Cardeal Bertone: Santíssima Trindade e Fátima

Homilia na dedicação da igreja da SS. Trindade

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FÁTIMA, sexta-feira, 12 de outubro de 2007 (ZENIT.org).- Publicamos a homilia que o cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado vaticano, pronunciou esta sexta-feira, na missa de dedicação da igreja da Santíssima Trindade, em Fátima.




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Amados Irmãos e Irmãs,

«Em união com [Cristo], também vós sois integrados na construção para vos tornardes, no Espírito Santo, morada de Deus» (Ef 2, 22). Estas palavras da Carta aos Efésios, há pouco escutadas, falam duma construção em acto e indicam claramente a sua finalidade: é a morada de Deus. Eu fui enviado, e aqui estou, para vos confirmar no vosso glorioso destino: Também vós sois integrados nesta construção «cujo arquitecto e construtor é Deus» (Heb 11, 10). Se porventura tudo isto aparecesse aos vossos olhos meramente como uma promessa, e não uma obra em acto. Ou então, se todo o mundo se levantasse para vos chamar à razão, dizendo: Resignai-vos, pobres iludidos; não se encontra rasto nem vestígios de um Deus à procura de casa por estes lados! Eis o que tenho a dizer-vos: Não o perscruteis com os olhos porque ainda não enxergam, nem vos resigneis à voz das sereias do mundo porque recusam o canto novo do amor de Deus a nós manifestado. Apoiai-vos, antes, «sobre o alicerce dos Apóstolos e dos Profetas, que tem Cristo como pedra angular» (Ef 2, 20). Ora, um dia alguém perguntou a Jesus Cristo como era possível Deus manifestar-Se a nós e não ao mundo; e Ele explicou: «Quem Me ama guardará a minha palavra e meu Pai o amará; Nós viremos a ele e faremos nele a nossa morada» (Jo 14, 23). Sobre este alicerce, assenta a consoladora certeza: Deus escolheu-nos para sua morada.

Em espírito, detenho-me nos umbrais da minúscula morada do Altíssimo, assinalada com o Sangue de Cristo Redentor, que é cada um de vós aqui presente ou em comunhão connosco pelos meios de comunicação social: em ti, quero adorar o meu Deus e abraçar o irmão ou irmã na graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, no amor do Pai e na comunhão do Espírito Santo. Dilectos fiéis pela unção baptismal e crismal recebida que nos irmana no Corpo místico de Cristo, veneráveis irmãos no episcopado e no sacerdócio, queridos peregrinos de Nossa Senhora de Fátima, a todos transmito a cordial saudação de Sua Santidade Bento XVI e a sua Bênção paterna.

Em particular, saúdo o Senhor D. António Augusto dos Santos Marto, devotado Pastor desta diocese de Leiria-Fátima que, à vista dos inumeráveis filhos que não gerou mas lhe batem à porta, não hesitou em ampliar a sua tenda (cf. Is 54, 1-2) para melhor os acolher com este majestoso templo que hoje dedicamos à Santíssima Trindade. A alegria desta hora e a nossa gratidão é devida de modo especial a seu venerando predecessor, o Senhor D. Serafim de Sousa Ferreira e Silva, que há três anos abençoava o início dos trabalhos tornando-se firme defensor e garante da prossecução dos mesmos. Seu fiel intérprete e incansável promotor é o benemérito Reitor do Santuário de Fátima, Monsenhor Luciano Gomes Paulo Guerra, que se empenhou de alma e coração nesta iniciativa movido pela sua grande devoção a Nossa Senhora. Desejo saudar ainda os idealizadores, os projectistas e as várias empresas que se encarregaram da edificação da igreja e os artistas que cuidaram do seu embelezamento, como este imponente mosaico diante de vós com o Céu que desce até nós, a revelação da meta para onde tende o caminho de cada um. Por fim, um sentido obrigado aos peregrinos de Nossa Senhora de Fátima, a cuja generosidade se fica a dever a cobertura das despesas com a sua construção. Que Deus vos pague! O vosso coração exulte de alegria no Senhor, porque «a alegria do Senhor é a vossa fortaleza» (cf. Ne 8, 10)!

