Carta da Congregação para o Clero aos reitores de santuários

Os peregrinos estão no coração da nova evangelização

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CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 18 de agosto de 2011 (ZENIT.org) – Apresentamos a Carta que a Congregação para o Clero dirigiu, através dos ordinários diocesanos, a todos os reitores de santuários do mundo, para incentivar um renovado zelo dos sacerdotes encarregados do cuidado pastoral nestes lugares de devoção.

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Reverendos Reitores,

desejo dirigir a cada uma de V. Rev.mas minha mais cordial saudação, que extendo de muito bom grado a todos que vos acompanham na cura pastoral dos Santuários, juntamente com a expressão de minha mais sincera gratidão pela premurosa dedicação com a qual quotidianamente atendeis às necessidades pastorais dos peregrinos que, de todas as partes do mundo, acorrem sempre mais numerosamente aos lugares de Culto confiados à vossa assistência.

Através desta Carta, faço-me antes de tudo intérprete dos sentimentos do Santo Padre Bento XVI, que considera a presença dos Santuários como algo de grande importância, sendo preciosos para a vida da Igreja, porque, enquanto meta de peregrinação, são, sobretudo, lugares «de atração, que congregam um crescente número de peregrinos e turistas religiosos, alguns dos quais se encontram em situações humanas e espirituais complexas, um tanto distantes da vivência da fé e com uma débil pertença eclesial» (Carta por ocasião do II Congresso Mundial de Pastoral de Peregrinações e Santuários – Santiago de Compostela, 27-30 de setembro de 2010). O Beato Papa João Paulo II afirmava: «sempre e em toda a parte, os santuários cristãos foram ou quiseram ser sinais visíveis de Deus, da sua entrada na história humana» (Discurso aos Reitores de Santuários – 22 de janeiro de 1981). Os santuários, por isso, são «sinal de Cristo vivo no meio de nós, e os cristãos reconheceram neste sinal a iniciativa do amor de Deus vivo pelos homens» (Pontifício Conselho para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes, O Santuário. Memória, presença e profecia do Deus vivo. 08.05.1999, n. 5)

Consciente, então, do valor peculiar que os santuários têm na experiência de fé de cada cristão, a Congregação para o Clero, competente in materia (cf. João Paulo II, Constituição Apostólica Pastor bonus – 28.06.1988, art. 97, 1o), intende propor à vossa atenção algumas considerações destinadas a dar um impulso mais renovado e eficaz às atividades ordinárias da pastoral que neles se realiza. Num clima de difuso secularismo, o santuário continua, de fato, ainda em nossos dias, a representar um lugar privilegiado, no qual o homem, peregrino nesta terra, faz a experiência da presença amorosa e salvífica de Deus. Nesse, encontra um espaço fecundo, distante dos afãs quotidianos, onde possa recolher-se e reabastecer-se de vigor espiritual para retomar o caminho de fé com maior ardor, e procurar, encontrar e amar Cristo na vida ordinária, no meio do mundo.

Qual é o coração das atividades pastorais em um Santuário? A normativa canônica a respeito destes lugares de culto, com profunda sabedoria teológica e experiência eclesial, prevê que, nesses, «ofereçam-se aos fiéis meios de salvação mais abundantes, anunciando com diligência a palavra de Deus, incentivando adequadamente a vida litúrgica, principalmente com a Eucaristia e a celebração da penitência, e cultivando as formas aprovadas de piedade popular» (can. 1234, § 1). A norma canônica, traçando, então, uma preciosa síntese da pastoral específica dos Santuários, fornece um interessante ensejo para refletir brevemente acerca de alguns elementos fundamentais que caracterizam o ofício que a Igreja vos confiou.

1. Anúncio da Palavra, oração e piedade popular

O santuário é um lugar no qual a Palavra de Deus ressoa com singular potência. O Santo Padre Bento XVI, na Exortação Apostólica pós-sinodal Verbum Domini, de recente publicação (30.09.2010), reafirma que a Igreja «funda-se sobre a Palavra de Deus, nasce e vive dela» (n. 3). A Igreja é a “casa” (cf. ibidem, n. 52) na qual a Palavra divina é acolhida, meditada, anunciada e celebrada (cf. ibidem, n. 121). Isto que o Pontífice diz sobre a Igreja pode analogamente ser afirmado acerca do Santuário.

