Confissões do cardeal Óscar Rodríguez Maradiaga

Entrevista com o prelado hondurenho, presidente da Cáritas

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ROMA, domingo, 23 de janeiro de 2011 (ZENIT.org) – O cardeal Oscar Rodríguez Maradiaga conta que um de seus grandes amores é formar seminaristas em seu caminho para o sacerdócio. Acrescenta que a primeira pergunta que faz a esses jovens é sobre seu amor a Cristo, já que um sacerdote "não está seguindo uma ideia, uma teoria ou apenas uma pessoa do passado", mas "um Cristo vivo, que está no meio de todos nós e que nos chama cada dia”.

Esta é uma das reflexões que o cardeal hondurenho, arcebispo de Tegucigalpa e presidente da Cáritas Internacional, faz nesta entrevista, na qual ele fala também de sua vocação salesiana, da devoção mariana de hondurenhos, da corrupção na América Latina e da esperança nos jovens.

O senhor entrou nos salesianos aos 19 anos. Sentiu sua vocação cedo?

Cardeal Rodriguez Maradiaga: Eu tinha 10 anos. Estava então no Ensino Fundamental e quis ir para o aspirantado quando tinha 12 anos, antes do Ensino Médio, mas meu pai me disse: "Não, você não vai porque você é muito travesso e o enviarão de volta para casa no primeiro dia". Compreendi depois que ele estava certo. E me disse: "Quando você terminar o Ensino Médio, eu o levarei ao seminário". E assim foi a história. Entrei como aspirante. Fui aceito, depois fui para o noviciado e entrei como salesiano, aos18 anos.

Quem ou o que foi decisivo na hora de tomar esta decisão?

Cardeal Rodriguez Maradiaga: Eu tive a grande sorte de estudar em uma escola salesiana. Fiquei impressionado com o cuidado que eles tinham conosco, os jovens. O espírito que havia na nossa escola era jogar, cantar, rezar e estudar bastante. Tinham de nos expulsar da escola no final do dia, porque não queríamos ir para casa. Havia um ótimo ambiente. E um dia o diretor, que se tornaria meu antigo arcebispo, ao chegar da igreja, perguntou-me: "Você quer ser padre?". E eu disse: "Claro." E assim foi.

O senhor disse que um de seus grandes amores era lecionar no seminário. Qual é a primeira pergunta que o senhor faria a um jovem que manifestasse interesse por entrar no seminário?

Cardeal Rodriguez Maradiaga: O primeiro é o seu amor por Cristo, porque esta é a chave. Você não está seguindo uma ideia, uma teoria ou apenas uma pessoa do passado. Está seguindo um Cristo vivo, que está no meio de todos nós e nos chama a cada dia. Então esta seria a primeira pergunta.

O senhor disse que há duas coisas que unem o povo de Honduras: o time de futebol e Nossa Senhora de Suyapa. Poderia nos falar sobre Nossa Senhora de Suyapa e como é o amor dos hondurenhos por Ela?

Cardeal Rodriguez Maradiaga: Bem, é uma imagem pequena. Tem apenas seis centímetros de altura. É uma imagem de madeira que foi encontrada em 1747, quando o nosso povo "estava se dissolvendo". Estima-se que, quando os espanhóis chegaram, em 1502, havia apenas 200 mil hondurenhos. Por quê? Pois no século VIII, foram para a Guatemala e depois para Yucatan, deixando a terra quase abandonada e vazia. Alguns dizem que houve uma guerra entre as tribos, outros dizem que foi uma epidemia, outros ainda dizem que "El Niño" tinha esgotado a terra e não era possível cultivar mais nada. De qualquer forma, o fato é que tinham restado poucos e nossa nacionalidade desaparecia. Foi neste contexto que se encontrou a imagem de Nossa Senhora. A imagem foi descoberta.

É uma imagem milagrosa?

