Catequese para Adultos: catequese reconciliadora

A catequese é um sair de si mesmo, um desalojar-se para dar espaço aos excluídos.

Brasília, (Zenit.org) José Barbosa de Miranda | 501 visitas

OS QUE FORAM AFASTADOS

No artigo anterior refletimos sobre a catequese insuficiente, aquela que chamamos de verniz superficial. A catequese que não ajuda no amadurecimento da fé por falta de conteúdo.

Hoje, refletiremos sobre a necessidade de uma catequese voltada para os excluídos, os que foram rejeitados por pessoas da Igreja por falta de humildade e caridade. Ainda reporto-me a Dom Juventino Kestering, em sua conferência na Segunda Semana Brasileira de Catequese, que dizia: “Um dos grupos que desperta hoje nossa atenção é o dos que foram afastados por falta de acolhida: eles buscaram na Igreja respostas aos seus problemas concretos, não encontraram acolhida e nem sequer ouvidos atentos para escutar” (Estudos CNBB 84, p. 260).

A CATEQUESE QUE LEMBRA JESUS

Essa catequese visa essencialmente uma reaproximação com “as ovelhas desgarradas”. Fazem parte do aprisco, mas estão distantes à espera de uma oportunidade de diálogo, de um reencontro. A catequese com esses adultos deve ser alimentada pela docilidade do Bom Pastor (cf. Jo 10, 11-15). Nesse momento é oportuno mostrar que a Igreja é obra divina, mas administrada por homens. O que deve prevalecer agora não são os erros, as prepotências, o autoritarismo humano, mas o reencontro com Deus que se manifesta em seu Filho, e seu Filho permanece na Igreja. É catequisar com São Paulo: “Vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus” (1Cor 4,23). É uma catequese que busca o reencontro com Cristo. É o momento em que o catequista se pareça com Cristo, chegando a despertar na ovelha que foi afastada a admiração: “você me lembra Jesus”! Um dos eixos dessa catequese é a humildade: reconhecer as fragilidades que podem ser transformadas em instrumentos confiáveis para o reencontro com o Reino de Deus. As pessoas que foram afastadas ainda estão com as feridas abertas pela exclusão injusta, mas aceitam o curativo que pode restabelecer a inclusão. São Paulo dá a receita para essa catequese: “Para os fracos, fiz-me fraco, a fim de ganhar os fracos. Tornei-me tudo para todos, a fim de salvar alguns a todo custo. E isto tudo eu faço por causa do evangelho, para dele me tornar participante” (1Cor 9, 22).

UMA CATEQUESE DE ESCUTA

Certa ocasião, em um encontro de preparação para o matrimônio, dele participava um casal jornalista que ainda tinha a feridas abertas de quando foram afastados da Igreja. Eu conversava com eles e dava-lhes oportunidade de abertura para promover um possível reencontro com a Igreja. Nesse momento se aproxima um sacerdote e, ao ouvir os desabafos do casal jovem contra a Igreja, foi ríspido: “vocês não deveriam estar aqui. Aqui não é lugar de falar mal da Igreja. Podem se retirar”. Eu tentei argumentar com o sacerdote sobre um diálogo caridoso, mas ele não aceitou, concluindo; “aqui é lugar para quem acredita na Igreja e não de quem fala mal dela. Não vale a pena perder tempo com essa gente”.

A catequese com adultos se prima pela escuta que gera diálogo e sem prejulgamento. Como catequisar com monólogo e sem aceitar as diferenças? Como falar farisaicamente de Cristo sem admitir erros que podem ser reparados? A partir do momento que a pessoa começa a falar de suas frustações já se supõe uma relação: restabelecer laços. É o início da catequese paulina: “fiz-me fraco para ganhar os fracos”.

A CATEQUESE DA RECONCILIAÇÃO

Na mesma conferência, Dom Juventino comenta: “Existe também o grupo dos que se afastaram por desentendimentos com o padre. Na maioria dos casos, a experiência de “afastamento” é traumática. Muitos sentem-se amargurados, cultivam resistência contra a Igreja e seus líderes, e alguns, inclusive, tornam-se agressivos” (Estudos da CNBB 84, p. 260).                                            

Como encontrar essa ovelha tresmalhada se não for ao seu encontro? É a catequese do amor e da reconciliação. A catequese da “minha culpa, minha máxima culpa”. A catequese que coloca a ovelha nos braços do Pai.

Nesse momento aparece a catequese sobre a Igreja, depositária da fé. Cristo instituiu a Igreja para ser seu Sacramento, uma instituição que contém e realiza a graça redentora de Cristo. A igreja que provocou o afastamento não estava revestida do mandato de Cristo: “Fazei todos meus discípulos, ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei” (cf. Mt 28,19-20), mas agiu como instrumento de divisão e exclusão. Não se trata de uma catequese de jogar pedras, mas de recuperar, mostrando a misericórdia de Deus. Cristo não veio para condenar, mas salvar. A essência dessa catequese está na misericórdia e gratuidade do amor: “Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso. Não julgueis, para não serdes julgados; não condeneis, para não serdes condenados; perdoai, e vos será perdoado” (Lc 6, 36-37).

A catequese, toda ela é uma Escola de Jesus, Escola de Igreja. Seu itinerário é o de Jesus.

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Leia os artigos anteriores dessa série sobre catequese de adultos:

Catequese para Adultos: uma catequese em tempos de mudança

Priorizar a catequese com adultos