Casais de segunda união: não abandonaram a fé, não se afastaram da Igreja e desejam um esclarecimento

Padre Rafael Solano, Doutor em Teologia Moral e Assessor de Bioética do Regional Sul II da CNBB, trouxe esclarecimentos sobre o tema

São Paulo, (Zenit.org) Mirticeli Dias de Medeiros | 2358 visitas

No voo papal que o conduzia de volta a Roma, após a Jornada Mundial da Juventude 2013, a qual encerrou-se no último dia 28 de julho, Papa Francisco, em entrevista aos jornalistas, tratou de um tema que gera polêmicas e ainda é pouco aprofundado pelos próprios católicos: os casais de segunda união. Padre Rafael Solano, Doutor em Teologia Moral e Assessor de Bioética do Regional Sul II da CNBB, trouxe esclarecimentos sobre esta realidade presente na Igreja e tratou de assuntos que vão desde a nulidade matrimonial à convocação de um novo Sínodo para trazer à tona a questão.

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Zenit: Casais de segunda união. O senhor acredita que o tema é pouco trabalhado entre os católicos, ou de fato, não foi definida uma linha pastoral específica para tratar da questão? É um problema formativo? Qual a sua visão?

Pe. José Rafael Solano: O tema dos casais em segunda união, não podemos dizer que seja um tema  recente na vida da igreja. Desde os escritos paulinos, percebemos a preocupação pastoral de Paulo com aqueles que, por alguma razão, questionavam sobre o divórcio. É conhecido por todos o conteúdo do capitulo 19 do Evangelho de Mateus, quando Jesus também é questionado sobre este assunto. Com o passar do tempo, os desafios pastorais de cada comunidade, e da igreja como um todo foram aumentando, até os nossos dias. Podemos dizer, sem dúvida, que todos os papas do século XX perceberam a crise que muitos casais viviam e o drama de consciência quando um matrimônio se desmanchava. O Papa Pio XI escreveu uma inusitada e muito bem elaborada encíclica sobre a vida dos casais e os problemas que estes enfrentavam, de modo particular em relação ao divórcio. É sabido por todos nós a grande preocupação do seu sucessor, Pio XII, quando alguns países europeus declararam, oficialmente, a aceitação do divórcio e, mais ainda, quando por diversas razões o matrimônio cristão foi questionado na sociedade da pós-guerra. No Pontificado de João Paulo II teremos o grande despertar desta realidade que a tantos e tantos fieis atinge: as novas uniões. O nome que foi dado na língua portuguesa não foi o melhor, ou seja, "casais em segunda união". Na encíclica Familiaris Consortio, o Papa utilizou uma expressão que possui, em si mesma, um conteúdo teológico e pastoral melhor elaborado. Tratam-se de “casais em situações especiais”, casais que por alguma real e concreta experiência de vida, sofreram a triste dor da separação ou da falsidade no primeiro casamento. Essas pessoas encontraram alguém que as fez descobrir o valor da vida a dois, recomeçaram e, o mais importante ainda: não abandonaram a fé, não se afastaram da igreja, só que são cientes da sua irregular situação e por isso desejam um esclarecimento. Aqui, a meu ver, é onde entra o trabalho com estes casais.

Zenit: E quanto ao aumento constatações de nulidades. Seria este um indicativo da falta de formação?

Pe. José Rafael Solano: Quanto ao aumento de nulidades, esta pergunta possui duas vertentes. A primeira, o que entendem os casais ou maioria dos fiéis por "nulidade" ou pela “declaração oficial e canônica de um casamento como algo invalido”. Nem todos os casamentos que apresentam ou iniciam um processo no Tribunal eclesiástico pedindo a nulidade, são declarados nulos. Aqui, neste ponto, a igreja é pedagoga, prudente e, sobretudo, exigente. Muitos matrimônios nunca deveriam ter acontecido. É evidente que quando um casal não é honesto ou um dos cônjuges vive uma dupla vida, o matrimônio em questão é desde o seu início algo viciado e não chegará a bom termo. Se as nulidades têm aumentado, a meu ver - e esta é a segunda vertente da pergunta -, se deve, na maioria dos casos, a uma situação irregular desde o inicio; é a meu ver, ainda, a falta de clareza por parte de muitos diante do fato que a vida conjugal é uma vocação, um chamado. Não posso procurar o matrimônio como uma fuga ou um lugar onde me escondo das minhas realidades. Temos então que trabalhar muito mais dedicadamente com os casais que se preparam para o matrimônio, temos que investir na etapa que antecede as núpcias. Sem medo, devemos iluminar o caminho de muitos casais que, na  erdade, não sabem como foi que chegaram a este momento, e acabam casando.

