Cardeal Müller: a reforma da LCWR continua sendo necessária

O prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé diz às religiosas da associação LCWR que a doutrina da evolução consciente afasta das verdades da fé sobre Cristo

Cidade do Vaticano, (Zenit.org) Sergio Mora | 475 visitas

O prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, cardeal Gerhard Müller, enviou uma missiva às dirigentes da Leadership Conference of Women Religious (LCWR), ou Conferência de Liderança de Mulheres Religiosas, associação de religiosas católicas dos Estados Unidos, que deverá reformar os seus estatutos e procedimentos conforme indicado pela Santa Sé em 2012.

A Conferência de Liderança de Mulheres Religiosas, fundada em 1956, conta com mais de 1.400 entidades membros que representam 80% das aproximadamente 51.600 religiosas dos Estados Unidos, segundo os dados da sua própria página web. 

O cardeal Müller menciona o temor de que a adesão à doutrina da “evolução consciente”, por parte das religiosas, as leve "quase necessariamente a erros fundamentais relacionados com a onipotência de Deus, a encarnação de Cristo, a realidade do pecado original, a necessidade da salvação e o caráter definitivo da ação salvífica de Cristo no mistério pascal". Ele lamenta que a associação tenha dado um prêmio a uma autora criticada pelos bispos dos Estados Unidos devido aos seus erros doutrinais e diz que o assessoramento prestado pelo delegado para os seus congressos e fóruns deve ser visto como uma ajuda para evitar novas dificuldades. Müller recorda que "a Santa Sé considera que a vitalidade carismática da vida religiosa só pode florescer dentro da fé eclesial da Igreja”.

Os antecedentes

A Congregação para a Doutrina da Fé, chefiada então pelo cardeal William Levada, nomeou em 2008 o arcebispo de Seattle, dom Sartain, como seu delegado para supervisar o reordenamento da associação.

Em abril de 2012 terminou a investigação vaticana que levantou preocupações “com a situação doutrinal e pastoral atual da LCWR”. No último dia 30 de abril houve um novo encontro entre ambas as partes.

A missiva

O prefeito, ao iniciar a sua carta, agradece “pelo progresso na realização da avaliação doutrinal" e recorda que "dom Sartain manteve a congregação informada do trabalho de revisão dos estatutos da LCWR e do seu regulamento civil", de modo a garantir que "os documentos fundacionais reflitam de maneira mais explícita" a missão focada "em Jesus Cristo e alicerçada no ensinamento da Igreja sobre a vida consagrada".

Somos conscientes, indica o prefeito, de que, "desde o princípio, a direção da LCWR considerou que a avaliação doutrinal era 'defeituosa e com conclusões baseadas em acusações sem fundamento' e que as denominadas 'sanções' eram 'desproporcionais aos problemas levantados'".

O cardeal Müller, "com franqueza e abertamente", reitera "que as conclusões da avaliação doutrinal são adequadas e que o caminho de reforma da LCWR continua sendo necessário para que a vida religiosa prospere nos Estados Unidos".

Sobre as “sanções desproporcionais”, como a LCWR as definiu e que ainda não estão em vigor, Müller matiza que "a Santa Sé não as entende como 'sanções', mas como um ponto de diálogo e discernimento", porque "permite que o delegado da Santa Sé participe da discussão" e que sejam evitadas "situações difíceis e embaraçosas" caso conferencistas usem fóruns da LCWR "para defender posturas em desacordo com os ensinamentos da Igreja".

Sobre o Prêmio à Liderança Extraordinária, o cardeal lamenta que tenha sido dado "durante a assembleia deste ano a uma teóloga criticada pelos bispos dos Estados Unidos devido à gravidade dos erros doutrinais dos seus escritos". A decisão pode ser vista como uma provocação aberta contra a Santa Sé e contra a avaliação doutrinal, "afastando ainda mais a LCWR dos bispos".

O prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé lamenta ainda que "dom Sartain tenha sido informado da seleção da homenageada só depois de tomada a decisão". Sobre a assembleia deste ano, o purpurado afirma que "a Santa Sé confia no papel ativo de dom Sartain na discussão sobre os oradores convidados e os homenageados".

Quanto às conclusões da avaliação doutrinal, que as religiosas consideram infundadas, o cardeal reconhece que usa uma linguagem dura, mas recorda que os temas em questão "são tão essenciais e fundamentais que não há forma de não considerá-los como um movimento que se afasta do centro eclesial da fé em Cristo Jesus, o Senhor".

Um dos temas que afastam da fé católica é a “evolução consciente”.

“Desde que Barbara Marx Hubbard se dirigiu à assembleia para falar deste tema, há dois anos, todos os números do seu boletim de notícias abordou a ‘evolução consciente’ de alguma forma. As teses fundamentais da ‘evolução consciente’ se opõem à revelação cristã e, quando tomadas irreflexivamente, levam quase com certeza a erros fundamentais relacionados com a onipotência de Deus, a encarnação de Cristo, a realidade do pecado original, a necessidade da salvação e o caráter definitivo da ação salvífica de Cristo no mistério pascal".

Por isso, Müller se pergunta: "Será que as numerosas religiosas que escutaram conferências sobre a ‘evolução consciente’ ou que leram elaborações sobre ela percebem as suas divergências da fé cristã?".

O cardeal explica que "a ‘evolução consciente’ não oferece nada que possa nutrir a vida religiosa como um testemunho particular e profético enraizado em Cristo, que revela o amor divino a um mundo ferido. Não apresenta o tesouro que não tem preço, pelo qual as novas gerações de jovens deixarão tudo para seguir o Cristo. Mas o Evangelho sim! E o serviço desinteressado aos pobres e marginalizados em nome de Jesus Cristo também!".

Encerrando a sua intervenção, o prefeito da congregação destaca que, neste contexto, "podemos entender os comentários do papa Francisco à Assembleia Plenária da União Internacional de Superioras Gerais, em maio de 2013".  O que o Santo Padre propõe "é uma visão da vida religiosa, em particular do papel das conferências de superiores maiores, que, em muitos aspectos, é uma articulação positiva de questões incluídas na avaliação doutrinal".

Finalmente, Müller reconhece ter "uma dívida incalculável com as religiosas, que fizeram parte da minha vida durante muito tempo. Foram elas que me infundiram o amor pelo Senhor e pela Igreja e me animaram a seguir a vocação à qual o Senhor estava me chamando. Portanto, as coisas que eu disse hoje nascem de um grande amor". E acrescenta que "a Santa Sé e a Congregação para a Doutrina da Fé desejam sinceramente que a vida religiosa prospere e que a LCWR seja um instrumento eficaz de apoio para o seu crescimento".

Müller fechou o discurso destacando que o importante é que "a Santa Sé considera que a vitalidade carismática da vida religiosa só pode florescer dentro da fé eclesial da Igreja. A LCWR, como entidade canônica dependente da Santa Sé, tem a grave obrigação de promover essa fé como o fundamento essencial da vida religiosa".