Cardeal Sarah: "Amar e fazer o bem é assemelhar-se a Deus"

Presidente do Conselho Pontifício Cor Unum comenta mensagem quaresmal do papa

Roma, (Zenit.org) Jose Antonio Varela Vidal | 1495 visitas

A mensagem de Bento XVI para esta quaresma foi apresentada recentemente pelo Conselho Pontifício Cor Unum. Sobre o seu conteúdo, ZENIT entrevistou o cardeal Robert Sarah, presidente desse dicastério que se dedica às obras de caridade do papa.

ZENIT: Como o católico pode viver esta quaresma mediante a prática da caridade?

Cardeal Sarah: A quaresma é um tempo favorável que a Igreja nos oferece para fortalecermos a relação com Nosso Senhor. Temos que recordar que a nossa relação com Deus se intensifica na oração, na vida sacramental, especialmente através da eucaristia, que é fonte de amor e de doação de nós mesmos para os outros. No ato sublime da entrega de Cristo na cruz, cada cristão é chamado a viver oferecendo todo o seu ser aos irmãos e irmãs. E a prática da caridade é uma forma concreta de receber a Cristo na vida cotidiana, abraçando as necessidades do irmão. Não podemos esquecer que cada ato de caridade cristã não é só um apoio material, mas um reconhecimento concreto do rosto de Jesus pobre e sofredor no irmão necessitado. Quem realmente ama os pobres, ama a Jesus.

ZENIT: O papa disse, na mensagem, que o amor nunca será uma realidade completa. Quando terminaremos de fazer o bem?

Cardeal Sarah: O amor e a bondade são como Deus: não têm fim. Nunca se deixa de amar e de fazer o bem, porque amar e fazer o bem é assemelhar-se a Deus. Eterno é o amor dele por nós, diz o Salmo 118. A afirmação do apóstolo João, "Nós conhecemos e acreditamos no amor que Deus tem por nós" (1 Jo 4,16), que é o tema da mensagem da quaresma deste ano, destaca que o amor de Deus não é uma realidade abstrata, mas uma experiência que pode ser feita na vida. Deus é Amor, como nos lembra o santo padre na sua primeira encíclica; qualquer pessoa que quer se unir profundamente a ele só pode conseguir isso através do amor. Ao longo da nossa vida de cristãos, nós somos convidados a aderir constantemente ao mandamento novo de Jesus, de amar uns aos outros como ele nos amou, para levar a nossa vida à plena realização. A páscoa destaca o amor total e constante de Deus pelo homem. Ele nos amou até dar vida e nos amou até o fim. Na cruz, ele inclusive perdoou os seus perseguidores. Cristo mesmo nos disse, com a vida dele, que nós temos um chamamento para amar para sempre. Nunca poderemos afirmar que amamos o suficiente. Quem quer conhecer o amor tem que amar sempre.

ZENIT: O texto alerta sobre uma supremacia exagerada da caridade, definindo-a como “ativismo moral”. Em que setores da Igreja existe o risco desse ativismo moral?

Cardeal Sarah: A mensagem do santo padre para a quaresma deste ano enfatiza a importância de manter as virtudes teologais da fé e da caridade unidas, de viver as duas todos os dias. Se dermos importância apenas à caridade, é evidente que ela acaba reduzida a um ativismo moralista, a fazer um bem que, de alguma forma, sirva como um calmante para a nossa consciência. Por isso é que os atos de caridade têm que partir sempre da fé, se quisermos permanecer na plena comunhão com Cristo. O risco do ativismo moral existe em todos os ambientes que apresentam o compromisso da caridade, separado da oportunidade de apresentar o amor de Deus, de tornar Deus presente. Quando o nosso agir não parte da fé, as ações da caridade se reduzem a uma mera forma de assistencialismo.