Cardeal pede vigilância quanto à relativização dos direitos humanos

Dignidade e direito à vida dos mais frágeis não podem ser violados, diz D. Odilo

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Por Alexandre Ribeiro

SÃO PAULO, domingo, 27 de julho de 2008 (ZENIT.org).- No contexto do 60º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, celebrado este ano, o arcebispo de São Paulo considera que «é preciso vigiar para que não haja uma relativização» desses direitos.

O cardeal Odilo Scherer escreveu aos fiéis de sua arquidiocese nessa semana, explicando que a Declaração, fruto de um consenso entre as nações após o terror da Segunda Guerra Mundial, enfatizava a centralidade da pessoa.

«Triunfava a convicção de que nenhum Estado e poder totalitário deveria mais esmagar a pessoa humana, que está na origem dos Estados e deve ser a finalidade da existência dos Estados e regimes; daí por diante, esses passariam a ser avaliados pelos demais em função do respeito, ou não, dos direitos fundamentais da pessoa humana», diz o cardeal.

Dom Odilo afirma que, «através do processo de educação formal e informal, a preocupação e a sensibilidade em relação aos direitos humanos precisa ser passada às novas gerações».

Infelizmente --prossegue o arcebispo--, «sinais preocupantes de um retrocesso na questão dos direitos humanos aparecem na violência difusa, gratuita e cotidiana contra cidadãos indefesos, no desrespeito a pessoas motivado por preconceitos de vários tipos, na afirmação exacerbada de direitos subjetivos contra direitos primários do próximo».

«Os discursos em favor da legalização o aborto e da eutanásia esquecem da afirmação do primeiro e mais fundamental direito de cada ser humano, que é o direito à vida... mas  também preocupam a exploração do trabalho infantil e do trabalho escravo, a exploração sexual de crianças e adolescentes, bem como o tráfico de drogas, de armas e de pessoas.»

Dom Odilo recorda que, «em tempos de flagrante violação os direitos humanos, a sua defesa e afirmação consegue recolher adesões com certa facilidade»; «assim aconteceu no Brasil no período da ditadura e da repressão política».

O cardeal afirma que, nos tempos da ditadura, houve muitas organizações e iniciativas atuantes na defesa e na promoção dos direitos humanos. Nesse contexto, Dom Odilo recorda o testemunho de seu redecessor, o cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, «corajoso defensor da dignidade ferida e negada de tantas pessoas», assim como o trabalho da Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese e também da imprensa.

«Em tempos de paz nem sempre acontece a mesma coisa e o risco é o entorpecimento das consciências, sem a mesma capacidade de reação diante dos fatos», afirma o cardeal.

Segundo Dom Odilo Scherer, «a dignidade e o direito à vida de seres humanos frágeis, idosos, com alguma deficiência ou ainda não nascidos é violada com discursos enganosos, que tratam da eliminação e da supressão da vida desses seres humanos como um “direito” de alguém outro... ou a partir da vantagem e da utilidade de semelhantes medidas para a sociedade».

«Faz-se, pois, necessário manter viva a memória dos acontecimentos e também promover a vigilância de toda a sociedade sobre violações novas desses direitos fundamentais», afirma.

De acordo com o arcebispo, «é importante que as novas gerações sejam familiarizadas com a Declaração dos direitos humanos e com a efetiva acolhida desses princípios na vida pessoal e social».

«A violação de um desses direitos deveria merecer sempre uma reflexão atenta da parte de pais e educadores, bem como das nossas organizações eclesiais e pastorais.»

«A própria Igreja quer ser defensora e promotora da dignidade humana, uma vez que isso decorre da sua fé e da sua pregação sobre a pessoa humana à luz do desígnio de Deus», afirma.