Congresso Eclesial da Diocese de Roma

Lectio Divna do Papa Bento XVI

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CIDADE DO VATICANO, terça-feira, 19 de junho de 2012 (ZENIT.org) Apresentamos a "Lectio Divina" do Papa Bento XVI, realizada na Basílica de São João em Latrão, na segunda-feira, 11 de junho, por ocasião do CONGRESSO ECLESIAL DA DIOCESE DE ROMA. 

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Eminência Estimados Irmãos no Sacerdócio e no Episcopado Prezados irmãos e irmãs!

Para mim é uma grande alegria estar aqui, na Catedral de Roma com os representantes da minha Diocese, e agradeço de coração ao Cardeal Vigário as suas gentis palavras. Já ouvimos que as últimas palavras do Senhor nesta terra aos seus discípulos foram estas: «Ide, fazei discípulos de todos os povos e baptizai-os no nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo» (cf. Mt 28, 19). Fazei discípulos e baptizai. Por que motivo não é suficiente, para o discipulado, conhecer as doutrinas de Jesus, conhecer os valores cristãos? Por que é necessário ser baptizado? Este é o tema da nossa reflexão, para compreender a realidade, a profundidade do Sacramento do Baptismo.

Uma primeira porta abre-se, se lermos atentamente estas palavras do Senhor. A escolha da palavra «no nome do Pai», no texto grego, é muito importante: o Senhor diz «eis» e não «en», ou seja, não «em nome» da Trindade — como nós dizemos que um vice-prefeito fala «em nome» do prefeito, um embaixador fala «em nome» do governo: não. Ele diz: «eis to onoma», isto é, uma imersão no nome da Trindade, um estar inserido no nome da Trindade, um impregnar-se do ser de Deus e do nosso ser, um estar imerso no Deus Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, do mesmo modo como no matrimónio, por exemplo, duas pessoas se tornam uma só carne, se tornam uma nova e única realidade, com um novo e único nome. O Senhor ajudou-nos a compreender ainda melhor esta realidade no seu diálogo com os saduceus a propósito da ressurreição.

Os saduceus reconheciam do cânone do Antigo Testamento unicamente os cinco Livros de Moisés, e neles não aparece a ressurreição; por isso, negavam-na. Precisamente a partir destes cinco Livros, o Senhor demonstra a realidade da ressurreição e diz: «Não sabeis vós que Deus se chama Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob?» (cf. Mt 22, 31-32). Portanto, Deus toma estes três e precisamente no Seu nome eles tornam-se o nome de Deus. Para compreender quem é este Deus é necessário ver estas pessoas que se tornaram o nome de Deus, um nome de Deus, que estão imersos em Deus. E assim vemos que quem está no nome de Deus, quem está imerso em Deus, é vivo, porque Deus — diz o Senhor — é um Deus não dos mortos mas dos vivos, e se é Deus destes, é Deus dos vivos; os vivos são vivos porque estão na memória, na vida de Deus. E é precisamente isto que acontece no nosso ser baptizados: somos inseridos no nome de Deus, de tal maneira que pertencemos a este nome, e o Seu nome torna-se o nosso nome, e também nós poderemos, com o nosso testemunho — como os três do Antigo Testamento — ser testemunhas de Deus, sinal de quem é este Deus, nome deste Deus. Por conseguinte, ser baptizado quer dizer estar unido a Deus; numa existência única e nova nós pertencemos a Deus, estamos imersos no próprio Deus. Pensando nisto, podemos ver imediatamente algumas consequências.A primeira, é que Deus já não está muito distante de nós, não é uma realidade a debater — se existe ou não existe — mas nós estamos em Deus, e Deus está em nós.

A prioridade, a centralidade de Deus na nossa vida constitui uma primeira consequência do Baptismo. À pergunta: «Deus existe?», a resposta é: «Existe, e está connosco; centra na nossa vida esta proximidade de Deus, este estar no próprio Deus, que não é uma estrela distante, mas é o ambiente da minha vida». Esta seria a primeira consequência e, portanto, deveria dizer-nos que nós mesmos devemos ter em consideração esta presença de Deus, viver realmente na sua presença. Uma segunda consequência daquilo que eu disse é que nós não nos fazemos cristãos. Tornar-se cristão não é algo que deriva de uma minha decisão: «Agora faço-me cristão».

