Congresso para aprofundar sobre a personalidade do pastorinho Francisco

Entrevista à Irmã Ângela Coelho

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FÁTIMA, quarta-feira, 20 de maio de 2009 (ZENIT.org).- Para encerrar as comemorações do centenário do nascimento de Francisco Marto, o Santuário de Fátima prepara um congresso para aprofundar sobre a personalidade do pastorinho. Sob o tema “Francisco Marto: crescer para o dom”, o evento acontece de 18 a 20 de junho.

Para falar sobre o congresso, o Santuário de Fátima entrevistou a Irmã Ângela Coelho, religiosa e médica, docente no Curso de Ciências Religiosas no ISCRA (Aveiro) e no Curso Geral de Teologia, do Centro de Formação e Cultura, da Diocese de Leiria-Fátima. Reproduzimos alguns trechos da entrevista.

–Justifica-se um congresso sobre uma criança, Francisco Marto?

–Irmã Ângela Coelho: Claro que sim. Ao longo destes 90 anos tem-se falado tanto na mensagem de Fátima, e a vida dos pastorinhos começou a ganhar um relevo grande a partir da sua beatificação, no ano 2000. Percebemos como eles tiveram personalidades diferentes e únicas, e uma resposta diferente àquilo que Nossa Senhora foi pedindo. Justifica-se, para já, por essa razão: porque ainda não é muito conhecida, nem divulgada, nem aprofundada a personalidade do Francisco. Este congresso pode ser um bom ponto de partida para isso mesmo, pois há muita informação que agora começa a estar ao nosso dispor. Até agora centrava-se muito sobre as Memórias da Irmã Lúcia e alguns livros de espiritualidade, mas atualmente temos mais informação, como a Documentação crítica de Fátima. Portanto, é um ponto de partida para reflectir sobre as dimensões teológica, espiritual e humana da evolução da personalidade do Francisco.

–O que torna essa personalidade do Francisco Marto assim especial?

–Irmã Ângela Coelho: A Mensagem de Fátima assenta naquilo que Nossa Senhora pediu, e foi posto em prática pelas três crianças, Francisco, Jacinta e Lúcia, no seu conjunto, mas também por cada um deles de uma forma individual, em que cada um contribuiu com algo especial. Lembro uma passagem do Antigo Testamento que pode ser inspiradora para essa leitura, quando Elias sobe ao monte Horeb para se encontrar com Deus: primeiro há um trovão, um vento muito impetuoso, que me faz lembrar a Lúcia, aquela que vê, que fala e que fica com a missão de anunciar; depois surge o fogo, que faz lembrar a Jacinta, que tinha no peito aquele ardor pelo Coração Imaculado de Maria e pelo Santo Padre; finalmente, vem a brisa suave onde estava Deus, que me lembra o Francisco, uma criança contemplativa, uma criança de silêncio, que encontra Deus neste silêncio. É por ser uma alma silenciosa que é capaz de captar, de uma forma especial, aquilo que foi, por exemplo, o Coração eucarístico de Jesus.

Verificamos que muitos dos cristãos e dos santos que têm este dom contemplativo o vão desenvolvendo muito tardiamente, é na fase adulta que encontram o seu “deserto”. O Francisco tem também isso de especial: encontra a sua missão muito cedo, é uma criança que se retira para o “deserto” da Serra de Aire, onde desenvolve a sua dimensão contemplativa.

–Podemos dizer que essa é a principal característica que o distingue das outras duas videntes de Fátima?

–Irmã Ângela Coelho: Sim, mas há muitas outras coisas que o distinguem. A Lúcia diz que, antes das aparições, a única coisa que a unia ao Francisco era o parentesco, e que a única coisa de comum entre ele e a Jacinta eram as feições, porque de carácter eram muito diferentes. O Francisco era mais introvertido, mais pacífico, era aquele menino calmo que perdia os jogos mas não levava a mal, não ficava amuado, ao passo que a Jacinta amuava logo. Depois das aparições, o Francisco vai mudar e muda também a partir da sua natureza: gosta de estar sozinho, mas tem um sentido para esta solidão, que era o estar com Deus.

Era um rapaz também muito sensível. Dos três, é o mais sensível à natureza, gosta muito de animais e vive apaixonado pela música, pelo seu pífaro. É ainda muito corajoso. Na prisão, é ele que dá força à irmã quando ela está a chorar, é ele que a encoraja e anima.

Outra coisa que o caracteriza é a sua capacidade de discernimento. Por exemplo, quando vê a Lúcia em apuros, por não saber o que responder às pessoas, ou por não querer ir às aparições em Julho com medo de que seja o demónio, é o Francisco que lhe dá coragem e lhe mostra que está enganada: como é que pode ser o demónio, “se Nossa Senhora é tão bonita e o demónio é tão feio”?

