só pode falar, afinal de contas, Nosso Senhor, porque a fé se dirige a Ele, e neste sentido é também um mistério dos corações em sua relação com Deus. Isso nenhuma estatística pode quantificar. Mas naturalmente vivemos em um tempo no qual a sociologia religiosa, a psicologia da religião, a estatística, desempenham um papel importante e por isso se estuda sempre como apresentar a religião aos jovens, à geração intermediária e aos idosos.

Certamente, entre hoje e, digamos, os anos cinqüenta do século passado, houve uma grande mudança. Mas não só na Igreja, também na sociedade.

Queria citar só um exemplo: em nossa diocese, temos uma área rural e uma área urbana, a grande cidade de Viena; e depois as áreas em torno da cidade que pertencem à diocese de Viena. Há cinqüenta anos, estas áreas eram terrenos agrícolas, hoje, em sua maior parte, pertencem à periferia de Viena. Isso supõe naturalmente uma mudança radical, ligada à vida profissional, social e familiar de muitas pessoas. A classe camponesa diminuiu muito. Isso repercute também na atitude religiosa.

Considero que o desafio hoje, em uma sociedade muito secularizada, é viver o cristianismo, a fé cristã quase como uma alternativa, uma sociedade de contraste.

[A segunda parte esta entrevista será publicada nesta terça-feira]