Sem dúvida, também a minha decisão é necessária, mas é sobretudo uma acção de Deus comigo: não sou eu que me faço cristão, mas eu sou assumido por Deus, guiado pela mão por Deus e assim, dizendo «sim» a esta acção de Deus, torno-me cristão. Tornar-se cristão, num certo sentido, é passivo: eu não me faço cristão, mas é Deus quem me faz um homem seu, é Deus quem me toma pela mão e realiza a minha vida numa nova dimensão. Do mesmo modo como não sou eu que me faço viver a mim mesmo, mas é a vida que me é dada; nasci não porque me fiz homem, mas nasci porque o ser homem me foi doado. Assim também o ser cristão me é doado, é um passivo para mim, que se torna um activo na nossa, na minha vida. E este facto do passivo, de não nos fazermos cristãos sozinhos, mas de termos sido feitos cristãos por Deus, já inclui um pouco o mistério da Cruz: só morrendo para o meu egoísmo, saindo de mim mesmo, posso ser cristão. Um terceiro elemento que se abre imediatamente nesta visão é que, naturalmente, estando imerso em Deus, estou unido aos irmãos e às irmãs, porque todos os outros estão em Deus, e se eu sou arrebatado do meu isolamento, se eu estou imerso em Deus, estou imerso na comunhão com os outros.

Ser baptizado nunca é um «meu» acto solitário, mas é sempre necessariamente um estar unido com todos os demais, um estar em unidade e solidariedade com todo o Corpo de Cristo, com toda a comunidades dos seus irmãos e irmãs. O facto de o Baptismo me inserir em comunidade, interrompe o meu isolamento. Devemos tê-lo presente no nosso ser cristãos. E finalmente, voltemos à Palavra de Cristo aos saduceus: «Deus é o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob» (cf. Mt 22, 32), e portanto eles não estão mortos; se são de Deus, estão vivos. Quer dizer que com o Baptismo, com a imersão no nome de Deus, estamos também nós já imersos na vida imortal, somos vivos para sempre. Por outras palavras, o Baptismo é uma primeira etapa da Ressurreição: imersos em Deus, já nos encontramos imersos na vida indestrutível, começa a Ressurreição. Como Abraão, Isaac e Jacob, por serem «nome de Deus», estão vivos, assim também nós, inseridos no nome de Deus, somos vivos na vida imortal. O Baptismo é o primeiro passo da Ressurreição, é entrar na vida indestrutível de Deus. Assim, num primeiro momento, com a fórmula baptismal de são Mateus, com a última palavra de Cristo, já vimos um pouco o essencial do Baptismo. Agora vemos o rito sacramental, para podermos compreender ainda mais precisamente o que é o Baptismo. Este rito, como o rito de quase todos os Sacramentos, é composto por dois elementos: matéria — água — e palavra. Isto é muito importante.

O cristianismo não é algo apenas espiritual, algo unicamente subjectivo, do sentimento, da vontade, de ideias, mas constitui uma realidade cósmica. Deus é o Criador de toda a matéria, a matéria entra no cristianismo, e só neste grande contexto de matéria e de espírito somos cristãos. Por conseguinte, é muito importante que a matéria faça parte da nossa fé, que o corpo faça parte da nossa fé; a fé não é puramente espiritual, mas é Deus que assim nos insere em toda a realidade do cosmos e transforma o cosmos, que o atrai para Si. E com este elemento material — a água — sobrevém não apenas um elemento fundamental do cosmos, uma matéria fundamental criada por Deus, mas também todo o simbolismo das religiões, porque em todas as religiões a água tem um significado.

