Cardeal Poli: as pessoas se aproximam mais da Igreja, fruto da proximidade de Francisco

Entrevista com o novo cardeal, Mario Poli, arcebispo de Buenos Aires

Roma, (Zenit.org) Sergio Mora | 349 visitas

No Consistório, reservado aos cardeais, participaram também os arcebispos que foram criados cardeais no sábado passado.

À noite, ao terminar a sessão, o arcebipo de Buenos Aires, Mario Poli, saiu para voltar onde estava hospedado, a poucos quilômetros do Vaticano. Apesar de que uma pessoa primeiro, e três religiosas depois, ofereceram-lhe leva-lo de carro, mas Mons. Poli preferiu ir com o transporte público. Enquanto caminhava para o seu destino de ônibus, conversou com ZENIT sobre o Papa Francisco e a Igreja hoje, nesta breve entrevista que apresentamos aos nossos leitores.

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ZENIT: Quem morou com Bergoglio diz que está mudado. Antes era um pouco mais sério?

- Monsenhor Poli: Eu acho que exageraram um pouco sobre isso. É verdade que desde o ano 92 que é bispo de Buenos Aires, primeiro auxiliar, em seguida esteve com o cardeal Quarrachino como Vigário Geral, e depois como bispo, cardeal, conferência dos bispos, sofreu um sério desgaste, mas manteve sempre o bom humor, a espiritualidade que o caracteriza e uma das coisas que vemos é que continua sempre tão criativo, das Escrituras, porque o Papa é um grande leitor orante da Escritura. Como aquele ancião do Evangelho que diz, tira do baú o novo e o velho, que é sempre novo. Isso sempre nos admirou e permanece nele. E acho que isso é o que leva o magistério universal e o faz tão bem, essa é a novidade: sem perder a altura teológica e doutrinal, porém tem uma grande veia pastoral, essa é a chave para entende-lo.

ZENIT: Quais são as suas particularidades?

- Monsenhor Poli: Ele tem um grande equilíbrio. E depois, a capacidade de ouvir. Na quinta-feira e sexta-feira esteve de manhã e à tarde escutando, ouviu o tempo todo. Isso foi feito por todos os papas dos últimos tempos. Aqui estão os sínodos, os bispos, os peritos e demais, e se trata de escutar a voz da Igreja. Hoje o magistério da Igreja tem esta instância para recolher primeiro e depois aguardar, digamos, a elaboração e a palavra do Papa que lhe dá forma ao magistério e autoridade. Mas, primeiro escuta muito. E isso foi o que aprendemos nós, que estivemos de auxiliares em Buenos Aires.

ZENIT: O carisma que mudou, é uma graça de estado?

- Monsenhor Poli: Francisco diz que é o Espírito Santo que lhe dá força e alegria. Continua levantando-se muito cedo, fisicamente se sente muito bem. Bom, precisamos reconhecer que aqui o trataram de modo muito especial. Mas nós o víamos tão cansado, que não podia permanecer de pé, tinha um problema de fraqueza nas pernas. Hoje tem uma vitalidade que surpreende, e me parece que graças também a que Deus cuida do seu apóstolo.

ZENIT: Na Argentina viram esses frutos de conversão?

- Monsenhor Poli: Na Argentina é a melhor coisa que nos aconteceu, e pode ser usado para tudo: há aqueles que o procuram para a foto e aqueles que se aproximaram da Igreja. Isso é relatado por todos os padres, párocos dos santuários, os capelães de hospitais, de prisões.. Há uma aproximação à Igreja fruto da sua aproximação. Ele causou uma empatia, a empatia que teve em Buenos Aires, esse carisma tão lindo, e faz com que as pessoas se aproximem dele. Isso continua a nível universal, em diversas línguas, em Filipinas como em Burundi.

ZENIT: E entre as pessoas mais pobres da Argentina?

- Monsenhor Poli: Quando vou às favelas como todos os padres que temos relacionamentos com essas pessoas, agora vejo que tem um milhão de amigos, todos têm uma lembrança dele, não sei quando nem como, têm um quadrinho e me contam que entrou por aqui, etc... Têm esta vivência tão linda, religiosa nesse momento, acho que hoje, tê-lo tão próximo e tê-lo como Papa é uma alegria que tem as pessoas, que é admirável. Cresceu o que sempre falávamos ou escutei de criança: ‘Temos que amar muito o Papa’. Bom, o amam, como amam também a Bento, depois da sua renúncia exemplar, e gostaria de dizer algo sobre isso.

ZENIT: Sim, por favor, diga-nos algo sobre Bento XVI:

- Monsenhor Poli: Para mim se trata de um homem sábio, santo, que chega em seus anos de maturidade, não era um homem jovem mas um ancião venerável, e apesar disso deu passos tão importantes, deixou um magistério tão prolífico, e uma teologia; porque depois de ler os três livros sobre Jesus de Nazaré, os aconselho, e ao seminarista que não o tenha lido, recomendo que o leia.

Deixou-nos finalmente como broche de ouro da sua verdade e autenticidade uma renúncia virtuosa e exemplar. E acho que vai ser uma referência obrigatória, do que significa não apegar-se a nenhum poder, não somente ao papado, que na verdade não é um poder mas um mandato. E apesar de todas as críticas que teve e com o exemplo de um Papa como João Paulo II que não desceu da cruz até o último momento e que é santo. E enquanto isso, ele teve esta visão. E acho que isso deu origem ao que estamos vivendo agora, foi o momento da origem disso.

ZENIT: Você não tem a impressão de que a Igreja esteja vivendo um momento muito particular, com um papa melhor que outro?

- Monsenhor Poli: Como todos os momentos da Igreja - sou professor de História da Igreja - tivemos no século XX Papas muito bons, santos, e realmente um magistério fantástico, uma Igreja missionária, viva, séria, com também seus fiapos que somos nós, com nossas fraquezas. Uma igreja que tem um rosto e que reflete a face de Deus.

(Trad.TS)