Como redescobrir a arte sacra?

Pe. Lang explica as bases litúrgicas da arquitetura

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Por Antonio Gaspari

ROMA, sexta-feira, 13 de maio de 2008 (ZENIT.org).- «Hoje mais que nunca a Igreja precisa proclamar ao mundo a beleza de Deus, que brilha nas obras de arte que a fé gerou», sustenta o Pe. Uwe Michael Lang.

Com estas palavras, o sacerdote, membro da Congregação do Oratório de São Felipe Néri de Londres, e oficial da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, explicou à Zenit os objetivos do mestrado da Universidade Européia de Roma em «Arquitetura, arte sacra e liturgia».

O Pe. Lang é também docente e coordenador para o próximo ano acadêmico 2008/2009 desse mestrado. Escreveu sobre liturgia, primeiro em alemão, e depois em inglês, italiano, francês, húngaro e espanhol, o livro «Voltados ao Senhor», com o prólogo do então cardeal Joseph Ratzinger.

Segundo o coordenador acadêmico do mestrado, «na Igreja nasceram as grandes obras-primas de arte sacra e música sacra, que têm o poder de elevar nossos corações e conduzir-nos muito além de nós mesmos para Deus, que é a própria beleza».

Frente ao que parece um grande descobrimento da arte religiosa, o Pe. Lang quis precisar uma distinção entre «arte religiosa» e «arte sacra».

A arte religiosa, disse, está caracterizada pela expressão subjetiva e nasce «do modo de sentir a religião por parte de uma pessoa de qualquer lugar e tempo», enquanto «a arte sacra tende a uma 'tradução' de uma realidade que ultrapassa os limites da individualidade humana e contém dados também objetivos que nascem 'da meditação da verdade de uma religião positiva e histórica' por parte do artista».

«A arte sacra – acrescenta – está destinada ao louvor e à glória de Deus e, ao mesmo tempo, é popular, porque deve e pode ser compreendida e tocar os corações dos fiéis, também dos fiéis simples. Na história, a arte da Igreja funcionava também como umaBíblia pauperum.»

Fazendo referência à importância que o Compêndio do Catecismo da Igreja Católica atribui à arte sacra e ao uso de muitas obras de arte como veículo dos mistérios da fé, o Pe. Lang sublinhou que «hoje mais que nunca, na civilização da imagem, a imagem sacra pode expressar muito mais que a própria palavra, desde o momento em que é eficaz seu dinamismo de comunicação e de transmissão da mensagem evangélica».

No referente à relação que existe entre verdade, beleza e arte sacra, o oficial da Congregação do Culto Divino sublinhou que «a base mais profunda da arte sacra é a beleza, que é atributo de Deus».

«Segundo a fórmula tomista, o belo, o verdadeiro e o bom são comutáveis. Portanto, a arte como expressão do belo manifesta a realidade, a verdade e a bondade de Deus.»

Mas a arte sacra está em crise. E é um sintoma que, como sublinhou o cardeal Ratzinger no livro «Espírito da Liturgia», revela a «crise da humanidade», uma espécie de «cegueira do espírito».

Para o Pe. Lang, «é uma crise das raízes profundas, uma crise que arrasou, ainda antes que a arte, a própria beleza da qual deveria ser portador. O próprio conceito das 'belas artes' das quais fala a constituição conciliar sobre Sagrada Liturgia, é discutido».

O coordenador acadêmico do mestrado sublinhou, citando Hrans Urs von Balthasar, que «junto à perda do belo, perdeu-se também o bom e o verdadeiro», de maneira que «por um lado há um falso tipo de beleza que não nos eleva para Deus e seu Reino, mas que, ao contrário, nos arrasta para baixo e suscita desejos desordenados» e, por outro, é preciso opor-se ao que Remo Bodei chamou de «a apoteose do feio», na qual se afirma que «tudo o que é belo é um engano e que só a representação do que é cru é a verdade».

«Esse culto ao feio não faz menos dano à fé católica que a falsa beleza», observou.

Em conclusão, o padre sublinhou que «a perspectiva do mestrado é ir além de uma visão só 'normativa' do planejamento, para uma maior consciência e devoção àquilo de que ele se ocupa, quando atua no âmbito da arquitetura e das artes sacras».