Catacumbas: onde os mártires repousam

Fabrizio Bisconti, diretor da Pontifícia Comissão de Arqueologia Sacra para as Catacumbas, fala sobre os originais cemitérios cristãos

Roma, (Zenit.org) Laura Guadalupe | 248 visitas

Nas entranhas da Cidade Eterna, protegidos do caos que fere os ouvidos, há lugares em que só o silêncio fala. Ele fala com toda a sua força ensurdecedora, especialmente quando se dirige ao coração e conta histórias de homem e mulheres que deram a vida para defender a própria fé. É o mundo subterrâneo das catacumbas, onde foram sepultados alguns pontífices e os primeiros cristãos.

ZENIT conversou a respeito com Fabrizio Bisconti, diretor da Pontifícia Comissão de Arqueologia Sacra para as Catacumbas.

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Quais são as origens das catacumbas?

Bisconti: As catacumbas, entendidas como cemitérios cristãos, hipogeus, nasceram em Roma entre o fim do século II e o início do III, durante o pontificado de Zeferino (199-217), que encarregou o diácono Calisto, depois eleito papa (217-222), de supervisar o cemitério da Via Ápia. Lá foram sepultados alguns pontífices do século III, entre os quais Sisto II, assassinado durante a perseguição de Valeriano, em 6 de agosto de 258. As catacumbas são o começo de um sistema funerário original: são cemitérios exclusivos, onde eram sepultados os fiéis pertencentes à comunidade cristã, como num abraço fraterno.

Como elas mudaram de função ao longo do tempo?

Bisconti: Como sepultura dos mártires, as catacumbas mantiveram a função funerária, mas assumiram também um papel devocional, porque os peregrinos iam venerar as sepulturas santas no dies natalis (dia da morte) do mártir, para rezar e comer uma refeição simbólica fúnebre (refrigerium). Na Alta Idade Média, as catacumbas perdem a função funerária e mantêm só a de veneração.

Quantos mártires cristãos foram sepultados nelas durante as perseguições?

Bisconti: Os mártires romanos de que temos notícia pelas fontes e testemunhos arqueológicos são cerca de uma centena. Mas muitos deles não foram registrados pelas fontes nem pela memória devocional.

Há muitos mártires dos quais não se sabe nada, mas, de muitos outros, temos informações sobre o nome, a história. São Sebastião e Santa Inês, por exemplo. Na sua opinião, qual é a catacumba mais cheia de fascínio, seja por conter os restos de um santo ilustre, seja pelas inumeráveis relíquias de desconhecidos?

Bisconti: O complexo mais interessante, sem dúvida, é o de São Calixto, que tem mártires ilustres como Sisto II, já mencionado, mas que tem relação também com mártires imersos na fabulação legendária, e mesmo assim muito amados pelos fiéis, como Santa Cecília e São Tarcísio.

Só em Roma há cerca de sessenta catacumbas. Quais são as mais visitadas e as mais antigas? E no resto da Itália?

Bisconti: As catacumbas romanas mais visitadas e abertas ao público são as de São Calixto e São Sebastião, na Via Ápia; de Domitila, na Via Ardeatina; de Santa Inês, na Via Nomentana; de Priscila, na Via Salária. As catacumbas mais antigas são as de Sebastião, Calixto, Domitila, Priscila, Calepódio, Pretextato, Novaciano, dos Santos Pedro e Marcelino e de Santa Inês. Na Itália temos que recordar também as catacumbas de São Genaro, em Nápoles, de São João, em Siracusa, de Santo Antíoco, na Sardenha, de Santa Catarina e São Mustiola em Chiusi, de São Senador, em Albano, e de Santa Cristina, em Bolsena.

Esses cemitérios se caracterizam também pela presença de uma arte pictórica narrativa e simbólica. Por exemplo, nas catacumbas de Priscila, em Roma, é conservada a imagem mais antiga de Maria. De quando é exatamente esse afresco? Quais são as particularidades dele?

Bisconti: A “Madonna” de Priscila é de 230-240. A pintura representa Maria com o Menino (Virgo Lactans), com o profeta Balaão apontando as estrelas, para anunciar a chegada do Messias.

Houve outras descobertas de antiguidade parecida?

Bisconti: Sim. Por exemplo, no cemitério de Pretextato, também na primeira metade do século III, podemos encontrar um afresco que representa a cena mais antiga da coroação de espinhos.