Como os católicos salvaram Babylon-London

Livro conta a vida do Pe. McNabb, professor do escritor G. K. Chesterton

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Por Antonio Gaspari

ROMA, segunda-feira, 5 de julho de 2010 (ZENIT.org) – Foi celebrado nesse 2 de julho, em Grottammare, na Itália, o Chesterton Day, encontro de aficionados pelo grande escritor britânico Gilbert Keith Chesterton (autor de obras-primas como Ortodoxia e O homem eterno).

Neste contexto, o vice-presidente da Sociedade Chestertoniana da Itália, Paolo Gulisano, estudioso da cultura e literatura anglo-saxônica e autor de vários livros sobre a vida e a obra de escritores como Tolkien, C.S. Lewis, G. MacDonald, O. Wilde, J.H. Newman e o próprio Chesterton, irá apresentar seu último ensaio: “Babylondon. Pe. McNabb, professor de Chesterton, no caos da Babylon-London”, que será publicado na Itália pela Edizioni Studio Domenicano.

ZENIT o entrevistou.

ZENIT: Quem foi Pe. McNabb?

Gulisano: Um dominicano irlandês, que passou toda sua vida religiosa na Inglaterra. Pe. Vincent Joseph McNabb foi professor e amigo pessoal do grande Chesterton, e um dos principais responsáveis por sua conversão ao catolicismo. Ao lado de Belloc, foram os protagonistas da cena cultural inglesa na primeira metade do século XX. Juntos, fundaram um movimento que ficou conhecido como Distributismo, que buscou realizar na Grã Bretanha os princípios da Doutrina Social da Igreja Católica. Pe. McNabb, que ficou conhecido como o “santo do Hyde Park”, foi uma figura extraordinária; nascido na Irlanda do Norte, décimo de uma família de onze irmãos, acompanhou sua família em mudança para a Inglaterra quando era ainda um garoto, ocasião que serviu para amadurecer sua vocação religiosa. Em Newcastle, cidade para onde emigraram, entrou em contato com a comunidade dominicana; e ainda muito jovem, não teve dúvidas em ingressar na ordem.

ZENIT: Pe. McNabb foi então um dos protagonistas daquele momento extraordinário do despertar do catolicismo na Inglaterra?

Gulisano: Exatamente. No curso do século XX, enquanto o mundo corria em direção à secularização e à negação de Deus, promovidas por ideologias niilistas, sinais de esperança foram oferecidos por nações de evangelização tardia e por alguns poucos países ocidentais de tradição cristã – em sua maior parte já entregues ao relativismo e à apostasia. Entre estes estava a Inglaterra, que na Idade Média havia sido a jóia da cristandade, mas que, com o cisma de Henrique VIII, rompe definitivamente com Roma e passa a perseguir os católicos. Durante o século XIX, com o triunfo do Positivismo, do Cientificismo, e com a nova política imperial britânica, as leis que haviam mantido na clandestinidade a Igreja Católica em toda a Grã-Bretanha por 300 anos são abolidas. Inicia-se assim um novo período para a Igreja, uma “segunda primavera”; a Igreja católica, saída das catacumbas, revela toda sua vitalidade e força de verdade, forjadas pelas longas e cruéis perseguições. Foi assim que, no período entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, não apenas a Inglaterra como todo o mundo puderam ser iluminados por figuras como o cardeal Newman, Pe. Robert Hugh Benson, Dom Ronald Knox, apologistas e profetas, e por escritores geniais, que mergulhavam suas penas na tinta de uma fé intensa e apaixonada, entre os quais Chesterton e Pe. McNab.

ZENIT: Em seu livro, o senhor destaca a vocação de Pe. McNabb e sua pertença à ordem Dominicana, que tanto na Irlanda como na Inglaterra foi duramente perseguida na época elisabetana.

Gulisano: Precisamente. Foi uma noite longa e escura, mas, com a restauração dos direitos católicos, a Ordem pode também retomar suas atividades na Inglaterra, iniciando uma lenta e fatigosa reconstrução de sua presença. O jovem McNabb ingressou na Ordem com todo seu entusiasmo, sua fé ardente, sua caridade incansável e sua esperança de restituir a Inglaterra a Cristo.

Embora irlandês – e Pe. McNabb sempre se manteve fiel a sua identidade – a Inglaterra se tornou para ele uma segunda pátria. Costumava dizer que seu amor pela Irlanda era como o amor que se nutre pela própria mãe, enquanto seu amor pela Inglaterra era comparável ao de um homem por sua esposa.

Assumindo a antiga missão dos dominicanos, que são a Ordo Predicatorum - ordem dos pregadores – pasmava os londrinos com suas pregações e intervenções em debates que conduzia no Hyde Park de Londres.

Debatia e dialogava com todos, protestantes de qualquer denominação, ateus, livres pensadores. Se fama cresceu a tal ponto que, todos os domingos, centenas de pessoas compareciam ao parque para ouvi-lo. Foi convidado também a participar de debates em teatros, desafiado por personalidades do calibre de G.B. Shaw. Era dono de inteligência e erudição extraordinárias: lia o Antigo Testamento em hebraico, o Novo Testamento em grego e São Tomás de Aquino em latim.

Nutria profunda devoção pelo fundador de sua ordem, São Domingos, e seu maior desejo era imitá-lo. Via nele o apóstolo que assumira o encargo de anunciar Cristo a todos, ricos ou pobres, ignorantes ou intelectuais. O lema da ordem, Veritas, era o projeto de vida de Pe. Vincent.

ZENIT: Transcorridos quase 70 anos da morte de Pe. McNabb - de quem um número crescente de pessoas pede pela beatificação - qual exemplo e testemunho desta figura seriam especialmente válidos neste momento que hoje vivemos?

Gulisano: Pe. McNabb dedicou sua vida a defender o cristianismo contra todo tipo de ataque ideológico. Foi um grande pensador, dotado de vastíssima cultura teológica, professor, estudioso e escritor, ainda que boa parte dos textos que deixou sejam coletâneas de seus discursos e homilias; mas o âmbito mais importante de seu apostolado não foi intelectual, e sim o serviço à verdade e seu anúncio a todas as pessoas, a começar pelas mais pobres. De fato, naquela época, a maioria dos católicos era pobre, pertencente à classe operária proveniente da Irlanda. Pe. McNabb bem sabia que o anúncio da verdade constitui uma forma maravilhosa de Caridade, pois nem só de pão vive o homem, mas também da Palavra de Deus.