–O que podem ver de interessante as crianças de hoje neste menino nascido há 100 anos?

–Irmã Ângela Coelho: As crianças podem olhar para ele, porque é uma criança absolutamente normal, em nada se distinguia das crianças do seu tempo: gostava de brincar, correr, conversar e de estar com os amigos, gostava da sua família, dos seus pais.

Portanto, as crianças de hoje, que brincam com playstation e computadores, podem rever-se no Francisco neste aspecto, porque não era uma criança extraordinária. Mas viveu um acontecimento especial, que o levou a desenvolver algumas virtudes e características, que me parecem ser fundamentais para as crianças de hoje.

Por exemplo, o sentido da obediência. O Francisco era muito obediente aos pais e também obedeceu prontamente aos pedidos de Nossa Senhora. Ela pediu para rezar muitos terços a fim de ele ir para o Céu, e o Francisco não pergunta porquê, não resmunga, não faz birra, apenas reza. A partir desta obediência desenvolveu o seu carácter humano. As crianças de hoje fazem birra para ir à Missa, para estudar, para saírem do seu mundo e das suas coisinhas.

Outro aspecto é o sentido da pureza que o Francisco tinha. Ser puro é ver as coisas como Deus as vê, ver as pessoas e os acontecimentos como Deus os vê, com o olhar de Deus. O Santuário de Fátima tem como tema do ano a frase bíblica: “Os puros de coração verão a Deus”. Eu gosto de pensar e acrescentar: “verão a Deus” e “verão como Deus”.

O Francisco desenvolveu muito este sentido da pureza, por exemplo, na forma como aconselhava a prima a não andar com certo grupo de colegas, para não aprender a dizer palavras feias, pois “Jesus fica triste”. As nossas crianças têm muito a aprender com ele.. Por exemplo, no uso da internet, que é uma coisa maravilhosa, mas também com alguns perigos, concretamente na dimensão da pureza, onde tantas imagens deformam o nosso olhar, levando-nos a ver a vida com malícia.

Uma característica fundamental é a humildade do Francisco. Nas aparições, a Lúcia via, ouvia e falava, a Jacinta via e ouvia, e o Francisco só via. Nunca se queixou, nunca se sentiu diminuído, nunca disse “coitadinho de mim, porque só vejo”, assumiu o que era, assumiu os seus limites. Conta a Lúcia nas suas Memórias que ele, não apenas não ouvia, como também tinha dificuldade em entender o que ela lhe explicava. Ou seja, parece que também não teve o dom de entender o que as palavras significavam, então fazia perguntas como: o que é o Altíssimo? A Lúcia explicava e ele voltava a perguntar, porque tinha dificuldade em entender, mas nunca se queixou. No nosso tempo, em que cada criança tem que ser melhor que a outra, num mundo marcado pela competitividade, onde não há direito a ter medos nem fraquezas, numa sociedade que exige ser o mais inteligente, o mais bonito, o mais rico, o mais poderoso… o Francisco com o seu jeito humilde ensina muito às crianças de hoje.

Por tudo isto, penso que o Francisco, que era uma criança absolutamente normal, se transformou numa criança especial, que todas as crianças normais deste tempo podem perfeitamente imitar.

–Em que medida a experiência e o testemunho do Francisco Marto pode ser estimulante para a vivência da fé cristã?

–Irmã Ângela Coelho: Tudo o que é pedido aos Pastorinhos insere-os naquilo que sempre foi a tradição de vida da Igreja. Ou seja, nada do que a Mensagem de Fátima pede remete para um misticismo abstrato e balofo. É concreto e, por isso, é que é estimulante, está em sintonia com a experiência de vida e de fé de muitas gerações de cristãos, corresponde ao desenvolvimento da tradição da Igreja.

A experiência dos Pastorinhos mostra-nos que até uma criança, num curto espaço de tempo, em dois ou três anos, consegue viver de modo intenso e profundo o mistério da Eucaristia. Os diversos Papas têm apelado à centralidade da celebração eucarística, adoração eucarística e a uma forma eucarística de vida. No Francisco é especialmente visível o amor aos pecadores, com os quais se sentia solidário, unindo-se a eles e fazendo sacrifícios por eles. Tudo isto posto em prática por uma criança, que hoje está beatificada. O que é que a Igreja quer dizer com isto? Que eu, vivendo como ele viveu, atingirei a santidade. É isso que é estimulante para a nossa vivência cristã: se uma criança o fez, eu também o posso fazer, são coisas simples e conhecidas, nada de extraordinário. Porque se fosse algo de extraordinário eu poderia desculpar-me e dizer “não sou capaz, não é para mim”.

(Com Santuário de Fátima)