Zenit: Há muitos - inclusive católicos - , que se queixam do fato dos casais de segunda união não comungarem. As razões já são perfeitamente explicadas pela Igreja, mas o que fazer para que estes nossos irmãos não se sintam excluídos?

Pe. José Rafael Solano: O conceito de exclusão na vida cristã é simplesmente inexistente. Quem excluir alguém na comunidade, não compreendeu o que significa o termo "Ecclesia" - reunião dos membros de um único grupo. Para muitos católicos, o conceito de pedagogia é simplesmente abstrato. Veja...Uma família - a minha ou a de qualquer um -, possui certas normas que não precisam ser assinadas em cartório para que sejam válidas. Na minha casa, em todos os natais e festas de ano novo, se come paella e isto não se discute! Faz 150 anos que minha família faz isto. Por diversos motivos, alguns membros não podem comer frutos do mar, ou têm dietas especiais, etc. Porém, os mesmos não deixaram até hoje de participar das nossas festas, nunca foram excluídos ou discriminados. Os casais em segunda união são chamados a viver na comunidade outros tipos de comunhão e de experiência espiritual. Nós, por exemplo, não recebemos a comunhão porque estamos livres de pecado, mas porque somos chamados a fazer caridade, a viver a radicalidade do nosso batismo. Como mudaria o conceito de ser Corpo de Cristo se entendêssemos aquilo que Santo Atanásio afirma com tanta força: "Os membros do corpo, mesmo os mais fragilizados, fazem parte do corpo todo". Temos que deixar de lado essa visão excessivamente minimalista e nos abrirmos para um horizonte maior. A Eucaristia tem, em si mesma, o caráter universal, atinge todos os espaços do nosso ser.

Zenit: “É necessário desenvolver uma pastoral do matrimônio”, segundo o Papa. Ainda na entrevista que concedeu no voo papal, no último dia 28, o Santo Padre também citou o caso da Igreja Ortodoxa que admite um novo matrimônio. Será que muitos não se casem conscientes das responsabilidades e da própria vocação à qual são chamados? Diante disso, o que fazer? 

Pe. José Rafael Solano: Tenho plena certeza que o Papa conhece esta realidade. Ele sabe muito bem que existem saídas; agora, ele melhor do que ninguém, também sabe que devem ser estudadas, aprofundadas e particularmente refletidas as duas tradições. Um teólogo moralista cujo nome é Basilio Petrà, vem trabalhando neste tema por mais de 30 anos. Ele é ciente de que uma via de solução para falar em segundo matrimonio, exige uma compreensão bem clara do que significa viver a conjugalidade. Nós que somos da sociedade e da mentalidade do rápido, sem dor, sem exigência, temos necessidade de rever os nossos conceitos e especialmente de fortalecer nossa tendência subjetiva e abstrata diante de uma realidade que tem em si mesma o valor de sacramento, quer dizer, de sinal visível da presença de Deus.

Zenit: Me parece ainda que o Papa deu “uma deixa” da possibilidade de ampliar o debate para a Igreja Universal através de um Sínodo ou através da comissão de 8 cardeais criada por ele, a qual inicia seus trabalhos em outubro deste ano. Urge na Igreja a convocação de um Sínodo para tratar do Matrimônio?

Pe. José Rafael Solano: Urge um sínodo sobre assuntos de moral. É urgente, aliás, é algo que não pode esperar muito mais tempo. A "deixa" da qual você fala, é algo exigente, algo que tem que ser refletido e, mais uma vez o digo: sobretudo rezado diante de quem nos deu a consciência como o sacrário sagrado e preservado de todo tipo de manipulação. A consciência deve ser formada, instruída, e alimentada, ela é sinal, voz, bússola, a qual, se não for formada, perderá o seu destino, que é nada mais nada menos que aquilo que provoca na pessoa uma decisão moral que se concretiza no seu agir.