O anúncio da Palavra assume uma importância essencial na vida pastoral do Santuário. Os ministros sagrados têm, portanto, a incumbência de preparar tal anúncio, na oração e na meditação, filtrando o conteúdo do anúncio com o auxílio da Teologia espiritual, na escola do Magistério e dos Santos. As fontes principais de sua pregação serão a Sagrada Escritura e a Liturgia (cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, Constituição Sacrosanctum Concilium, 04.12.1963, n. 35), às quais se unem o precioso Catecismo da Igreja Católica e o seu Compêndio. O ministério da Palavra, exercido de diversas formas e de acordo com o depósito revelação, será tanto mais eficaz e incisivo quanto mais nascer do coração, na oração, e for expresso mediante uma linguagem acessível e bela, que saiba mostrar corretamente a perene atualidade do Verbo eterno.

A resposta humana a um fecundo anúncio da Palavra de Deus é a oração. «Os santuários são, para os peregrinos à procura das suas fontes vivas, lugares excepcionais para viver “em Igreja” as formas da oração cristã» (Catecismo da Igreja Católica [CEC], 11.10.1992, n. 2691).

A vida de oração desenvolve-se de diversos modos, entre os quais encontramos várias formas de piedade popular, que sempre devem deixar um «espaço adequado à proclamação e escuta da Palavra de Deus; de fato, “a piedade popular encontrará nas palavras da Bíblia uma fonte inesgotável de inspiração, modelos insuperáveis de oração e fecundas propostas de diversos temas”» (Verbum Domini, n. 65).

O Diretório sobre a piedade popular e a liturgia (Congregação para o Culto divino e a Disciplina dos Sacramentos, 9 de abril de 2002) dedica um capítulo aos Santuários e às

peregrinações, aspirando «uma correta relação entra as ações litúrgicas e os exercícios de piedade» (n. 261). A piedade popular é de grande importância para a fé, a cultura e a identidade cristã de muitos povos. Essa é expressão da fé de um povo, «verdadeiro tesouro do povo de Deus» (ibidem, n. 9), na Igreja e para a Igreja: para compreender bem esta idéia, basta imaginar a pobreza que seria para a história da espiritualidade cristã do Ocidente a ausência do “Rosário” ou da “Via Sacra”, bem como das procissões. São somente dois exemplos, mas que são suficientemente evidentes para relevar a sua imprescindibilidade.

Realizando vosso ministério num Santuário, tendes freqüentemente a oportunidade de observar os gestos de piedade, tão peculiares quanto expressivos, com os quais os peregrinos manifestam visivelmente a fé que lhes anima. As múltiplas e variadas formas de devoção, amiúde derivadas de tantas outras sensibilidades e tradições culturais, testemunham o fervor intenso de uma vida espiritual alimentada por uma constante oração e pelo íntimo desejo de aderir sempre mais estritamente a Cristo.

A Igreja, consciente da significativa incidência de tais manifestações religiosas na vida espiritual dos fiéis, sempre reconheceu o valor delas e sempre respeitou suas genuínas expressões. Antes, também mediante os ensinamentos dos Romanos Pontífices e dos Concílios, as recomendou e favoreceu. Ao mesmo tempo, lá onde a Igreja reconheceu atitudes ou mentalidades incongruentes com um senso religioso sadio, advertiu a necessidade de intervir, purificando tais atos de elementos desviantes ou oferecendo meditações, cursos, formações, etc. A piedade popular, de fato, somente se estiver radicada numa originária tradição católica, poderá ser locus fidei, fecundo instrumento de evangelização, no qual também os elementos da cultura ambiental indígena poderão sinergicamente encontrar acolhimento e dignidade.

Como responsáveis pela pastoral dos Santuários, então, é vosso dever instruir os peregrinos sobre o caráter absolutamente premente que a celebração litúrgica deve assumir na vida de cada fiel. A prática pessoal de formas de piedade popular não deve absolutamente ser dificultada ou rejeitada, antes, deve ser favorecida, mas não pode substituir a participação no culto litúrgico. Tais expressões, de fato, ao invés de se contraporem à centralidade da Liturgia, devem aproximar-se desta e serem sempre orientadas a esta. É, de fato, na celebração litúrgica dos Sacros Mistérios que se exprime a oração comum de toda a Igreja.

2. Misericórdia de Deus no sacramento da Penitência

A memória do amor de Deus, que se faz presente de modo eminente no santuário, conduz ao pedido de perdão pelos pecados e ao desejo de implorar o dom da fidelidade ao depósito da fé. O Santuário é, igualmente, um lugar da permanente atualização da misericórdia de Deus. É um lugar hospitaleiro no qual o homem pode ter um encontro real com Cristo, experimentando a Verdade do seu ensinamento e do seu perdão para aproximar- se dignamente e, portanto, frutuosamente, da Eucaristia.