Cardeal Rodriguez Maradiaga: Sim, é muito milagrosa. É uma imagem madeira que dois camponeses, que dormiam ao ar livre, encontraram na montanha. Um jovem sentiu algo em suas costas. Ele jogou o “objeto” longe três vezes (mas ainda sentindo-o em suas costas) e, na terceira vez, o outro homem lhe disse: "Coloque isso em seu saco e amanhã vamos ver o que é". Quando chegaram à pequena aldeia onde moravam, chamada Suyapa – que na língua indígena significa "lugar das palmeiras" –, eles viram que era uma imagem e começaram a rezar; então começaram os milagres, até que foi possível construir uma pequena igreja, e agora temos uma grande capela.

A América Latina tem muitos desafios. O senhor mesmo disse que a "globalização" é a ganância de alguns, que estão deixando a maioria à margem da história. Podemos dizer que isso é algo que se percebe especialmente hoje, sobretudo com a crise econômica?

Cardeal Rodriguez Maradiaga: O Santo Padre disse, diversas vezes, que é uma crise ética que deixou a maioria das pessoas do nosso mundo de fora. No começo, foi como uma marginalização, não uma exclusão. Hoje não há sequer espaço para essas pessoas. Eu sou o presidente da Cáritas Internacional, então sei que a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) disse que não há dinheiro para aliviar a pobreza no mundo. Sete bilhões de dólares seriam suficientes e, um mês depois, deram 600 bilhões para salvar alguns bancos do mundo, e eles continuam jogando o dinheiro no "saco", pois é um poço sem fundo. Ainda não chegou ao fundo e continuam jogando e jogando dinheiro nele. Se você dividir 600 bilhões de dólares entre os 6,5 bilhões de habitantes no mundo... a pobreza desapareceria imediatamente.

Recentemente, temos visto na América Latina uma mudança para governos socialistas, como Chávez na Venezuela e Morales na Bolívia. Podemos dizer que esses governos chegaram ao poder pela frustração, em especial pela frustração do povo com a falta de justiça social e com a pobreza? É isso o que levou a essa mudança?

Cardeal Rodriguez Maradiaga: Sim, mas o principal motivo, na minha perspectiva, é a corrupção dos políticos. A doença mais grave dos nossos países na América Latina é que a maioria dos políticos perdeu o verdadeiro conceito da política e, portanto, vê o Estado como um "espólio para piratas". Então, eles vão para a política e, após um período no governo, podem tornar-se ricos e viver o resto de suas vidas sem trabalhar e sem medo das consequências da justiça. Este conceito de nação como um negócio e de política como um negócio está errado, e por isso são tão corruptos.

Eu gostaria de mencionar uma contradição – igualmente evidente para o senhor: vemos esses governos socialistas que foram eleitos com base em sua opção pelos pobres. A Igreja sempre teve essa opção pelos pobres e, ainda assim, estes governos socialistas começaram a atacar cada vez mais a Igreja nesses países. Como se explica isso?

Cardeal Rodriguez Maradiaga: A contradição é que, ao iniciar esse tipo de governo, a primeira coisa que desaparece é a liberdade, a liberdade de expressão, liberdade de informação. Por exemplo, na Venezuela, todos os meios de comunicação que não estão com o governo foram confiscados ou tornaram sua vida impossível. Porque o governo só tem um objetivo e não há espaço para a discordância. Não há lugar para a liberdade de movimento e organização. Assim, quando a Igreja vê essas coisas, tem de denunciá-las. Portanto, este tipo de governo vê a Igreja como um inimigo, porque a Igreja não obedece aos seus propósitos.

Podemos dizer que há uma perseguição da Igreja Católica nestes países?

Cardeal Rodriguez Maradiaga: Sim, e digo isto porque muitas vezes nos encontramos com esses bispos de diversas partes do mundo. Eu visitei o Equador para um congresso missionário e testemunhei esse tipo de perseguição. Estive no Peru e me reuni com alguns bispos da Bolívia, que falavam sobre isso. Até me encontrei, aqui em Roma, com bispos da Venezuela e vimos que existe, de fato, a perseguição.

