Catequese para adultos

Herdeiros da fé Abbraâmica (II)

Brasília, (Zenit.org) José Barbosa de Miranda | 511 visitas

Deus fez alianças e “não ficou nenhuma sem cumprimento: tudo se realizou em favor do povo e nenhuma delas falhou” (Js 23,14). Nessa sequência de artigos catequéticos com conteúdo bíblico, continuaremos o anterior trilhando nas pegadas de Abraão. Neste, trataremos da teofania a Abraão e sua reação acolhedora. É uma proposta catequética, fomentando atitude de Igreja (nos catequistas), grandeza do acolhimento de pessoas sem distinção de credo, pela ação concreta (martiria).

A FIDELIDADE DE DEUS

As bênçãos de Deus não visam somente a Abraão, como vimos anteriormente. Essas promessas estão marcadas pela predileção divina sobre a descendência de Abraão, gerada por ele e Sara, em Isaac e Jacó (17,15-22; 21,8-14), que são transmitidas como uma renovação das promessas (Gn 26,3ss; 28, 13ss), e dadas como herança (28,4; 48,15ss; 50,24). Estão presentes no povo escravizado no Egito, quando “Deus ouviu os seus gemidos, lembrou-se da sua Aliança com Abraão, Isaac e Jacó” (Ex 2,24; Dt 1,8), encontrando-o no deserto e o cercou de carinhos (Dt 8, 14-15; 32,10). O salmista também recorda da promessa, ao fazer sair do Egito, o seu povo: “Lembrando a promessa sagrada ao seu servo Abraão, fez seu povo sair com alegria, seus eleitos com gritos jubilosos” (Sl 105, 42-43). Ainda se lembra da Aliança, chamando os exilados de “descendência de Abraão, meu amigo” (Is 41, 8). Como se não bastassem, quando a sobrevivência de Israel estava ameaçada, os profetas lembraram a vocação de Abraão para restaurar a confiança: “Olhai para a rocha da qual fostes talhados, para a cova de que fostes extraídos. Olhai para Abraão, vosso pai, e para Sara, aquela que vos deu à luz” (Is 51, 1-2). Moisés, ao pedir a Deus que reconsiderasse a condenação ao povo, que o trocara pelo bezerro de ouro, recorda: “Lembra-te de teus servos Abraão, Isaac e Israel” (Ex 32,13).

O Deus de Abraão é um Deus presente que renova sua Aliança ainda hoje. A catequese se alimenta dessa história e faz dela o condutor de sua mensagem. Catequizar é caminhar, como Abraão, acreditando, recordando, atualizando e conduzindo.

DA FILIAÇÃO DA ALIANÇA À FILIAÇÃO ESPIRITUAL

Não basta estar ligado a Abraão pela Aliança, é preciso ser herdeiro espiritual. É falsa a confiança que não vem acompanhada pela profunda docilidade a Deus. Ezequiel recorda aos seus contemporâneos que essa herança não é suficiente, é preciso uma conversão interior, do coração, para compartilhar do patrimônio dado a Abraão (Ez 33,24-29). João Batista adverte aos fariseus e saduceus que iam para serem batizados e não se convertiam: “Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira que está para vir? Produzi fruto digno de arrependimento e não penseis que basta dizer: temos por pai a Abraão. Pois eu vos digo que mesmo destas pedras Deus pode suscitar filhos de Abraão” (Mt 3, 8-9). O rico egoísta pode gritar por “Pai Abraão”, mas nada consegue do seu passado, pois abrira um abismo entre ele e o pobre (cf. Lc 16,24). Cristo lança no rosto dos fariseus, alimentados pelo seu projeto homicida, que nem a sua descendência de Abraão os livra da realidade de filhos do diabo (cf. Jo 8, 37-44). A filiação pela Aliança nada vale sem a fidelidade.

A Tradição enalteceu os méritos de Abraão pela sua obediência (cf. Ne 9,8; Eclo 44,19-20), pelo seu heroísmo (1Mc 2,52; Sb 10, 5-6), enquanto uma corrente do judaísmo punha tudo na observância cega da Lei, esquecendo-se que o essencial é confiar em Deus e ser fiel pela praxe. Essa pretensão orgulhosa dos fariseus é desmascarada por Paulo, baseando-se em Gn 15, 6: “Foi assim que Abraão creu em Deus e isso lhe foi levado em conta de justiça” (Gl 3,6). O homem não tem que se gloriar de suas obras, pois todo o mérito é de Deus, tudo da glória é anterior ao homem: “Mas pela graça de Deus sou o que sou: e sua graça a mim dispensada não foi em vão. Ao contrário, trabalhei mais do que todos eles, não eu, mas a graça de Deus que está comigo” (cf. 1Cor 15,10).

A ÚNICA POSTERIDADE

É em Cristo que plenifica essa descendência abraâmica. Ele, o filho de Abraão (cf.Mt 1,1), que é maior que Abraão (cf. Jo 8,53) dará a plenitude da herança da promessa, por ele é que virá a descendência prometida (cf. Gn 15,16). Todos os que creem em Cristo podem participar de sua descendência: “A bênção de Abraão, em Cristo Jesus, se estenda aos gentios, e para que, pela fé, recebamos o Espirito prometido (Gl 3, 14)”.

A catequese bíblica levada a termo, pela ação do Espírito Santo e pelo testemunho, faz uma ligação da Revelação aos Patriarcas até a consumação dos tempos. Não há interrupção entre Deus e os homens, embora o homem possa interromper a sua comunicação com Deus, pelo pecado, mas Deus fica a espera do reatamento por iniciativa do homem.  A pátria definitiva dos filhos de Abraão, os crentes, é o seio de Abraão (Lc 16,22), como deseja a liturgia dos mortos, e para lá caminhamos.

Abraão teve coragem de sair, deixar-se dirigir, e todos, como seus seguidores na fé, estão sempre a caminho para essa terra ao paraíso celeste. A catequese bíblica não é um domínio da Bíblia, pelo conhecimento intelectual, mas sair a cada dia do seu comodismo e ir ao encontro do próximo, é caminhar juntos para viver a aliança plena na casa do Pai (Jo 14,2). O conhecimento bíblico, pela pesquisa não se encerra em si mesmo, mas levanta sinais para encontrar Deus.

O novo nome de missão é sair e marcar encontros com Deus, na pessoa pobre, falando desse Deus na história dos homens. Abraão viveu essa realidade e deixou uma descendência que se consuma na Encarnação do Verbo.