Com o presente rito da dedicação, esta igreja torna-se o trono da divina graça onde poderá alcançar misericórdia quem dele se aproximar confiadamente à procura de um auxílio oportuno (cf. Heb 4, 16). De facto, as palavras «graça» e «misericórdia» campeiam numa visão concedida à Irmã Lúcia no dia 13 de Junho de 1929, cuja realidade (prescindindo naturalmente das coordenadas de tempo e espaço insignificantes, por quanto sabemos, em Deus) poderá doravante ser celebrada e adorada aqui. Dir-se-ia que a Santíssima Trindade aguardava em Fátima por este tributo de gratidão e louvor pela sua incessante intervenção salvífica na história. Eis a descrição da vidente numa carta que dirigiu ao Sumo Pontífice Pio XII, em 22 [vinte e dois] de Outubro de 1940:
Na capela do convento de Tuy, «estando uma noite só, ajoelhei-me entre a balaustrada no meio da capela a rezar, prostrada, as Orações do Anjo. (…) A única luz era a da lâmpada. De repente iluminou-se toda a capela com uma luz sobrenatural e sobre o altar apareceu uma cruz de luz que chegava até ao tecto. Em uma luz mais clara, via-se na parte superior da cruz uma face de homem com corpo até à cinta, sobre o peito uma pomba de luz e pregado na cruz o corpo de outro homem. Um pouco abaixo da cinta, suspenso no ar, via-se um cálice e uma Hóstia grande, sobre a qual caíam algumas gotas de sangue que corriam pelas faces do crucificado e duma ferida do peito. Sob o braço direito da cruz estava Nossa Senhora (…), com o seu Imaculado Coração na mão. Sob o braço esquerdo, umas letras grandes, como se fossem de água cristalina que corresse para cima do Altar, formavam estas palavras: “Graça e Misericórdia”». Até aqui a visão da Irmã Lúcia, que comenta: «Compreendi que me era mostrado o Mistério da Santíssima Trindade, e recebi luzes sobre este Mistério que não me é permitido revelar» (Memórias e Cartas da Irmã Lúcia, edição do P. António Maria Martins SJ, Porto 1973, pp. 463-464).

Dado que a ela não lhe foi permitido revelar, a nós só nos resta contemplar com os olhos da fé o ícone grandioso que nos deixou, onde sobressai a cruz como história trinitária (cf. Bruno Forte, Trinità come storia, Milão 51993, pp. 35-42): o Crucificado entrega ao Pai, na hora da cruz, o Espírito que o Pai Lhe tinha dado e que Lhe será devolvido em plenitude no dia da ressurreição. A Sexta-feira Santa, dia da entrega que o Filho faz de Si mesmo ao Pai e que o Pai faz do Filho à morte pelos pecadores, é o dia em que o Espírito é entregue pelo Filho a seu Pai, para que o Crucificado fique abandonado, longe de Deus, em companhia dos pecadores. É a hora da morte em Deus, quando tem lugar o abandono do Filho por parte do Pai, embora sempre na sua grande comunhão de amor eterno; facto este que se consuma na entrega do Espírito Santo ao Pai e que torna possível o supremo exílio do Filho na alteridade do mundo, o seu tornar-Se «maldição» na terra dos amaldiçoados por Deus, para que estes, juntamente com Ele, possam entrar na alegria da reconciliação pascal.

Lê-se na Carta aos Efésios: «Foi em Cristo Jesus que vós, outrora longe de Deus, vos aproximastes d’Ele, graças ao sangue de Cristo. Cristo é, de facto, a nossa paz. (…) Por Ele, nós podemos, uns e outros, aproximar-nos do Pai, num único Espírito» (2, 13-14.18). De facto, «o homem foi criado para ser integrado em Cristo e, consequentemente, na vida da Santíssima Trindade. Qualquer que seja o afastamento do homem pecador de Deus é sempre menos profundo do que o distanciar-Se do Filho relativamente ao Pai no seu despojamento quenótico (Fil 2, 7) e do que a miséria do “abandono” (Mt 27, 46). Este é, na economia da redenção, precisamente o aspecto da distinção das pessoas na Santíssima Trindade, que por outro lado permanecem perfeitamente unidas na identidade de uma mesma natureza e de um amor infinito» (Comissão Teológica Internacional, Doc. Questões de cristologia, 1980, IV-D. 8). Se, na cruz, o Filho entrega o Espírito ao Pai entrando no abismo do abandono de Deus, na ressurreição o Pai dá o Espírito ao Filho, assumindo n’Ele e com Ele o mundo na infinita comunhão divina. A alteridade e a comunhão dos Três resplandece em plenitude nos acontecimentos da cruz e da ressurreição. A cruz mostra a Trindade que faz seu o exílio próprio do mundo sujeito ao pecado, para que, na Páscoa, este exílio entre na pátria da comunhão trinitária.