O caminho das religiões, aquela procura de Deus de diversas maneiras — mesmo erradas, mas sempre busca de Deus — é assumida no Sacramento. As demais religiões, com o seu caminho rumo a Deus, estão presentes, são assumidas, e é assim que se faz a síntese do mundo; toda a procura de Deus que se expressa nos símbolos das religiões, e sobretudo — naturalmente — o simbolismo do Antigo Testamento que assim, com todas as suas experiências de salvação e de bondade de Deus, se torna presente. Voltaremos a meditar sobre este aspecto. O outro elemento é a palavra, e esta palavra apresenta-se em três elementos: renúncias, promessas e invocações. Portanto, é importante que estas palavras não sejam só palavras, mas constituam um caminho de vida. Nelas realiza-se uma decisão; nestas palavras está presente todo o nosso caminho baptismal — tanto pré-baptismal, como pós-baptismal; por conseguinte, com estas palavras, e também com estes símbolos, o Baptismo abrange toda a nossa vida.Esta realidade das promessas, das renúncias e das invocações é uma realidade que permanece por toda a nossa vida, porque estamos sempre no caminho baptismal, no caminho catecumenal, através destas palavras e da realização destas palavras.

O Sacramento do Baptismo não é o gesto de uma hora, mas constitui uma realidade de toda a nossa vida, é um caminho de toda a nossa existência. Na realidade, por detrás encontra-se também a doutrina dos dois caminhos, que era fundamental no primeiro cristianismo: um caminho ao qual dizemos «não», e outro caminho al qual dizemos «sim». Comecemos pela primeira parte, as renúncias. São três, e realço sobretudo a segunda: «Renunciais às seduções do mal, para não vos deixardes dominar pelo pecado?». Que são estas seduções do mal? Na Igreja antiga, e ainda durante séculos, aqui havia esta expressão: «Renunciais à pompa do diabo?», e hoje sabemos o que se entendia com esta expressão: «pompa do diabo». A pompa do diabo eram sobretudo os grandes espectáculos cruentos, nos quais a crueldade se torna divertimento, matar homens se torna algo espectacular: espectáculo, a vida e a morte de um homem. estes espectáculos cruentos, este divertimento do mal é a «pompa do diabo», onde se manifesta com beleza aparente e, na realidade, aparece com toda a sua crueldade. Mas para além deste significado imediato da palavra «pompa do diabo», devia-se falar de um tipo de cultura, de um way of life, de um estilo de vida no qual não conta a verdade mas a aparência, não se procura a verdade mas o efeito, a sensação, e sob o pretexto da verdade, na realidade, destroem-se homens, deseja-se destruir e criar-se só a si mesmo como vencedor. Portanto, esta renúncia era muito real: era a renúncia a um tipo de cultura que é uma anticultura, contra Cristo e contra Deus.

Decidia-se contra uma cultura que, no Evangelho de São João, é chamada «kosmos houtos», «este mundo». Com «este mundo», naturalmente, João e Jesus não falam da Criação de Deus, do homem como tal, mas falam de uma determinada criatura que é predominante e que se impõe como se este fosse o mundo, e como se este fosse o modo de viver que se impõe.

Agora deixo a cada um de vós a reflexão sobre esta «pompa do diabo», sobre esta cultura à qual dizemos «não». Ser baptizado significa exacta e substancialmente, um emancipar-se, um libertar-se desta cultura. Conhecemos também nos dias de hoje um tipo de cultura na qual a verdade não conta; não obstante, aparentemente, se deseje fazer manifestar-se toda a verdade, só contam a sensação e o espírito de calúnia e de destruição. Uma cultura que não procura o bem e cujo moralismo é, na realidade, uma máscara para confundir, criar confusão e destruição. Contra esta cultura, na qual a mentira se apresenta nas vestes da verdade e da informação, contra esta cultura que procura unicamente o bem-estar material e nega Deus, digamos «não».