O que a Igreja pode fazer em resposta a esta situação, especialmente em um país onde ela é perseguida?

Cardeal Rodriguez Maradiaga: O que podemos fazer é mostrar solidariedade para com eles e denunciar estes políticos. Já fiz isso algumas vezes, e o presidente Chávez me atacou, mas eu não me importo, porque é preciso dizer a verdade. E, claro, este é outro aspecto desse tipo de governo: não toleram a ideia de que alguém possa pensar diferente deles. Eles pensam que são os únicos com o conceito exclusivo de verdade, mas é tudo mentira. Veja essa nação, que é tão rica, mas a pobreza e a fome aumentam. É uma contradição e é verdadeiramente ridículo. Esta é uma consequência da falta de educação política da maioria do nosso povo. Em alguns lugares, compram votos. No meu país, as pessoas, na maior parte do ano, não veem um centavo até depois da colheita. Alguns políticos chegam e lhes oferecem, por exemplo, 50 dólares. E o povo acaba votando neles e, infelizmente, esta é a situação.

O senhor disse que nós não teremos paz enquanto a pobreza aumentar. Será que teremos um futuro difícil, porque, como estamos falando, a pobreza está aumentando na América Latina?

Cardeal Rodriguez Maradiaga: Quando você não tem emprego e não consegue alimentar sua família, o que você faz? Emigrar. Ir à terra prometida do norte, para aumentar a sua pobreza? Agora, eles têm todos esses muros, barreiras e toda a legislação que contra os imigrantes. Estão escondidos e não podem trabalhar; e os seus empregadores são multados severamente se derem emprego a esses migrantes. Então, eles não são capazes de enviar remessas de volta aos seus países de origem. A nossa economia dependia dessas remessas, mas já não mais. Diminuíram rapidamente. Então, as pessoas recorrem à violência, entrando em gangues, no tráfico de drogas – que, infelizmente, está florescendo na América Latina – e o sequestro é agora uma indústria. Não há paz social. Isto é trágico, e perdemos a paz por causa da injustiça, porque não há maneira de ganhar a vida honestamente.

Alguns países latino-americanos têm focado suas estratégias para a redução da pobreza através do controle da natalidade. O senhor poderia nos dizer até que ponto isso é uma postura equivocada e de onde vem?

Cardeal Rodriguez Maradiaga: Isso vem acontecendo há muito tempo – talvez uns 50 anos – no departamento de população das Nações Unidas. Decidiram que crescíamos rápido demais. Isso aconteceu em Honduras. Em 1959, havia apenas 1,5 milhão de hondurenhos e agora há 7 milhões, mas houve despovoamento devido às guerras civis. Tivemos um século de guerras civis e doenças. Quando melhoraram as condições de saúde, começamos a crescer, mas ainda há desertificação no país. Precisamos trabalhar para nos desenvolvermos. Há um país na América do Sul que começou com o controle de natalidade no início dos anos 50. Qual foi o resultado? Nunca cresceu. E não há uma indústria de sucesso sem consumidores. São altamente dependentes dos grandes países que os rodeiam. Isso é um erro. O que precisamos não é reduzir os convidados que se sentam à mesa, mas aumentar o número de cadeiras para que as pessoas possam se sentar e comer.

O senhor acabou de mencionar que a ONU tem a ver com isso. O senhor diria que a influência sobre a política de controle de natalidade vem de dentro dos governos ou de organizações governamentais como a International Planned Parenthood Federation (IPPF), que são externas, mas impõem sua política no continente?

Cardeal Rodriguez Maradiaga: Esta é uma das piores organizações e não tenho medo de denunciá-los, porque eles estão usando métodos muito sujos e chegam até a insultar aqueles que discordam deles. Estão apagando, às vezes subornando e desinformando a população. Nós não precisamos disso. Precisamos de ajuda para o desenvolvimento. Nós não precisamos de propinas que corrompem as pessoas do governo. Precisamos de recursos usados a favor das pessoas e que não destruam a população.

