Cardeal Cañizares: «Laicismo implica destruição do homem»

Entrevista com o arcebispo de Toledo e primaz da Espanha

| 259 visitas

QUERÉTARO, terça-feira, 17 de julho de 2007 (ZENIT.org-El Observador).- O cardeal Antonio Cañizares Llovera, arcebispo de Toledo e primaz da Espanha, passou brevemente pelas terras mexicanas para participar da ordenação de sacerdotes dos Operários do Reino de Cristo.



Ele também deu uma conferência na cidade de Querétaro sobre um dos temas que mais o preocupam: o laicismo e suas relações com a vida da Igreja e do Estado contemporâneo.

Antes das conferências, Zenit-El Observador pôde conversar longamente com uma das figuras atuais mais importantes do episcopado espanhol, impulsor de universidades católicas, promotor da catequese e colaborador de Bento XVI como membro da Congregação para a Doutrina da Fé e da Comissão Pontifícia «Ecclesia Dei».

--Eminência, como a Igreja Católica pode subsistir em um entorno cada dia mais contrário a Cristo?

--Cardeal Cañizares Llovera: O laicismo tem seu centro na negação de Deus, no prescindir de Deus. Que Deus não apareça na vida pública; que se reduza, no melhor dos casos, à esfera do privado. Porque o homem se considera autônomo; porque acha que a sociedade do futuro é uma construção do presente pelo próprio homem. Sem Deus atuando na vida, o homem se torna deus; é uma expressão do então cardeal Ratzinger, o homem sem Deus leva o inferno ao outro, porque o que é o inferno, senão o viver separado de Deus?

--Na atualidade, Deus e o homem parecem correr por dois caminhos diferentes, não é mesmo?

--Cardeal Cañizares Llovera: Sim, mas é verdade que não existe futuro para a humanidade à margem de Deus, nenhum futuro. Não existe, tampouco, futuro para o homem concreto à margem de Deus. Ainda mais: a afirmação de Deus é a afirmação do homem. O futuro está precisamente em afirmar Deus afirmando o homem. Isso é Jesus Cristo, o futuro do homem. No livro «Jesus de Nazaré», o que o Papa Bento XVI faz é afirmar Deus em Jesus Cristo, afirmando o homem em Jesus Cristo. Isso leva a que a Igreja não se separe da sociedade, que possa entrar em diálogo com o pensamento do momento, mas apostolando no homem, apostando nos direitos fundamentais, apostando na verdade do homem, apostando em uma moral, apostando no bem... O laicismo não aposta no bem.

--Qual é a aposta de fundo do laicismo?

--Cardeal Cañizares Llovera. Que o homem é criador de si mesmo; por conseguinte, é o fator decisão o único fator que conta. Na Espanha, por exemplo, existe uma destruição do homem, uma desumanização, uma perda de critérios morais, de princípios morais enorme. Podemos escutar um discurso do presidente sobre o estado da Nação, no qual ele diz que «nós apostamos na família, a família está melhor que nunca e vamos melhorá-la dando 2.500 euros por cada filho que nasça». No entanto, ao mesmo tempo, está se permitindo que o matrimônio como tal entre um homem e uma mulher desapareça do Código Civil. Isso leva a que não exista matrimônio na Espanha: isso, mais ataque à família, impossível.

--A ditadura da maioria legislativa...

--Cardeal Cañizares Llovera: Isso reforça o que eu disse antes: o centro do assunto é a decisão, neste caso, o que foi decidido por alguns homens, através da legislação, converte-se em uma medida de organização social. O laicismo -- repito -- leva consigo a destruição do homem.

--Podemos definir o futuro da Igreja com esta frase: «menos numerosa, porém mais fiel»?

--Cardeal Cañizares Llovera: Assim será, é uma etapa. Mas a Igreja tem a vocação de universalidade e de fazer chegar essa salvação, da qual é protagonista, a todos os homens. A vocação final da Igreja é que em seu seio, em sua casa, estejam todos os homens. Não tem, portanto, uma vocação de minorias, ainda que também seja minoria, porque é fermento.

--Como o senhor vê a Igreja nos próximos anos?

--Cardeal Cañizares Llovera: Será uma Igreja que, desde uma experiência muito profunda de Deus, testifique o Deus vivo no meio dos homens; uma Igreja eminentemente evangelizadora, ou seja, eminentemente eucarística. Uma Igreja de pequenas comunidades, mas aberta totalmente ao homem. É assim que eu a vejo.

--Qual é sua opinião sobre o tema de fundo do documento de Aparecida, a missão permanente com os já batizados que a Igreja deve ter em nosso continente?