Conhecemos bem, inclusive graças a numerosos Salmos, este contraste de uma cultura na qual uma pessoa parece intocável por todos os males do mundo, pondo-se acima de todos, acima de Deus, enquanto na realidade é uma cultura do mal, um domínio do mal. E assim, a decisão do Baptismo, esta parte do caminho catecumenal que dura por toda a nossa vida, é precisamente este «não», dito e realizado de novo cada dia, também com os sacrifícios que com dificuldade contrastam a cultura em muitas partes predominante, mesmo que se impusesse como se fosse o mundo, este mundo: não é verdade! E existem também muitas pessoas que aspiram realmente à verdade. Assim, passemos à primeira renúncia: «Renunciais ao pecado para viver na liberdade dos filhos de Deus?». Hoje liberdade e vida cristã, observância dos mandamentos de Deus, caminham em direcções opostas; ser cristão seria como uma escravidão; liberdade é emancipar-se da fé cristã, emancipar-se — no final de contas — de Deus.

A palavra pecado parece para muitos quase ridícula, porque dizem: «Como! Não podemos ofender a Deus! Deus é tão grande, o que interessa a Deus, se eu faço um pequeno erro? Não podemos ofender a Deus, o seu interesse é demasiado grande para ser ofendido por nós». Parece verdade, mas não é assim. Deus fez-se vulnerável. Em Cristo crucificado vemos que Deus se fez vulnerável, fez-se vulnerável até à morte. Deus interessa-se por nós porque nos ama, e o amor de Deus é vulnerabilidade, o amor de Deus é interesse pelo homem, o amor de Deus quer dizer que a nossa primeira preocupação deve ser não ferir, não destruir o seu amor, não fazer nada contra o seu amor porque, caso contrário, viveremos também contra nós mesmos e contra a nossa liberdade. E, na realidade, esta liberdade aparente na emancipação de Deus torna-se imediatamente escravidão de muitas ditaduras do tempo, que devem ser seguidas para ser consideradas à altura do tempo. E finalmente: «Renunciais a Satanás?». Isto diz-nos que existe um «sim» a Deus e um «não» ao poder do Maligno, que coordena todas estas actividades e quer fazer-se deus deste mundo, como diz ainda são João. Mas não é Deus, é unicamente o adversário, e nós não nos submetemos ao seu poder; nós dizemos «não» porque dizemos «sim», um «sim» fundamental, o «sim» do amor e da verdade. Estas três renúncias, no rito do Baptismo, na antiguidade, eram acompanhadas por três imersões: imersão na água como símbolo da morte, de um «não» que realmente é a morte de um tipo de vida e ressurreição para uma outra vida. Voltaremos a meditar sobre isto. Depois, a confissão em três perguntas: «Acreditais em Deus Pai Todo-Poderoso, Criador; em Cristo, e finalmente no Espírito Santo e na Igreja?». Esta fórmula, estas três partes, foram desenvolvidas a partir da Palavra do Senhor, ou seja, «baptizar no nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo»; estas palavras são concretizadas e aprofundadas: o que quer dizer Pai, o que quer dizer Filho — toda a fé em Cristo, toda a realidade do Deus que se fez homem — e que quer dizer acreditar que se é baptizado no Espírito Santo, isto é, toda a acção de Deus na história, na Igreja, na comunhão dos Santos. Deste modo, a fórmula positiva do Baptismo é também um diálogo: não é simplesmente uma fórmula. Sobretudo a profissão da fé não é simplesmente algo a compreender, uma realidade intelectual, uma coisa a memorizar — sem dúvida, é também isto — mas diz respeito inclusive ao intelecto, refere-se principalmente ao nosso viver. E isto parece-me muito importante. Não é algo intelectual, uma simples fórmula. É um diálogo de Deus connosco, uma obra de Deus connosco e uma nossa resposta, é um caminho. A verdade de Cristo só se pode compreender se se entende o seu caminho. Só se aceitarmos Cristo como caminho começaremos realmente a percorrer a senda de Cristo e poderemos compreender também a verdade de Cristo. A verdade não vivida não se abre; só a verdade vivida, a verdade aceite como modo de viver, como caminho se abre inclusive como verdade em toda a sua riqueza e profundidade. Portanto, esta fórmula é um caminho, é expressão de uma nossa conversão, de uma obra de Deus. E