Cardeal Damasceno: “a Providência sempre nos surpreende” (1)

Arcebispo de Aparecida narra sua trajetória

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Por Alexandre Ribeiro 

APARECIDA, quinta-feira, 18 de novembro de 2010 (ZENIT.org) – A biografia de Dom Raymundo Damasceno Assis surpreende. Cardeal nomeado por Bento XVI para o consistório de 20 de novembro, o arcebispo de Aparecida, hoje com 73 anos, viu sua trajetória se entrelaçar com momentos marcantes da vida da Igreja e da sociedade nas últimas décadas.

Único latino-americano em atividade nomeado cardeal por Bento XVI nesta ocasião, o atual presidente do CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano) cursou teologia em Roma nos anos do Concílio Vaticano II, foi jovem padre em Brasília no período mais repressivo da ditadura militar, ajudou a coordenar os trabalhos da Conferência de Santo Domingo e hospedou a Conferência de Aparecida.

Dom Damasceno recebeu ZENIT em sua residência, em Aparecida, na manhã do dia 8 de novembro, para contar um pouco de sua trajetória. Confira a seguir.

ZENIT: Hoje cardeal nomeado. Mas tudo começou em Capela Nova, em Minas Gerais. Como foi sua infância e o despertar da vocação sacerdotal?

Dom Damasceno: Capela Nova é uma cidadezinha de 5 mil habitantes, que já deu quase 30 padres. Uma cidade pequena, numa região de pequenos proprietários rurais. É muito religiosa e com suas tradições religiosas muito fortes. Eu nasci em uma chácara, uma pequena propriedade a 2 km da cidade, onde meu pai criou toda a família. Éramos dez filhos. Ele tinha seu pequeno gado e cultivava o suficiente para nos mantermos. Vivíamos muito modestamente, mas sem passar necessidade. Desde cedo, comecei a frequentar o catecismo, ajudar como acólito. A partir daí, desse ambiente religioso na família e na cidade, e muito próximo da igreja, através da ajuda nas missas, tive esse gosto de ajudar na Igreja.

Foi quando passou por lá, em 1948, um irmão marista, cuja função era recrutar vocações. Ele passou por nossa escola dando um pouco de aula de catequese, fazendo perguntas às crianças. Eu estava muito interessado no que ele perguntava, respondia e me manifestava. Num determinado momento ele perguntou quem queria ir com ele. Imediatamente eu levantei a mão, sem saber exatamente o que isso significava, ou suas consequências. Eu tinha entre 10 e 11 anos. Creio que o irmão não acreditou muito quando eu levantei a mão. Ele me disse que iria a uma cidade vizinha buscar um candidato e que no retorno passaria pela estação de trem, em Carandaí. Se eu estivesse  lá, me levaria. Mas sem nenhum compromisso caso eu não aparecesse. Acho que ele acreditou que eu desistiria da ideia, que tinha sido apenas um momento de entusiasmo. Eu falei com meus pais que eu queria ir. Realmente no dia e na hora que ele marcou eu estava lá.

Chegamos ao Juvenato São José, na cidade de Mendes, no Estado do Rio de Janeiro, uma fazenda na mata atlântica, que hoje se transformou em hotel fazenda. Nos dois primeiros dias fiquei chorando para voltar a casa. Então os amigos chegam, chamam para jogar bola. Com alguns dias a gente se enturma, e o esporte, os estudos e a vida de comunidade vão ocupando o tempo e a saudade vai passando. 

Ali eu terminei o ensino primário e o fundamental [15 anos de idade] e fui discernindo que minha vocação não era para ser irmão. Aparecia para mim de uma maneira mais clara que o meu caminho seria o sacerdócio ordenado. Conversei com meu diretor e saí dos Irmãos Maristas. Voltei para casa em Conselheiro Lafaiete, pra onde minha família tinha se mudado, na mesma arquidiocese, de Mariana. Nessa cidade eu conversei com o bispo auxiliar de Mariana, pedindo a ele que me encaminhasse para o seminário, pois o meu desejo era ser padre. Ele facilitou minha entrada no seminário de Mariana, onde completei o ensino médio [18 anos de idade]. Depois eu passei para o seminário maior, onde fiz o curso de filosofia.

No final dessa etapa, o arcebispo de Mariana, Dom Oscar de Oliveira, tinha prometido a Dom José Newton, arcebispo de Brasília, capital que acabava de ser inaugurada, em abril de 1960, mandar um seminarista maior para colaborar na nova arquidiocese. Meus superiores no seminário me disseram que o candidato seria eu. Eu aceitei. A partir de maio de 1960, eu passei a pertencer oficialmente à arquidiocese de Brasília. Terminado o curso de filosofia nesse ano, mas ainda em Mariana, Dom Newton me chamou a Brasília.

ZENIT: De Brasília o senhor já seguiu para Roma, justamente nos anos do Concílio Vaticano II. Como foi essa etapa? 