--Cardeal Cañizares Llovera: Isso é necessário, que os batizados sejam, por sua vez, missionários. A evangelização dos batizados é a catequese. Precisamos que haja, em todos os âmbitos, cristãos que vivam sua identidade de cristãos; somente a identidade de cristãos poderá oferecer o testemunho de Jesus Cristo para os homens.

--O que representa, neste momento de dissolução de verdades absolutas,, o tema da catequese? Este tema não é um assunto do passado?

--Cardeal Cañizares Llovera: A partir da publicação do «Catecismo da Igreja Católica», temos uma orientação muito clara do que é a fé. Não somente no conteúdo, mas nos fins da catequese, como é preciso concebê-la, qual é o seu método, com que instrumentos contamos para a iniciação cristã... A Igreja entrega o que ela é para que se possa viver o que ela é. O Catecismo nos entrega o que é a Igreja, em que ela acredita, a história da salvação que se cumpre nos sacramentos, a nova vida à qual a caridade nos convoca. Esta nova vida está no desejo do encontro definitivo com Deus, na esperança...

--Que importância tem hoje a Doutrina Social da Igreja? Está penetrando nos âmbitos católicos de ação?

--Cardeal Cañizares Llovera: A Doutrina Social da Igreja está sendo estreada. O «Compêndio da Doutrina Social da Igreja» é ou deveria ser um elemento inseparável do Catecismo da Igreja Católica. Mas não realizamos esta fusão. Onde está sendo aplicado o «Compêndio da Doutrina Social da Igreja»? Neste tema, pareceria que tudo deve reduzir-se ao aspecto econômico; mas ficam de lado temas tão importantes como o da vida, o da família, o da pessoa humana, o da comunicação social... Tudo está aí! Aí está a vida humana vivida desde o Evangelho! Por isso é o ensinamento mais avançado que existe: não há nenhuma teoria política nem social tão avançada como a Doutrina Social da Igreja.

--Que necessita a Igreja para que esta Doutrina Social renda frutos?

--Cardeal Cañizares Llovera: O que necessita é fé; que o homem creia: que o homem aceite a Deus. Nossos avós não viviam com a Doutrina Social da Igreja, a praticavam. Eram homens de fé que a viviam em sua simplicidade e na normalidade da vida. Não havia neles esta dicotomia que nós estabelecemos tão facilmente entre a fé e a cultura; entre a fé e a vida cotidiana.

--Hoje se perdeu a noção de pai…

--Cardeal Cañizares Llovera: No laicismo o que importa não é que haja ou não haja pai. O que importa é que as criaturas nasçam como tenham que nascer e que haja uma sociedade que forme esse cidadão. O Estado toma o lugar do pai. E isso é muito grave para o futuro do homem. E o laicismo – há que dizer – leva a isso. O laicismo em definitivo é a proclamação do Estado ateu, ainda que o Papa Bento XVI já nos advertiu, uma e outra vez, que é impossível um Estado ateu. Porque um estado ateu se volta contra o homem sempre, porque é um poder totalitário, um Saturno que come seus filhos. Sucedeu na União Soviética, antes, com a Revolução Francesa, no nacional-socialismo.

--O Papa contrapõe a civilização cristã com o Estado ateu comparando os monastérios de São Bento e Chernobil. Que opinião merece?

--Cardeal Cañizares Llovera: O Papa diz que há que voltar a São Bento. Que o futuro do mundo está em São Bento: o homem que busca e afirma a Deus. E então cria comunidades que se estendem, que civilizam, que fazem cultura e refazem tecido social. O Papa nos fala do que é a nova evangelização – foi sua intervenção no Jubileu de 2000 – dizendo que esta é «aprender a arte de viver». Nestes tempos, estamos na necessidade de assumir a parábola do grão de mostarda. Estamos em tempos de semear grãos de mostarda.

--Como pode refazer-se a sociedade ferida pela desordem e a indiferença?

--Cardeal Cañizares Llovera: São Bento encontrou-se com uma sociedade totalmente destruída. E a refez mediante as comunidades onde – acima de tudo – se busca Deus. Orar, para afirmar a Deus, e a partir da oração não desentender-te do trabalho com o outro, não desentender-te da ação. A adoração transforma o homem.

--Finalmente, que cabe esperar do pontificado de Bento XVI?

--Cardeal Cañizares Llovera: Primeiro, uma continuidade com o pontificado de João Paulo II. A obra deste e a de Bento XVI têm uma profunda afinidade, enriquecem-se mutuamente. No que diz respeito a Bento XVI, o que cabe esperar, antes de tudo, é uma volto ao essencial em tudo.