Catequese de adultos: a iniciação cristã dos adultos

É preciso dar tempo para a reflexão, maturação e adesão.

Brasília, (Zenit.org) José Barbosa de Miranda | 884 visitas

Com os artigos anteriores preparamos o ambiente para trabalhar com a iniciação cristã de adultos. Agora é o momento de começarmos este tema, pois não deixa de ser um itinerário um pouco esquecido por nossas comunidades. Em poucas palavras, ainda não descobrimos a riqueza catecumenal.

A experiência da Igreja primitiva

A Igreja, ainda no seu nascimento e expansão, valorizou e priorizou o catecumenato. Era o caminho ordinário para conduzir os adultos aos mistérios divinos, uma preparação para ser admitido na comunidade, conduzindo o iniciando à plena conversão, para, consciente de sua opção, fazer a profissão de fé ao Deus de Jesus Cristo, e, em seguida ser incluído na comunidade e participar plenamente da Igreja. Esse itinerário permanece como modelo para nossa catequese catecumenal.

A iniciação era constituída de um conjunto de práticas litúrgico-rituais caracterizadas por assinalações, exorcismos, seguidas da mistagogia. Ela continha sempre o enriquecimento com uma série de ensinamentos catequéticos, exercícios de tirocínio para a vida cristã e prática evangélica.

Buscavam o seu conteúdo no Novo Testamento para a preparação (At 2,37-39), conduzindo à necessidade de discernimento (At. 8, 28-31) através da pregação, da acolhida, provocando a conversão para posterior petição do Batismo.

Nesse processo havia uma condição (Hb 5,12-6,3) para se tornar adulto na fé, renunciando aos ídolos e servindo somente ao Deus vivo, com mudança de vida e novo comportamento (1Ts 1,9-10). No itinerário estava clara a distinção entre a primeira evangelização, o querígma, e a petição do batismo depois de uma catequese (At. 10,1- 33). Esse itinerário tem suas exigências para realizar a conversão.

A catequese catecumenal tem sua estrutura e conteúdo próprios. Não é pura transmissão de doutrina. Ele implica, primeiramente, em conhecer e viver a Palavra de Deus que se faz vida, e depois, em estado adulto, aderir, pela opção inteligente, Àquele que celebrou uma Nova Aliança em seu sangue, Jesus Cristo.

Adesão consciente e responsável

O discurso de Pedro no dia de Pentecostes (At 2, 14-26) é entendido como evangelização, pressuposto à catequese catecumenal.  O iniciando entra no mistério de Cristo pela Palavra, constrói sua opção livre, responsável e comprometedora. Pedro, no anúncio de Pentecostes, levou os seus ouvintes à adesão a Cristo: “Quando ouviram isso, ficaram com o coração traspassado e perguntaram a Pedro e aos outros apóstolos: irmãos, que devemos fazer? Pedro respondeu: convertei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para o perdão de vossos pecados. E recebereis o dom do Espírito Santo” (At 2, 37-39).

Está bem claro o itinerário catecumenal, nesse relato, constituído pelos seguintes elementos:

Pregação do Evangelho;Acolhida da fé e conversão;Catequese;Verificação das disposições do candidato;Batismo;Dom do Espírito Santo;Incorporação ao Povo de Deus;Participação no Corpo de Cristo.

O ensinamento dos Apóstolos levava ao conhecimento e adesão à Mensagem pelo querígma, construindo e confirmando:

Vida de comunhão pela fraternidade conforme o Evangelho: Koinonia.Frequência na Fração do Pão com a celebração da Páscoa, oração e louvor.

O que a Igreja quer hoje

Como depositária da fé, a Igreja atualiza o mandato do Senhor (Mt 28,19), oferecendo subsídios sólidos para a formação adulta dos seus filhos:

Ela toma precauções sobre a admissão para proteger sua identidade.Institui uma classe dentro da Igreja, a exemplo dos primeiros cristãos: os catecúmenos.Há uma progressiva maturidade para dispensação do tesouro da fé.Após o Batismo há o período mistagógico e de verificação da moral.Iniciação pelos ritos litúrgicos.Recupera o sentido verdadeiro da Iniciação Cristã.

A família

A sociedade de hoje impõe às famílias alguns desafios que devem ser encarados com firmeza pela Igreja, para que a fé seja construída no dia a dia.

Tradicionalmente a família cumpria a função de iniciar, na fé, seus membros, ajudada pelos padrinhos. Os pais explicavam e ajudavam os filhos a compreender a fé recebida no Batismo e fortalecê-la pela assiduidade aos Sacramentos e escuta da Palavra.

Hoje, raramente a sociedade é o lugar cristão capaz de formar para a fé. Outras instituições assumem a função educativa, distorcendo o conceito cristão de família, onde o núcleo familiar não é formado por um homem e uma mulher, como o Criador havia constituído (Gn 1,27-28), descaracterizando a vocação universal da família.

A situação dos batizados

Eles não estão iniciados na fé porque não tiveram uma catequese adequada. Não concluíram sua iniciação cristã ou foi uma iniciação deficiente. Por isso não perseveram com seus compromissos batismais

Apesar dos avanços e esforços da catequese, persiste a dificuldade para transmitir a fé com uma confiável iniciação à vida cristã. Essa iniciação cristã toca o coração da Igreja porque se refere às realidades mais profundas da fé da comunidade, criando uma nova família cristã, pois a catequese é:

Transmissão da mensagem revelada.Manifestação na Igreja da presença salvadora de Cristo.Chamado à conversão do coração.Incorporação na vida divina pelo Batismo.Abandono do pecado e adesão a Deus.

A Iniciação Cristã no Concílio Vaticano II

Tiramos do Vaticano II os mais ricos fundamentos para uma Iniciação Cristã comprometedora com a fé. A Constituição sobre a reforma litúrgica, Sacrosanctum Concilium, restaura definitivamente o catecumenato (SC nº 64, 66 e 71). A Constituição sobre a Igreja, Lumen Gentium, encaminha a pertença dos catecúmenos à Igreja (LG 14) e a ação missionária que se deve ser realizada com eles para seu amadurecimento como filhos de Deus (17). O Decreto Christus Dominus, que instrui sobre o múnus pastoral dos Bispos, ressalta a atenção especial à Instituição catecumenal (nº 14). O Decreto Presbiterorum Ordinis, sobre o ministério e a vida dos Presbíteros, insiste na evangelização, catecumenato e batismo como grandes momentos da iniciação cristã (nº 5).

Catecumenato como noviciado da vida cristã

O Decreto Ad Gentes, tratando da iniciação cristã, no número 14, insiste, a exemplo dos documentos já referenciados: “Sejam os catecúmenos convenientemente iniciados no mistério da salvação. Através da prática dos costumes evangélicos e pelos ritos sagrados que se celebram em tempos sucessivos, sejam introduzidos na vida de fé, da liturgia e da caridade do Povo de Deus. Uma vez libertados do poder das trevas, pelos sacramentos da iniciação cristã, mortos, sepultados e ressuscitados com Cristo, recebem o Espírito de filhos de adoção e celebram com todo o povo de Deus o memorial da morte e ressurreição do Senhor”.

É um itinerário que segue a pedagogia da maturidade da fé. Passos definidos e dados no momento certo, sem cortar etapas. É preciso dar tempo para a reflexão, maturação e adesão.

Lembrete: nos próximos artigos continuaremos com este tema.