Dom Damasceno: Dom Newton me perguntou se eu queria fazer o curso de teologia em Roma, pois Brasília ainda não tinha seminário maior. Eu aceitei. Fiz todo o curso de teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana, morando no Colégio Pio Brasileiro. Esse meu curso de teologia coincidiu exatamente com a abertura do Concílio Vaticano II, pelo Papa João XXIII, e também a sua clausura, em 1965, pelo Papa Paulo VI. Foi um período muito rico. Tivemos a experiência de ver os pastores da Igreja reunidos em Roma, ao redor de Pedro, tratando de temas importantíssimos para toda Igreja. Tudo isso tinha uma incidência muito grande sobre nós, primeiramente porque éramos jovens. Tínhamos um idealismo como que fôssemos renovar a Igreja. Havia aquela ansiedade durante as aulas, uma inquietação, um certo desejo de aguardar o que o Concílio iria decidir, ao invés de só aceitar o que estava escrito nos livros ou o que era exposto pelo professor. “Será que o que ele está dizendo hoje vai mudar amanhã?”, pensávamos. Foi um momento muito especial, de muito contato com os grandes teólogos da época, o desejo de ouvi-los, de conhecê-los. Eram nomes citados nos livros e nas aulas que estavam ali em Roma. 

Terminada a teologia em Roma fui para a Alemanha fazer um curso superior de catequese, em Munique. Era um curso aberto pela Conferência Episcopal Alemã, destinado sobretudo a formar catequetas nos países em vias de desenvolvimento. Foi outro período muito rico.

ZENIT: Quando o senhor retorna ao Brasil, chega no período mais repressivo da ditadura militar, como foi?

Dom Damasceno: Eu me ordenei em 1968, no período crítico do governo militar, quando se promulgou o Ato Institucional número 5, que endureceu muito mais o regime. Isso teve como consequência uma censura muito rigorosa aos meios de comunicação e um combate duro a todo tipo de oposição. Eu cheguei nesse contexto. Vindo do exterior, como padre novo, na capital federal, percebe-se que está sendo vigiado. Havia uma procura de querer informar sobre quem é você e quais as suas posições teológicas, políticas. Não tive nenhum problema direto, de confronto, mas sentia que havia um controle, seja das pregações ou das atuações. Havia, por exemplo, infiltração de elementos militares em organizações da Igreja, em movimentos jovens, em cursos para leigos, para reportar as informações aos oficiais. Nesse período havia palavras tabus, que você não podia usar. Por exemplo, a palavra “tortura”. Era praticamente proibido usar essa palavra. Na Universidade, quando fui professor na UnB, durante os anos 70 especialmente havia controle das aulas. Era um período em que havia vigilância, com os telefones grampeados, as pregações, dependendo da igreja e do padre, eram gravadas.

Em Brasília, fui coordenador da catequese, colaborador direto do arcebispo na Cúria, depois pároco por seis anos, e finalmente fui encarregado de enviado para fundar o Seminário Maior de Brasília, que ainda não existia até 1976. Permaneci no Seminário e na Universidade durante 14 anos, como professor, administrador do Seminário, até ser eleito bispo auxiliar de Brasília, em 1986. Um pouco depois, em 1991, fui eleito secretário geral do CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano). A partir desse ano, fui viver em Bogotá. O cardeal Dom Freire Falcão, de Brasília, permitiu que eu vivesse em Bogotá, dispensando-me dos serviços de bispo auxiliar da arquidiocese. 

ZENIT: Nesse momento o senhor assumiu um difícil trabalho às vésperas da Conferência de Santo Domingo (1992), em torno da qual houve muita polêmica, não?

Dom Damasceno: Eu morei quatro anos em Bogotá. Quase os dois primeiros foram praticamente dedicados à preparação da Quarta Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, a Conferência de Santo Domingo. Foi uma conferência muito difícil. Primeiramente porque, quando eu cheguei, a preparação já estava pela metade. E ao mesmo tempo, uma preparação que não estava agradando muito às Conferências Episcopais da América Latina e do Caribe. Então nós tivemos de continuar os trabalhos, mas quase que reiniciá-los. Tivemos de retomar os trabalhos de uma maneira diferente. Nós tivemos de fazer um histórico do processo de preparação até aquele momento, publicar esse histórico, para que os bispos tomassem consciência do que estava acontecendo ou do que tinha acontecido até aquele momento. Tivemos de retomar todos os relatórios das 22 Conferências Episcopais, recolher tudo que havia nesses informes, publicar um síntese desse material, para a partir desses informes iniciar o processo de preparação mais imediato da Quarta Conferência. Isto é, a partir daí elaborar o chamado Documento de Trabalho. Então nós fizemos isso com um grupo de teólogos de diversas partes da América Latina. Nos recolhemos dois meses fechados no CELAM em Bogotá. Preparamos esse Documento de Trabalho, que foi muito bem acolhido pelas Conferências Episcopais e despertou realmente um ânimo muito positivo. Além do mais, publicamos os informes de todas as Conferências Episcopais e os divulgamos. Pois havia uma desconfiança quanto à preparação no sentido de que não se estavam seguindo os informes das Conferências Episcopais. 

[Continua amanhã...]