Catequese de adultos: espiritualidade do catequista (Parte II)

Transformar o próprio ser numa casa espiritual

Brasília, (Zenit.org) José Barbosa de Miranda | 841 visitas

Ser habitação da Trindade Santa é caminhar nas pegadas de Cristo, construindo, em cada passo, os degraus que levam ao Paraíso Celeste. Por isso vimos, no artigo anterior, que a catequese vai além da instrução, é, primeiramente, olhar-se com o olhar de Cristo, transformando o próprio ser numa casa espiritual.

ESPIRITUALIDADE BÍBLICA

Se a catequese vai além da transmissão de doutrina, é a Sagrada Escritura fonte da catequese (Catechesi Tradendae, 27) para o encontro da criatura com Criador, gerando um diálogo de amor com a seiva da fé. A Bíblia ensina, corrige, instrui, convida todos à perfeição. É o itinerário de renúncia do peregrino que está à procura do Reino de Deus (Mt 19, 21).

Na Bíblia está a fonte da espiritualidade do/da catequista. A Sagrada Escritura é o espelho por onde vemos nossa vida e a de todas as pessoas confiadas a nós, por meio do ministério catequético. Ela faz parte da espiritualidade do/da catequista. Nela está:

O alimento cotidiano que sustenta a vida espiritual, capacitando o catequista, a catequista na sua missão profética.O processo que nos leva à meditação, oração, contemplação para transformar e fortalecer o ministério catequético.

A Palavra de Deus é um evento de intimidade, de amor e de diálogo entre Deus e a pessoa, onde Deus se dirige como um amigo preocupado com e bem estar do outro, convocando-o a participar da sua vida (Ex 33, 11; Jo 15, 14-15), produzindo:

Uma perfeita comunhão com o Pai por meio de Jesus Cristo (Ef 2, 18).Comunhão espiritual com inserção na vida divina (1Pd 2, 9-10).Comunicação de espiritualidade no coração dos fiéis (2Cor 3, 2ss.Transmissão de vida pela Palavra de Deus porque ela é viva e eficaz (Hb 4, 12).

LECTIO DIVINA

A espiritualidade bíblica encontra o seu degrau mais alto quando fazemos da Sagrada Escritura uma prática de exercícios espirituais.

A Lectio Divina, "leitura divina", "leitura espiritual", ou ainda, uma "leitura orante da Bíblia,” nos coloca em intimidade com Deus.  A partir deste exercício, conscientes do Plano de Deus e de sua vontade, podemos saborear os frutos necessários à nossa salvação.

A Lectio Divina é deixar-se envolver pelo Deus que estabelece uma comunicação com sua criatura. Os princípios da Lectio Divina foram experimentados a partir do ano 220 e praticados por monges católicos, especialmente nas regras monásticas, como Pacômio, Agostinho, Basílio e Bento.

O tempo diário dedicado à Lectio Divina sempre foi longo e no melhor momento do dia para a interiorização. A sistematização do método nós encontramos nos escritos de Guigo, o Cartucho, por volta do século XII. É tradicionalmente é uma oração individual, porém, pode-se fazê-la em grupo. O importante é rezar com a Palavra de Deus. Os monges diziam que a Lectio Divina é sua escada espiritual, mas o é também de todo o cristão.

O Papa Bento XVI fez a seguinte observação num discurso em 2005: "Eu gostaria, em especial, recordar e recomendar a antiga tradição da Lectio Divina, a leitura assídua da Sagrada Escritura, acompanhada da oração que traz um diálogo íntimo em que na leitura se escuta Deus que fala e, rezando, responde-lhe com confiança e abertura do coração”.

O método mais antigo e que inspirou outros mais recentes, é que, individual, em comunidade ou no círculo bíblico, seja uma reflexão com a Palavra de Deus, precedida da invocação do Espírito Santo, seguindo os passos tradicionais:

 1- Lectio (Leitura); 2- Meditatio (Meditação); 3- Oratio (Oração); 4- Contemplatio (Contemplação).

Existem outros métodos que procuram ajudar o cristão a acolher, em sua vida, a Palavra de Deus e coloca-la em prática no dia a dia. O importante é rezar com a Bíblia.

O MÉTODO TRADICIONAL

“A leitura procura a doçura da vida bem-aventurada; a meditação a encontra; a oração a pede, e a contemplação a experimenta. A leitura, de certo modo, leva à boca o alimento sólido, a meditação o mastiga e tritura, a oração consegue o sabor, a contemplação é a própria doçura que regala e refaz. A leitura está na casca, a meditação na substância, a oração na petição do desejo, a contemplação no gozo da doçura obtida." (Guigo, o Cartucho, Scala Claustralium).

Lectio. Ler, com calma e atenção, um pequeno trecho da Sagrada Escritura (aconselha-se que nas primeiras vezes utilizem-se os textos dos Evangelhos). Ler o texto quantas vezes forem necessárias. Procurar identificar as coisas importantes do texto: o ambiente, os personagens, os diálogos, as imagens usadas, as ações. É importante identificar tudo com calma e atenção, como se estivesse participando da cena. A leitura é o estudo assíduo das Escrituras, feito com aplicação de espírito.

Meditatio. Começa, então, a meditação. Ela não se detém no exterior, penetra no interior. Descobre e o que esta Palavra está iluminando a vida e a realidade em que se vive hoje. Quais são as circunstâncias que ela questiona e incentiva? Depois de ter refletido, com a meditação se começa a pensar no prêmio: como seria glorioso e deleitável ver a face desejada do Senhor, não mais tendo a aparência humana, mas enxergando a glória da imortalidade, e coroado com o diadema que o Pai dará no dia da ressurreição, o dia que o Senhor fez (Sl 118,24).

Oratio.  Toda boa meditação leva à oração. É o momento da resposta a Deus depois da escuta. É o momento muito pessoal. Não há que se preocupar com preparação de palavras, fala o que está no coração depois da meditação: se for louvor, louva; se for pedido de perdão, peça; se for necessidade de maior clareza, peça a luz divina; se for cansaço e aridez, peça os dons da fé e da esperança. Enfim, os momentos anteriores, se feitos com sinceridade, encaminharão a oração que nasce do coração.

Contemplatio. É o momento que pertence a Deus e sua presença misteriosa. É o momento em que se permanece em silêncio diante de Deus. É uma maneira de ver Deus presente na história e na vida! "Ele recria a alma fatigada, nutre a quem tem fome, sacia sua aridez, lhe faz esquecer tudo o que não é terrestre, vivifica-a, mortificando-a por um admirável esquecimento de si mesma" (Guido, o Cartucho).

Há uma grande preocupação com a prática vivencial, com a conversão diária, de modo que muitas vezes se costuma acrescentar a "actio", ou seja, ação, junto com a contemplação, traçando um plano de vida eivado de espiritualidade. Os temores de vida alienada podem ser superados quando se aprofunda a Palavra de Deus e se crê que ela penetra no mais profundo de nosso ser, iluminando o caminho de nossa vida.