Congresso "As religiões e a violência" propõe um pacto entre as religiões e a diplomacia

Comunidade de Santo Egídio lança proposta em favor da paz

Roma, (Zenit.org) Rocio Lancho García | 458 visitas

Um “pacto” entre as religiões e a diplomacia a fim de erradicar a violência e construir a paz no mundo: esta foi a proposta do presidente da Comunidade de Santo Egídio, Marco Impagliazzo, e de Jerry White, diplomata do Departamento de Estado norte-americano e líder da campanha internacional contra as minas antipessoais, que recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1997. A iniciativa foi lançada durante o congresso internacional "As religiões e a violência", realizado ontem e organizado pela comunidade de Santo Egídio.

Participaram do encontro personalidades religiosas, políticas e do mundo diplomático procedentes da Europa, da Ásia, da África e do Oriente Médio.

O congresso começou com a seguinte consideração do cardeal Kasper, presidente emérito do Conselho Pontifício para a Unidade dos Cristãos: "Nos últimos anos, a violência religiosa aumentou de forma impressionante". E isto vem acontecendo porque "os seguidores de todas as religiões, incluídos os cristãos, ou as pessoas e grupos que dizem agir em nome de uma religião, foram ou são partidários da violência".

Diversos enfoques foram abordados. O derrubamento das Torres Gêmeas de Nova Iorque foi recordado pelo rabino chefe de Roma, Riccardo Di Segni, como a imagem de uma "violência fantasiada de religiosidade, quase como se as religiões fossem violentas por princípio". Logo a seguir, participou Abdelfattah Mourou, vice-presidente do movimento Ennahdha, vencedor das eleições na Tunísia e artífice da nova constituição do país, um dos frutos mais maduros da primavera árabe. Ele afirmou que a violência, inclusive entre países, "precede a religião" e talvez tenha se servido dela; e é tarefa das religiões recuperar a própria autonomia e contribuir para a construção da paz, alimentando a cultura, os valores e a educação.

Do mesmo modo, Muhammad Khalid Massud, membro da Corte Suprema do Paquistão, negou que a religião faça "parte da violência", mesmo que se reconheça que ela "pode ser usada para justificar a violência". Deve-se fazer o esforço de "esclarecer esta confusão", construindo-se uma "nova teologia de apoio à cooperação entre os países em vez do domínio do um sobre o outro".

Impagliazzo afirmou que, "para alcançar o objetivo da paz no mundo pós-ideológico e globalizado em que vivemos, a diplomacia tradicional precisa de novos instrumentos que afetam todas as dimensões da vida: a religião em primeiro lugar, depois a política, a cultura, a luta pelo desenvolvimento. Toda a sociedade civil deve se comprometer no esforço para superar antigas diferenças, quando não verdadeiros conflitos, que estão na origem das explosões de violência e de terrorismo que ensanguentaram o mundo no início do terceiro milênio".

Por outro lado, Jerry White indicou que "a diplomacia tradicional descobriu que as religiões podem contribuir com a construção de um 'ecossistema' de paz injetando ‘vírus de paz’ em um mundo infectado pela ‘epidemia da violência’”.

O teólogo catalão Armand Puig, da faculdade de teologia de Barcelona, também manifestou o seu parecer: "A violência nunca pode ser justificada. E é por isso que ela sempre precisa de justificativas. Já a paz não precisa se justificar. Ela não tem que pedir permissão para entrar nas avenidas da história". 

Por sua vez, o libanês Samir Frangieh, intelectual e ex-parlamentar em Beirute, declarou que, "mesmo em sua diversidade, as religiões têm uma missão em comum: fazer os homens compreenderem que estão ‘condenados’ a trabalhar juntos para sobreviver, e que as relações de uns com os outros não são uma opção a ser aceita ou rejeitada, e sim uma necessidade a ser reconhecida".