nós queremos realmente ter isto presente em toda a nossa vida: que estamos em comunhão de caminho com Deus, com Cristo. E deste modo estamos em comunhão com a verdade: vivendo a verdade, a verdade torna-se vida, e levando esta vida encontramos também a verdade. Agora passemos ao elemento material: a água. É muito importante considerar dois significados da água. Por um lado, a água faz pensar no mar, principalmente no mar Vermelho, na morte no mar Vermelho. No mar representa-se a força da morte, a necessidade de morrer para alcançar uma vida nova. Isto parece-me muito importante. O Baptismo não é unicamente uma cerimónia, um ritual introduzido há tempos, e também não é um lavacro, uma acção cosmética. É muito mais do que um lavacro: é morte e vida, é morte de uma determinada existência e renascimento, ressurreição para uma vida nova. Esta é a profundidade do ser cristão: não é só algo que se acrescenta, mas constitui um novo nascimento. Depois de termos atravessado o mar Vermelho, somos novos. Assim o mar, em todas as experiências do Antigo Testamento, tornou-se para os cristãos símbolo da Cruz. Porque só através da morte, de uma renúncia radical na qual se morre a um certo tipo de vida, pode realizar-se o renascimento e pode realmente existir uma vida nova. Este é uma parte do simbolismo da água: simboliza — sobretudo nas imersões da antiguidade — o mar Vermelho, a morte, a Cruz. Só da Cruz é possível alcançar uma vida nova, e isto realiza-se todos os dias. Sem esta morte sempre renovada, não podemos renovar a vitalidade verdadeira da vida nova de Cristo. Mas o outro símbolo é o da fonte. A água é origem de toda a vida; além do simbolismo da morte existe inclusive o simbolismo da vida nova. Cada vida provém também da água, da água que deriva de Cristo como a verdadeira vida nova que nos acompanha rumo à eternidade. No final permanece a questão — apenas uma breve palavra — do Baptismo das crianças. É justo fazê-lo, ou seria mais necessário percorrer primeiro o caminho catecumenal para alcançar um Baptismo autenticamente realizado? E outra pergunta que se apresenta sempre é a seguinte: «Mas podemos impor a uma criança qual religião ela quer viver ou não? Não devemos deixar àquela criança a escolha?». Estas perguntas demonstram que já não vemos na fé cristã a vida nova, a vida verdadeira, mas vemos uma escolha entre outras, e também um peso que não se deveria impor sem obter o assentimento da parte do sujeito. A realidade é diferente. A própria vida é-nos doada sem que nós possamos escolher se queremos viver ou não; a ninguém pode ser perguntado: «Queres nascer ou não?». A própria vida é-nos doada necessariamente sem consentimento prévio, nos é concedida assim e não podemos decidir antes «sim ou não, quero viver ou não». E, na realidade, a pergunta verdadeira é: «É justo doar a vida neste mundo, sem ter recebido o consentimento — queres viver ou não? Pode-se realmente antecipar a vida, doar a vida sem que o sujeito tenha tido a possibilidade de decidir?». Eu diria: só é possível e justo se, com a vida, podemos oferecer também a garantia de que a vida, com todos os problemas do mundo, é boa, que é bom viver, que existe uma garantia de que esta vida é boa, é protegida por Deus e que é um dom autêntico. Só a antecipação do sentido justifica a antecipação da vida. E por isso o Baptismo como garantia do bem de Deus, como antecipação do sentido, do «sim» de Deus que protege esta vida, justifica também a antecipação da vida. Por conseguinte, o Baptismo das crianças não é contrário à liberdade; é precisamente necessário oferecê-lo, para justificar também o dom — diversamente questionável — da vida. Só a vida que está nas mãos de Deus, nas mãos de Cristo, imersa no nome do Deus trinitário, é certamente um bem que se pode oferecer sem escrúpulos.

E assim estamos gratos a Deus que nos concedeu esta dádiva, que se doou a Si mesmo a nós. E o nosso desafio consiste em viver este dom, em vivê-lo realmente, num caminho pós-baptismal, tanto as renúncias como o «sim», sempre no grande «sim» de Deus, e deste modo viver bem. Obrigado!

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