Para tal finalidade, convém favorecer e, onde for possível, intensificar a presença constante de sacerdotes que, com ânimo humilde e acolhedor, dediquem-se generosamente à escuta das confissões sacramentais. Na administração do sacramento do Perdão e da Reconciliação, os confessores, que agem como «sinal e instrumento do amor misericordioso de Deus para com o pecador» (CEC, n. 1465), ajudem os penitentes a experimentarem a ternura de Deus, a perceberem a beleza e a grandeza de Sua bondade e a redescobrirem nos próprios corações o desejo último da santidade, vocação universal e meta última para cada fiel (cf. Congregação para o Clero, O Sacerdote ministro da misericórdia divina, 09.03.2011, n. 22).

Os confessores, iluminando a consciência dos penitentes, ponham também em evidência o vínculo estreito que liga a Confissão sacramental a uma nova existência, orientada a uma decidida conversão. Por isso, exortem os fiéis a aproximarem-se deste sacramento com regular freqüência e ardente devoção, afim de que, sustidos pela graça que nele é doada, possam alimentar constantemente os seus fiéis propósitos de adesão a Cristo, progredindo na perfeição evangélica.

Os ministros da Penitência sejam disponíveis e acessíveis, cultivando uma atitude compreensiva, acolhedora e encorajadora (cf. Congregação para o Clero, O Sacerdote ministro da misericórdia divina, nn. 51-57). Para respeitar a liberdade de cada fiel e também para favorecer a plena sinceridade pessoal em foro sacramental, é oportuno que estejam disponíveis, em locais apropriados (por exemplo, possivelmente, numa Capela da Reconciliação), alguns confessionários providos de grade fixa. Como ensina o Beato Papa João Paulo II na Carta Apostólica Misericordia Dei (07.04.2002): «a sede para as confissões é disciplinada com normas estabelecidas pelas respectivas Conferências Episcopais, as quais deverão garantir que aquela esteja colocada “em lugar patente” e seja também “munida de grade fixa”, permitindo assim aos fiéis, e aos mesmos confessores, que o desejem, seu livre uso» (n. 9, b – cf. Can. 964, § 2; Pontifício Conselho para a Interpretação dos textos Legislativos, Responsa ad propositum dubium: de loco excipiendi sacramentales confessiones [7 de julho de 1998]: AAS 90 [1998] 711; cf. O Sacerdote ministro da misericórdia divina, n. 41).

Os ministros, ademais, ocupem-se de inculcar a compreensão dos frutos espirituais derivados da remissão dos pecados. O sacramento da Penitência, de fato, «leva a uma verdadeira “ressurreição espiritual”, à restituição da dignidade e dos bens próprios da vida dos filhos de Deus, o mais precioso dos quais é a amizade do mesmo Deus» (CEC, n. 1468).

Considerando-se o fato de que os Santuários são locais de verdadeira conversão, pode ser oportuno que se reforce a formação dos confessores para a atenção pastoral daqueles que não respeitaram a vida humana desde a concepção até o seu término natural.

Os sacerdotes, além disso, ao dispensarem a misericórdia divina, cumpram devidamente este peculiar ministério aderindo fielmente ao genuíno ensinamento da Igreja. Sejam bem formados na doutrina e não transcurem a atualização periódica a respeito das questões atinentes, sobretudo, ao âmbito moral e bioético (cf. CEC, n. 1466). Também no campo matrimonial, respeitem tudo o que o Magistério da Igreja ensina autorizadamente. Evitem, portanto, em sede sacramental, manifestar doutrinas privadas, opiniões pessoais ou avaliações arbitrárias que não estejam em conformidade com aquilo que a Igreja crê e ensina. Para sua formação permanente, será útil encorajar-lhes a participar de cursos especializados, tais como aqueles que, por exemplo, são organizados pela Penitenciaria Apostólica e por algumas Universidades Pontifícias (cf. O Sacerdote ministro da misericórdia divina, n. 63).

3. A Eucaristia, fonte e cume da vida cristã

A Palavra de Deus e a celebração da Penitência estão intimamente unidas à Santa Eucaristia, mistério central no qual «está contido todo o tesouro espiritual da Igreja, isto é, o próprio Cristo, a nossa Páscoa» (Concílio Ecumênico Vaticano II, Decreto Presbyterorum ordinis, 07.12.1965, n. 5). A celebração Eucarística constitui o coração da vida sacramental do Santuário. Nessa, o Senhor se doa a nós. Os peregrinos que visitam os santuários sejam, então, conscientizados de que, se acolherem confiantemente o Cristo eucarístico no próprio íntimo, Ele oferece-lhes a possibilidade de uma real transformação da existência.

