Catequese para Adultos: Formação de catequistas (IV)

A tradição na formação da fé

Brasília, (Zenit.org) José Barbosa de Miranda | 440 visitas

O conceito sobre Tradição remonta ao ensinamento dos rabinos, ainda no AT, com a exortação da sua transmissão, que era oral e de geração em geração. Ela deve ser fiel aos princípios revelados por Deus na História da Salvação que usava os Patriarcas e os Profetas. Não há dúvida que houve em Israel a transmissão dum depósito sagrado. Essa transmissão envolve todos os aspectos da vida, tanto da história do povo como de suas crenças, enraizada nas orações, na sabedoria que brota da reflexão, passando pelo deserto, enriquecida pela Aliança do Sinai e atingindo sua fórmula primária na Terra Prometida. É sagrada pela sua origem divina. É sagrada por conter prescrições enunciadas por emissários de Deus que as transmitiram como foram inspiradas.

A EVOLUÇÃO DA TRADIÇÃO

Os elementos básicos da Tradição do Povo de Deus se caracterizam por dois princípios: 1) A estabilidade que está fundada na crença e no direito do mesmo culto, do mesmo Deus, da mesma fé. 2) A progressão, porque a Revelação obedece à pedagogia do processo histórico que é transmitido no tempo e no espaço, na medida em que novos emissários são enviados de acordo com as exigências históricas de cada época. Por isso é única, embora dinâmica.

As formas de transmissão da Revelação e sua originalidade estão relacionadas com o ambiente e os costumes do povo e também com as funções das pessoas escolhidas por Deus para repassá-las: a fidelidade exigida pelos sacerdotes que são os guardiões da Lei e do culto, os oráculos dos profetas que têm a função de pregadores, a sabedoria dos sábios e escribas que conclamam à reflexão e ao discernimento. Por essas vias Israel foi estabelecendo um diálogo com seu Deus único até a eleição como povo da Aliança.

A IMPORTÂNCIA DA TRADIÇÃO NO DEPOSITO DA FÉ

Se não há dúvida que houve uma transmissão oral da Tradição para o povo da Antiga Aliança, essa transmissão torna-se necessária para que se assegure sua permanência com caráter fidedigno. E a resposta está na Tradição Escrita. Pelo contato com outras religiões não monoteístas, principalmente no exílio e pós-exílio babilônico, e para preservar a unidade numa única fé herdada dos Pais (cf.DT 6,4), passa-se à Tradição Escrita, a Sagrada Escritura, que os judeus a resumem na Lei e nos Profetas do Antigo Testamento. “No judaísmo próximo da era cristã, o legado da tradição antiga está essencialmente conservado nessa forma escrita. Contudo o povo de Deus não é um simples agregado de crentes reunidos em torno de um livro: é uma instituição organizada. Por isso nele subsiste, paralelamente à Escritura, uma tradição viva, que a seu modo continua a dos séculos passados, embora por direito ela não possa pretender possuir a mesma autoridade normativa que a Escritura. É encontrada nos meios sacerdotais, entre os autores, e até em meio às seitas em que se divide o judaísmo. Ela é objeto duma verdadeira técnica de transmissão, essencialmente baseada no contato pessoal entre o mestre e seus discípulos: o mestre transmite e o discípulo recebe” (Xavier Léon-Dufour, Vocabulário de Teologia Bíblica, Vozes 2008, p. 1037).

Surge, então, a Tradição Escrita, a Bíblia, que é a transcrição da Tradição Oral. Esse relato é o registro da história da salvação, de forma ininterrupta e verdadeira, pois o que os homens ensinaram, de geração em geração, é preservado na forma escrita; “Este plano de revelação se concretiza através de acontecimentos e palavras intimamente conexos entre si, de forma que as obras realizadas por Deus na História da Salvação manifestam e corroboram os ensinamentos e as realidades significadas pelas palavras. Estas, por sua vez, proclamam as obras e elucidam o mistério nelas contido. No entanto, o conteúdo profundo da verdade seja a respeito de Deus seja da salvação do homem se nos manifestam por meio dessa revelação em Cristo que é ao mesmo tempo mediador e plenitude de toda a revelação” (Dei Verbum, n.2).

COMO A CATEQUESE SE ALIMENTA DESSA TRADIÇÃO

Santo Agostinho, em reposta à consulta de um diácono catequista, conhecido pelo nome de Deogratias, a respeito de como ensinar eficazmente aos seus catequizandos, respondeu-lhe: “A narração é completa quando o catecúmeno é instruído a partir do início da Escritura – No princípio Deus criou o céu e a terra – até os tempos atuais da Igreja. [...] Tomemos tudo sumária e globalmente, escolhendo nesses artigos os fatos mais admiráveis, que ouvem com maior prazer, para apresentá-los como em pergaminhos, desenrolando-os e explicando-os lentamente: não convém subtraí-los imediatamente à vista e sim oferecê-los ao exame e admiração do espírito dos ouvintes” (Santo Agostinho, Instrução dos Catecúmenos, p.38. Vozes 1984).

Algumas perguntas que sempre são feitas: como começou a Bíblia? O que é Tradição? Qual é a melhor maneira de se fazer uma catequese bíblica? Com Santo Agostinho podemos encontrar a resposta: do princípio. Qualquer pessoa que se propõe a educar alguém na fé, no amor e na esperança, objeto da catequese, precisa ter intimidade com a Palavra de Deus. Todo princípio da catequese é bíblico, porque todo catequista é ministro da Palavra de Deus.

No próximo artigo estudaremos a Tradição Apostólica para, depois, vermos a Tradição bíblica de forma escrita. Leia o artigo anterior clicando aqui.

PARA ATUALIZAR:

1)      A catequese com adultos tem uma metodologia própria. O que mais inquieta os adultos sobre a Bíblia?

2)      Em um momento de partilha, na catequese, qual é a maneira mais eficiente para criar um ambiente familiar com a Bíblia?