Concilio Vaticano II no contexto histórico do século XX

Entrevista com o Prof. Dr. Rodrigo Coppe Caldeira, Historiador e Professor Adjunto da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais

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Por Daniel Marques

RIO DE JANEIRO, sexta-feira, 02 de novembro de 2012 (ZENIT.org) – Publicamos a seguir a entrevista que o Prof. Dr. Rodrigo Coppe Caldeira, Historiador e Professor Adjunto da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, concedeu a ZENIT sobre o Concílio Vaticano II no contexto histórico do século XX.

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ZENIT: Poderia explicar o Concilio Vaticano II no contexto histórico do século XX?

Prof. Dr. Rodrigo: Entender o concílio num contexto histórico mais alargado é um esforço que venho fazendo. De fato, este esforço é necessário na medida em que se busque uma hermenêutica do concílio em que leve em conta tanto o seu lugar particular na história dos concílios da Igreja, sendo aquele que recepciona as determinações dos anteriores, e também como aquele que traz novas formas da Igreja pensar a si mesma e suas relações com o mundo contemporâneo. Dessa forma, é de central importância compreendê-lo numa convergência histórica que possibilite vizualizá-lo numa longa duração, sendo ele mesmo entendido como um "evento de recepção", além, claro, de criador de novas possibilidades da Igreja caminhar e ser sinal na história humana. Lembro-me, assim, de vários movimentos eclesiais que abriram os caminhos para que a Igreja se pensasse e agisse de forma não mais apenas antinômica ao mundo, mas oferecesse outras perspectivas, atualizadas (aggiornamento), de compreensão de si, de formas de atuação, de encontro com a pluralidade contemporânea. Foram estes movimentos que se delinearam inicialmente no final do século XIX e início do XX, como o movimento litúrgico, o bíblico, o teológico, especialmente com a emergência da eclesiologia de comunhão, o leigo, com cada vez mais ativa participação dos fieis na obra evangélica, que serão recepcionados no Vaticano II em várias de suas perspectivas.

ZENIT: Cada período histórico possui sua própria modernização, entendida como período de mudanças sociais, políticas, culturais, econômicas e religiosas. O que a história nos ensina sobre o esforço da Igreja Católica em dialogar com esse mundo em mudança?

Prof. Dr. Rodrigo: Utilizando-se de uma linguagem teológica, podemos dizer que a Igreja age no mundo a partir da atuação do Espírito Santo. A Igreja peregrina, assim, mantém viva a força do Evangelho durante os séculos a partir da sua capacidade em se adptar aos meios mais adversos. O Vaticano II - inclusive compreendido como um "novo Pentecostes" por João XXIII, o papa que o convocou - representa mais um destes momentos históricos que exigem da Igreja uma resposta, uma transformação, uma conversão, a fim de que se torne mais fiel ao Evangelho e que, a partir de uma linguagem que seja compreensível ao homens contemporâneos, possa se fazer presença, inspirando-os sempre e mais profundamente a vivê-lo de maneira criativa e fiel.

ZENIT: Quais as novidades do CVII? O que significa interpretar o CVII? É possível compreender e interpretar o CVII sem considerar o processo de recepção?

Prof. Dr. Rodrigo: Eis a pergunta que não quer calar, e é bom que não se cale, pois isso demonstra que estamos pensando o concílio e as maneiras de recepcioná-lo. São inúmeras as transformações da Igreja como evento conciliar. E aqui cito algumas: redescoberta da teologia patrística, a compreensão da Igreja como comunhão de fiéis, não apenas uma instituição jurídica visível, mas Corpo Místico de Cristo, a abertura ao diálogo ecumênico e interreligioso, a compreensão da positividade da liberdade religiosa, a centralidade da Palavra de Deus, entre muitas outras.

Interpretar o Vaticano II já é em si um ato de recepção do concílio. Assim, especialmente depois do discurso de Bento XVI aos cardeais no Natal de 2005, quando o papa fez referência às hermenêuticas do concílio, os debates sobre a temática vêm crescendo entre teólogos e historiadores. Assim, todo processo de recepção é um ato interpretativo que se dá tanto no âmbito do Magistério da Igreja, como também entre as Igrejas Particulares, que, em seu contexto sócio-político, econômico e cultural, lêem e interpretam  - ou seja, recepcionam - as determinações conciliares, encarnando suas principais intuições em função da realidade circundante. Observem, por exemplo, a Segunda Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano de Medellín ocorrida em 1968. Esse grande encontro é compreendido como um ato interpretativo do concílio para a realidade de nosso continente. O que o concílio nos diz, o que ele traz para a nossa realidade

ZENIT: O que se pode dizer do CVII como evento lingüístico?

Prof. Dr. Rodrigo: A tese que compreende o Vaticano II como um evento linguístico é do padre norte-americano John O'Malley. Esta é apenas mais uma forma, entre tantas outras, de se interpretar o Vaticano II, de fato, muito plausível. Entender o Vaticano II como um "evento linguístico" é tentar a partir da linguagem dos textos conciliares, de sua retórica, compreender o seu "espírito", o "espírito do concílio". Segundo O'Malley, ocorre com o Vaticano II um "dramático deslocamento de estilo", uma nova maneira de pensar a relação entre a Igreja e o mundo, não marcado por anátemas, mas por relação convidativa, aberta e dialogal. Outras palavras que aparecem nos documentos finais e trazem esta perspectiva inaugurada por Roncalli em seu discurso de abertura do concílio são “desenvolvimento”, “progresso” e até mesmo “evolução". Palavras que assinalariam o deslocamento perpetrado pelo concílio. Notavelmente, em seus textos, não estão presentes palavras de exclusão, inimizade, intimidação, punição e vigilância. Dessa forma, entendido como um evento linguístico , o Vaticano II transformou o modo da Igreja falar do mundo e com o mundo, e palavras como “cooperação”, “parceria”, “colaboração” e “diálogo” são constantes em seus documentos para definir esta relação.

ZENIT: Você considera que apesar dos 50 anos do CVII ainda não existe um debate que permita uma compreensão da complexidade e importância desse evento?

Prof. Dr. Rodrigo: Surge, aqui e ali, algumas falas que tentam desqualificar o evento. Porém é possível notar que Bento XVI está muito atento a estas questões. Ao meu juízo, a temática do concílio é a principal na agenda do atual papado, como também já o era no do beato João Paulo II. Acredito que o debate se aprofunda cada vez mais, já que a recepção do Vaticano II é crucial para a Igreja do terceiro milênio. Todavia, é preciso estar atentos aos termos do debate e o lugar do concílio na história bimilenar da Igreja.

Para maiores informações sobre essa entrevista: www.cienciafecultura.org; contato@cienciafecultura.org