"Chorei por dentro ao ler coisas tão maravilhosas"

O cardeal espanhol, Carlos Amigo comenta as palavras e os gestos do Papa Francisco

Madri, (Zenit.org) Sergio Mora | 565 visitas

O cardeal arcebispo emérito de Sevilha, Carlos Amigo Vallejo, OFM, esteve no passado dia 27 de junho, na apresentação de três livros do Papa Francisco: “Só o amor pode nos salvar”; “Peço-vos que rezeis por mim”; “Nâo deixem que roubem a vossa esperança”, editados pela Editorial Romana com a Livraria Editora Vaticana.

Ao término da apresentação, o momento era propício para perguntar à sua eminência sobre o papa Francisco, suas palavras e porque atrai tanto as pessoas, resposta que lhes propomos abaixo na entrevista que concedeu à ZENIT.

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ZENIT: Por que este Papa atrai tanto as pessoas especialmente os nossos povos?

- Cardeal Amigo: Temos um papa da América Latina e tantos os latinos como os latino-americanos precisamos também do sentimento. Precisamos da cabeça, do intelecto da razão, mas nossa cultura está também cheia de sentimento. Então, o santo padre Francisco, é fiel a si mesmo, fala com a linguagem simples, das pessoas dos bairros portenhos ou das pessoas que se encontram em qualquer lugar do mundo. Fala dos conselhos que o seu avô lhe dava e fala com os ditados do seu próprio país e as pessoas agora entendem muito bem tudo isso.

Vocês se deram conta de que se expressa de forma muito simples, mas com ideias que têm uma grande profundidade, porque o Papa sabe que é educador da fé. Por exemplo, quando fala de perdão, fala com palavras de carinho, fala da misericórdia e do amor de Jesus Cristo, mas também da responsabilidade de ser fieis ao que  prometemos no batismo.

ZENIT: Sabe-se que o Papa Francisco quer uma reforma da Cúria, mas parece que suas palavras já estão mudando muitas coisas.

- Cardeal Amigo: Eu acho que ao invés de reforma, é uma renovação, e uma renovação, em vez de fazer coisas novas, significa remover toda aquela ferrugem que o pecado ou a negligência das pessoas tenha conseguido colocar. Não se trata de fazer coisas novas, mas de ser autenticamente fieis ao que é a essência do fiel cristão. Alguns pensam que a renovação será para fazer coisas novas ou algo assim. Pelo contrário, a renovação ajudará a limpar-nos um pouco, para que brilhe no nosso rosto o rosto de Cristo, porque isso é ser cristão.

ZENIT: Sua simplicidade é muito evangélica, não é verdade?

- Cardeal Amigo: É uma simplicidade de gestos e também de palavras. Além do mais é a simplicidade do mistério. O mistério entendido não como algo escondido, não como um arcano, uma espécie de muro que está na cabeça dele, mas que o mistério é algo grande, admirável, sublime, cheio de luz, e o papa nos vai introduzindo nesse mistério, como alguém que não quer nada, ele nos vai introduzindo no coração de Deus.

ZENIT: Tantas pessoas voltaram ou se aproximaram da Igreja, será somente pela sua linguagem?

- Cardeal Amigo: É também a sacralidade dos gestos. Como os sacramentais, a água benta, então, parece que é somente um pouco de água que colocamos no dedo e fazemos o sinal da cruz. Entretanto, isso te aproxima, converte o coração. Te coloca num novo espaço, e isso são os gestos. A pessoa não fica nos gestos, mas estes convertem o coração. Vendo o que o Papa faz, a pessoa sente até mesmo uma chamada de consciência, eu tenho que mudar, ele nos está dizendo onde está o caminho, onde está a verdade.

ZENIT: Até um cardeal sente isso?

- Cardeal Amigo: Bem, sinto, sinto e muito, e quando leram na apresentação destes livros algumas páginas do papa Francisco, a pessoa deveria ler de joelhos, e em mais de uma ocasião não falo que saiam lágrimas mas chorar por dentro, sim, muitas vezes chorei por dentro lendo coisa tão maravilhosas, especialmente estas homilias na casa Santa Marta. Às vezes nos preocupamos porque a Igreja faz muitas obras de caridade e as pessoas, às vezes, não se dão conta disso. Bom, o papa não tem muito interesse nisso, mas sim na fidelidade à mensagem do Evangelho.

Traduzido do original espanhol por Thácio Siqueira