Que motivos a IPPF e outras organizações têm? Qual pode ser a sua agenda em um continente como a América Latina?

Cardeal Rodriguez Maradiaga: Decidiram que não somos parceiros para os seus negócios, porque, como você sabe, uma vez que o nosso continente é essencialmente um continente católico, nunca aceitaremos a sua "filosofia", que é contra a criação, contra Deus. Não estamos satisfeitos com o seu raciocínio, e é claro que eu disse a verdade, e disse na ONU. Por exemplo, o meu país decidiu que o casamento é algo de acordo com a lei natural – a união entre um homem e uma mulher. Como existem lobbies que não concordam com isso, pressionarão o nosso congresso, atacarão a Igreja, dizendo que estamos errados, mas sabemos que não estamos errados e queremos viver em paz como seres humanos, sem desvios.

O aborto é atualmente uma questão importante. Há uma grande pressão em muitos dos países católicos da América Latina para proteger as leis sobre o aborto. Podemos dizer que estamos perdendo a batalha neste campo? O senhor acha que os governos dos países latino-americanos imporão o aborto?

Cardeal Rodriguez Maradiaga: Estão tentando fazer isso a cada dois ou três anos e devemos estar sempre vigilantes. Eu sou bispo há 30 anos e sempre me opus e falei com representantes do Congresso e, até agora, podíamos acabar com este tipo de direito, porque, quando você aceita o aborto, o próximo passo seria aceitar a eutanásia. Este é o seu plano global. Então, qual é seu propósito? Destruir a vida. Esta é a cultura da morte contra a qual João Paulo II sempre nos advertia.

O senhor disse que vê e considera a América Latina como o renascimento da fé e o renascimento da Igreja Católica no mundo. Como pode ser tão otimista, com tantos "problemas", como os que chegam até o senhor?

Cardeal Rodriguez Maradiaga: Porque nós somos pessoas de fé. Especialmente os pobres. A Igreja sempre fez uma opção pelos pobres: desde Medelhim, em 1968, tem sido sua opção preferencial. Estas são as pessoas que vêm às nossas igrejas. Apoiam a catequese, os sacramentos e pedirão à Igreja que as dirija, e não à ONU.

À luz desse otimismo, o senhor conta uma história aos seus seminaristas sobre a árvore que caiu na floresta. Poderia nos falar sobre isso?

Cardeal Rodriguez Maradiaga: Nós somos uma nação jovem; 42% da nossa população tem menos de 15 anos. E muitas pessoas dizem que os jovens estão perdidos. Muitos fazem parte de gangues. Eu disse "não". Isto é o que foi divulgado, porque faz mais barulho uma árvore que cai na floresta que a multidão de árvores que está crescendo. É claro que ouvimos esse grande barulho, mas vemos que muitos dos nossos jovens são bons e seguem a Cristo. Celebro o sacramento da Confirmação a cada ano e temos cerca de 10 mil – e isso é muito bonito, porque não são crianças, mas homens e mulheres jovens que decidiram seguir a Cristo e viver a vida cristã. Então, nosso principal desafio é como acompanhá-los após a confirmação, para que optem pela vida – pelo casamento ou pela vida consagrada. Há muitos, muitos motivos de esperança e a maioria dos jovens quer seguir a Cristo.

Em uma ocasião, o senhor disse: "Nós temos que ser como os vitrais".

Cardeal Rodriguez Maradiaga: Sim, porque, você sabe, nós somos como vitrais que refletem a luz que vem de Cristo e devemos ser como esses belos vitrais das grandes catedrais, cheios de luz e cheios de cores, para transmitir a beleza da vida cristã para os jovens.

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Esta entrevista foi realizada por Mark Riedemann para "Deus chora na terra", um programa rádio-televisivo semanal produzido por Catholic Radio and Television Network, (CRTN), em colaboração com a organização católica Ajuda à Igreja que Sofre.

Mais informação em www.aisbrasil.org.brwww.fundacao-ais.pt.