Tal poderia ser a interpretação da visão recebida pela Irmã Lúcia, na qual a Santíssima Trindade dá significado e luz a vários elementos que foram sobressaindo nas sucessivas aparições: os preanunciados desígnios de graça e misericórdia; o cálice e a hóstia que sangra, trazidos pelo Anjo aos pastorinhos; a cruz, termo da peregrinação dos mártires; à sua sombra os Corações de Jesus e de Maria solidários e unidos, oferecendo seus méritos pela conversão dos pobres pecadores; o corpo e o sangue de Cristo horrivelmente ultrajados e Deus muito ofendido; o Coração Imaculado da Virgem Mãe, tão triste mas oferecendo-Se como refúgio e caminho seguro até Deus; a luz da graça divina, tanta luz que irradia das suas mãos maternas e penetra no mais íntimo da alma dos pastorinhos fazendo-os verem-se em Deus que era aquela Luz; eles, aliás, viram-se dentro da luz que espargia aquela Senhora vestida toda de branco, mais brilhante que o sol. A mesma graça imploro da Virgem Mãe para os peregrinos de Fátima que entrem pelas portas deste templo que hoje benzemos e dedicamos à Santíssima Trindade.

Neste edifício de culto, há partes especialmente santas: o lugar onde o celebrante preside in persona Christi, o ambão onde se lê a Palavra de Deus, o confessionário, o sacrário onde se conserva a presença eucarística, etc. Contudo, a parte principal é o altar como monumento estável, mesa do sacrifício e da ceia pascal do Senhor. Uma vez que sobre o altar se celebra a Eucaristia, memorial que torna presente o sacrifício de Cristo, e do altar se toma o corpo e o sangue de Cristo para os distribuir aos fiéis, aquele é considerado sinal do próprio Cristo, Cristo que é simultaneamente nosso templo, vítima e altar da Nova Aliança. Ora, na visão da Santíssima Trindade, a Irmã Lúcia indica o altar como o ponto onde a eternidade pousa na terra: «Sobre o altar, apareceu uma cruz de luz…Sob o braço esquerdo, umas letras grandes, como se fossem de água cristalina que corresse para cima do Altar, formavam estas palavras: “Graça e Misericórdia”». Sabeis agora, amados irmãos e irmãs, que a penúltima hora da história é a Cruz, onde a humanidade encontra o único Passador que tem para a sua hora última, ou seja, a do trespasse para o seio da Trindade. O Passador é Jesus Cristo e… «nenhum outro, pois não existe debaixo do Céu outro nome, dado aos homens, pelo qual tenhamos de ser salvos» (Act 4, 12).

Concluo com estas palavras do Acto de Consagração da humanidade feito por João Paulo II no dia 25 de Março de 1984 : «Desejamos, juntamente com toda a Igreja, unir-nos à consagração que, por nosso amor, o vosso Filho fez de Si mesmo ao Pai: “Eu consagro-Me por eles – foram as suas palavras – para eles serem também consagrados na verdade” (Jo 17, 19). Queremos unir-nos ao nosso Redentor, nesta consagração pelo mundo e pelos homens, a qual, no seu Coração divino, tem o poder de alcançar o perdão e de conseguir a reparação. A força desta consagração permanece por todos os tempos e abrange todos os homens, os povos e as nações; e supera todo o mal, que o espírito das trevas é capaz de despertar no coração do homem e na sua história e que, de facto, despertou nos nossos tempos. (…) Vós, Serva do Senhor, que obedecestes da maneira mais plena ao chamamento divino, ajudai-nos a viver na verdade da consagração de Cristo por toda a família humana do mundo contemporâneo». Amém.

[Texto em português difundido por Rádio Vaticano]