A dignidade da celebração Eucarística seja também posta em evidência mediante o canto gregoriano, polifônico ou popular (cf. Sacrosanctum Concilium, nn. 116 e 118); mas também selecionando adequadamente, tanto os instrumentos musicais mais nobres (órgão de tubos e afins – cf. ibidem, n. 120), como as vestes que são usadas pelos ministros, juntamente com as alfaias utilizadas na Liturgia. Estas devem corresponder aos cânones de nobreza e sacralidade. No caso das concelebrações, cuide-se de que haja um Mestre de cerimônias, que não concelebre, e faça-se o possível para que cada concelebrante use a casula ou a planeta, como paramento próprio do sacerdote que celebra os divinos mistérios.

O Santo Padre Bento XVI escrevera, na Exortação Apostólica pós-sinodal Sacramentum Caritatis (22.02.2007) que «a melhor catequese sobre a Eucaristia é a própria Eucaristia bem celebrada» (n. 64). Na Santa Missa, então, os ministros repitam fielmente o que foi estabelecido pelas normas dos Livros litúrgicos. As rubricas, de fato, não representam indicações facultativas para o celebrante, são, antes, prescrições obrigatórias que ele deve observar cuidadosamente e com fidelidade em cada gesto ou sinal. Em cada norma, de fato, subjaz um sentido teológico profundo, que não pode ser diminuído ou de qualquer modo ignorado. Um estilo celebrativo que introduza inovações litúrgicas arbitrárias, além de gerar confusão e divisão entre os fiéis, lesiona a veneranda Tradição e a própria autoridade da Igreja, além de ferir a unidade eclesial.

O sacerdote que preside a Eucaristia não é, porém, um mero executor de rubricas rituais. Antes, a intensa e devota participação interior com a qual celebrará os divinos mistérios, acompanhada de uma oportuna valorização dos sinais e gestos litúrgicos estabelecidos, plasmará não somente o seu espírito orante, mas se revelará fecunda também para a fé eucarística dos fiéis, que tomam parte na celebração com a sua actuosa partecipatio (cf. Sacrosanctum Concilium, n.14).

Como fruto de Seu dom na Eucaristia, Jesus Cristo permanece sob as espécies do pão. As celebrações como a Adoração eucarística fora da Santa Missa, com a exposição e a bênção com o Santíssimo Sacramento, manifestam aquilo que está no coração da celebração: a Adoração, ou seja, a união com Jesus Hóstia.

A tal respeito, o Papa Bento XVI ensina que «na Eucaristia, o Filho de Deus vem ao nosso encontro e deseja unir-Se conosco; a adoração eucarística é apenas o prolongamento visível da celebração eucarística, a qual, em si mesma, é o maior ato de adoração da Igreja» (Sacramentum Caritatis, n. 66), ao que acrescenta: «O ato de adoração fora da Santa Missa prolonga e intensifica aquilo que se fez na própria celebração litúrgica» (ibidem).

Deste modo, seja dada notável importância ao lugar do Sacrário no Santuário (ou também de uma capela destinada exclusivamente à adoração do Santíssimo) porque é, em si mesmo, um “ímã”, convite e estímulo à oração, a adoração e a meditação, a intimidade com o Senhor. O Sumo Pontífice, na mencionada Exortação, sublinha que a «correta localização do mesmo ajuda a reconhecer a presença real de Cristo no Santíssimo Sacramento; por isso, é necessário que o lugar onde são conservadas as espécies eucarísticas seja fácil de individuar por qualquer pessoa que entre na igreja» (ibidem, n. 69).

O Sacrário, custódia eucarística, ocupe um lugar proeminente nos Santuários, assim como também, ao recordar a relação entre arte, fé e celebração, faça-se atenção à «coerência entre os elementos próprios do presbitério: altar, crucifixo, sacrário, ambão, cadeira» (ibidem, n. 41). A reta colocação dos sinais eloqüentes de nossa fé, na arquitetura dos locais de culto, favorece indubitavelmente, de modo particular nos santuários, a justa prioridade de Cristo, pedra viva, antes da saudação à Virgem ou aos Santos justamente venerados naquele lugar, dando, deste modo, uma ocasião a que a piedade popular possa manifestar as suas raízes verdadeiramente eucarísticas e cristãs.

