Como Moisés, Bento XVI sobe à montanha para orar por nós, que combatemos

Exercícios espirituais: cardeal Ravasi homenageia o papa renunciante com uma célebre passagem bíblica

Roma, (Zenit.org) Luca Marcolivio | 1471 visitas

Moisés na montanha em oração, enquanto o povo combate no vale. Com esta imagem da bíblia, o cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho para a Cultura, prestou homenagem ao papa Bento XVI antes de começar os exercícios espirituais para o Santo Padre e para a cúria romana. Os exercícios começaram na noite deste domingo, na Capela Redemptoris Mater do Palácio Apostólico Vaticano.

Falando em nome de todos os presentes, o cardeal Ravasi expressou palavras de carinho, gratidão e admiração pelo papa renunciante e, com referência ao episódio do Antigo Testamento (cf. Ex 17), afirmou: "Nós vamos permanecer no vale, onde está Amaleque, onde existe poeira, medos, terrores, pesadelos, mas também esperanças. Onde Sua Santidade ficou nos últimos oito anos. A partir de agora, no entanto, sabemos que, do alto da montanha, vem a sua intercessão por nós".

O tema dos exercícios espirituais da quaresma deste ano, pregados pelo cardeal Ravasi, é “Ars orandi, ars credendi [arte de orar, arte de crer; ndr]: o rosto de Deus e o rosto do homem na oração dos Salmos”. Ravasi recordou, mencionando Santo Inácio de Loyola, que a função dos exercícios espirituais é a de "examinar a consciência", meditar e "descartar todos os afetos desordenados".

O cardeal citou a experiência da escritora judia Etty Hillesum, vítima do holocausto nazista, já mencionada por Bento XVI na audiência geral de quarta-feira passada. Ela escreveu em seu diário de Auschwitz sobre a necessidade de encontrar em si mesma "aquela fonte muito profunda", muitas vezes submersa em pedra e areia, onde Deus residia.

Da mesma forma, para os católicos, os exercícios espirituais são uma oportunidade para "libertar a alma da lama do pecado, da areia das banalidades, das urtigas daquelas conversas que, especialmente nestes dias, ocupam continuamente os nossos ouvidos", disse Ravasi.

Os exercícios espirituais, continuou o biblista, implicam "ascese", palavra grega que significa precisamente "exercício", e, ao mesmo tempo, podem ser alimentados pela "criatividade" da oração, unida sempre ao rigor teológico.

Os momentos centrais do ato de orar foram identificados por Ravasi com quatro verbos: 1) respirar, 2) pensar, 3) lutar, 4) amar.

A oração, em primeiro lugar, é respiração: um ato essencial para a fé, assim como a respiração o é para a vida. Como afirmava o cardeal Yves Congar, a respiração é a oração, enquanto os sacramentos são o alimento.

Pensar é um ato não menos essencial na oração, que não é apenas "emoção" ou "instinto", mas "envolvimento pessoal na nossa busca de Deus". São Tomás de Aquino, citado por Ravasi, afirmou que "a oração é um ato da razão que aplica o desejo da vontade naquele que não está sob o nosso poder, mas é superior a nós": Deus.

O verbo lutar, disse Ravasi, sugere a luta entre Jacó e o anjo, "que Oseias, séculos mais tarde, interpreta como uma oração". De acordo com o profeta, Jacó lutou com o anjo, "venceu, chorou e pediu a graça" (Os 12,5).

A oração, especialmente quando é autêntica, envolve sofrimento e súplica a Deus. Na oração há um componente de luta que nasce da dificuldade de entender a vontade de Deus e que, às vezes, "raia a blasfêmia". Mas Deus, que "lê no profundo", escuta mais facilmente uma blasfêmia desabafada com fé e de coração do que "tantas orações mecânicas de domingo de manhã".

O quarto verbo é amar. A experiência do Deus-amor é distintamente cristã. Em outras religiões, "ele não está perto de nós o suficiente para poder ser abraçado". Longe de ser um "motor imóvel", como Aristóteles afirmava, o Deus cristão "não é um Deus do qual se quer falar, mas um Deus a quem se quer falar".

É por isso que, para o cristão, "a oração deve ter essa dimensão de intimidade festiva, de colóquio", sempre compatível com as três dimensões já citadas: a respiração, o pensamento e a luta.

Um quinto componente, que, em certo sentido, envolve os quatro verbos da oração, é o silêncio. “Dois verdadeiros enamorados”, exemplifica Ravasi, “quando já esgotaram todo o arsenal de clichês e estereótipos do amor, se realmente estão enamorados, se olham nos olhos e não dizem nada”.

A oração não é diferente: é um "cruzar silencioso dos olhares, que derrama a verdadeira contemplação orante”, disse, em conclusão, o biblista.

Os exercícios espirituais para o papa e para os membros da cúria romana terminam na manhã de sábado, 23 de fevereiro. Ficam suspensas, até lá, todas as audiências com o papa, inclusive a audiência geral da quarta-feira.