Condenado ex-mordomo de Bento XVI

Papa poderá conceder-lhe o indulto, embora o inquérito continue

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Antonio Gaspari

VATICANO, sábado, 13 de outubro de 2012 (ZENIT.org) - Paolo Gabriele, ex-mordomo do papa, que é acusado de furto qualificado de correspondências pessoais e documentos confidenciais do pontífice, foi condenado pelo Tribunal Vaticano.

No último sábado, 6 de outubro, por volta de meio-dia, o presidente do Tribunal do Vaticano, Giuseppe Dalla Torre, afirmou: “Em nome de Sua Santidade Bento XVI, gloriosamente reinante, e invocada a Santíssima Trindade, o Tribunal pronuncia a seguinte sentença: levando em consideração os artigos 402, 403-1 e 404-1, declara o acusado Paolo Gabriele culpado do crime previsto pelo artigo 404, primeiro, número 1, por ter operado, com o abuso de confiança decorrente das relações de ofício ligadas ao desempenho do seu trabalho, a subtração de coisas que em razão de tais relações foram deixadas ou expostas à fé do mesmo, e o condena, portanto, à pena de três anos de reclusão”.

O Tribunal aceitou o pedido de prisão de três anos que tinha sido solicitado pelo Ministério Público na pessoa do professor Nicola Picardi, mas levou em conta vários atenuantes que mitigaram a pena para dezoito meses.

"Considerando o artigo 26 da Lei de 21 de junho de 1969, número 1, dada a ausência de antecedentes criminais, os resultados do estado de serviço em época antecedente aos fatos contestados, a crença subjetiva, embora errônea, indicada pelo acusado como motivação da sua conduta, bem como a declaração sobre a posterior consciência de ter traído a confiança do Santo Padre, diminui a pena para um ano e seis meses de reclusão. Condena o mesmo ao ressarcimento das custas judiciais".

A autoridade judiciária acreditou na boa fé de Paolo Gabriele e descartou, pelo menos nesta parte do processo, a participação ativa de outras pessoas.

A este respeito, o promotor público Picardi ressaltou não ter encontrado "provas de cumplicidade nem de conivência" com Gabriele por parte das pessoas em quem ele tinha confiado e que poderiam tê-lo influenciado.

Na audiência, Picardi afirmou que o "padre B", como mencionado no indiciamento de 13 de agosto, é Giovanni Luzi, da comunidade Mãe do Bom Pastor de Palestrina. Teria sido o padre Giovanni Luzi quem recebeu e depois destruiu as cópias dos documentos entregues por Gabriele ao jornalista que os publicou.

Quem apresentou o pe. Luzi a Gabriele teria sido o pe. Paolo Morocutti, capelão da Universidade Católica de Roma, também ele membro da comunidade Mãe do Bom Pastor de Palestrina. Morocutti foi o primeiro diretor espiritual de Gabriele.

O Tribunal não aceitou o pedido de interdição perpétua de ofícios públicos limitada aos ofícios que envolvem o uso do poder, tal como fora pedido por Picardi.

Paolo Gabriele volta para casa em prisão domiciliar. Desde que foi preso, ele vive sob esquema de segurança sem possibilidade de contato com o exterior, a não ser com a própria família.

No comunicado que se seguiu ao julgamento, o padre jesuíta Federico Lombardi, diretor da Sala de Imprensa do Vaticano, explicou que "o papa pensa em conceder o indulto" e que "esta possibilidade é muito real e concreta, embora não possam ser previstos tempos nem modos".

“O papa”, precisou o padre Lombardi, “pode conceder a graça por sua iniciativa, mesmo que não seja pedida pelo acusado nem haja uma solicitação formal".

Antes da leitura da sentença, a advogada de defesa Cristina Arru tinha defendido que Gabriele não teria roubado os documentos, e sim "se apropriado indevidamente deles" com o objetivo de "ajudar" e não de "prejudicar" a Igreja, movido por “elevados motivos morais”, quase "obrigado pelo mal que havia visto".

Durante este último dia do julgamento, diante da pergunta específica sobre a sua culpabilidade, Paolo Gabriele afirmou: "A única coisa que eu sinto forte dentro de mim é a convicção de ter agido apenas por amor, visceral, eu até diria, pela Igreja de Cristo e pelo seu chefe visível. Se eu tiver que repetir, eu não me sinto um ladrão".

Quanto aos outros capítulos abertos pelo episódio, como o processo de favorecimento ao técnico em informática Claudio Sciarpelletti, os resultados da investigação conduzida por três cardeais em nome do papa, as modalidades de difusão dos papéis roubados e a acusação de atentado contra a segurança do Estado, o pe. Lombardi explicou que são assuntos ainda não encerrados.