4. Um novo dinamismo para a evangelização

Enfim, apraz-me notar que os Santuários conservam ainda hoje um extraordinário fascínio, testemunhado pelo número crescente de peregrinos que a eles se dirigem. Trata-se não raramente de homens e mulheres de todas as idades e condições, com situações humanas e espirituais complexas, um tanto distantes de uma sólida vida de fé, ou com um frágil sentido de pertença eclesial. Visitar um Santuário pode ser para estes uma preciosa oportunidade de encontrar Cristo e redescobrir o sentido profundo da própria vocação batismal ou para sentir o seu chamado salutar.

Por isso, exorto cada um de vós a dirigir um olhar particularmente acolhedor e cuidadoso para com estas pessoas. Também a este respeito, não se faça nada improvisamente. Com sabedoria evangélica e com ampla sensibilidade, seria altamente educativo fazer-se companheiro de viagem destes peregrinos e visitantes, particularizando as razões do coração e as expectativas do espírito. Em tal serviço, a colaboração de pessoas com serviços específicos, dotadas de humanidade acolhedora, de perspicácia espiritual, de inteligência teologal, será de proveito para que se introduzam os peregrinos no Santuário como num evento da graça, lugar de experiência religiosa, de alegria reencontrada. A este respeito, será conveniente considerar a possibilidade de criar encontros espirituais também no período vespertino ou noturno (adorações noturnas ou vigílias de oração), lá onde a afluência dos peregrinos seja de quantidade considerável e de fluxo permanente.

A vossa caridade pastoral poderá ser uma providente oportunidade e um forte estímulo para que flua em seu coração o desejo de assumir um caminho de fé sério e intenso. Mediante as várias formas de catequese, podereis dar a compreender que a fé, longe de ser um vago e abstrato sentimento religioso, é concretamente tangível e exprime-se sempre no amor e na justiça de uns para com os outros.

Deste modo, nos Santuários, o ensino da Palavra de Deus e da doutrina da Igreja, por meio da pregação, da catequese, da direção espiritual, dos retiros, constitui uma ótima preparação para acolher o perdão de Deus no sacramento da Penitência e para a participação ativa e frutuosa na celebração do Sacrifício do altar.

A Adoração eucarística, a prática piedosa da Via Sacra e a oração cristológica e mariana do Santo Rosário serão, com os sacramentos e as bênçãos votivas, testemunhas da piedade humana e caminho com Jesus em direção ao amor misericordioso do Pai no Espírito. Assim, a pastoral da família será revigorada e a oração ao “Senhor da messe afim de que mande operários para a messe” (Mt 9,38) será providencialmente fecunda: santas e numerosas vocações sacerdotais e de especial consagração!

Os Santuários, além disso, na fidelidade à sua gloriosa tradição, não esqueçam de estarem comprometidos com as obras de caridade e com o serviço assistencial, na promoção humana, na salvaguarda dos direitos da pessoa, no empenho pela justiça, segundo a doutrina social da Igreja. Em torno destes, é conveniente que floresçam também iniciativas culturais, tais como congressos, seminários, exposições, festivais, concursos e eventos artísticos sobre temas religiosos. Deste modo, os Santuários se tornarão também promotores de cultura, tanto erudita como popular, contribuindo, por sua parte, com o projeto cultural orientado em sentido cristão pela Igreja.

Sendo assim, a Igreja, sob a orientação da Virgem Maria, Estrela da nova evangelização, mediante a qual a própria Graça se comunica à humanidade necessitada de redenção, se prepara, em todas as partes do mundo, para a vinda do Salvador. Os Santuários, lugares aos quais se vai para buscar, para ouvir, para rezar, se tornarão misteriosamente os lugares nos quais o homem poderá ser tocado por Deus através da Sua Palavra, do sacramento da Reconciliação, da Eucaristia, da intercessão da Mãe de Deus e dos Santos.

Somente deste modo, entre as ondas e as tempestades da história, desafiando o pertinaz sentido do relativismo imperante, estes serão fautores de um renovado dinamismo, em vista da tão desejada nova evangelização.

Agradecendo ainda a cada Reitor pela dedicação e caridade pastoral, afim de que cada Santuário seja sempre mais sinal da amorosa presença do Verbo Encarnado, asseguramo- vos a mais cordial proximidade no Senhor, sob o olhar da Bem-aventurada Virgem Maria.

Vaticano, 15 de agosto de 2011

Assunção da Bem-Aventurada Virgem Maria

Mauro Card. Piacenza

Prefeito

Celso Morga Iruzubieta

Arc. tit. de Alba Marittima Secretário