"Conservem no coração a alegria de ser sacerdotes

Durante o encontro com o clero romano, o papa Francisco lembrou que o melhor antídoto para o cansaço da vida sacerdotal é o encontro com Cristo no tabernáculo

Roma, (Zenit.org) Luca Marcolivio | 620 visitas

Um dia importante no pontificado do Papa Francisco: esta manhã, na Basílica de São João de Latrão, o Papa reuniu-se pela primeira vez com os sacerdotes da Diocese de Roma.

O Papa chegou na catedral romana pouco depois de 09h30, com cerca de 20 minutos antes do previsto, a bordo do já familiar Ford Focus azul.

Depois de dar um breve discurso introdutório, o Papa escutou as perguntas dos párocos, vigários paroquiais, diáconos, capelães e outros representantes do clero romano, que vieram a São João de Latrão.

Foi um encontro privado, no qual Bergoglio exortou os sacerdotes romanos a realizarem "uma pastoral criativa" e demonstrarem "grande hospitalidade e gentileza".

Papa Francisco também recomendou que se "conserve sempre no coração a alegria de ser sacerdotes” e falou de “sentir-se sacerdote” ele mesmo, apesar de ter se tornado o sucessor de Pedro.

Durante a reunião, que durou cerca de duas horas, o Papa centrou-se especialmente sobre a "fadiga" de ser um sacerdote hoje, diante de fiéis com exigências cada vez mais complexas .

"Fadigoso", para os sacerdotes de hoje, é, por exemplo, a renúncia da paternidade biológica, mas o sacerdote pode superar todos esses obstáculos, graças à oração e à proximidade dos outros. O principal antídoto para o cansaço, porém, é a visita a Cristo no Tabernáculo, especialmente no final do dia, disse o Santo Padre.

Respondendo às perguntas dos sacerdotes da Diocese de Roma, o Papa Francisco recomendou ter sempre uma atitude pastoral juntamente com uma atitude de acolhida, encorajando-os a experimentar novas formas de evangelização, quando elas se revelem eficazes.

Os leigos também têm uma grande responsabilidade no mostrar o rosto acolhedor da Igreja e devem estar envolvidos em todas as iniciativas possíveis, dos cursos pré-batismais às missões de bairro .

Os destinatários das pastorais e dos apostolados, por sua vez, devem ter a certeza de que não se encontram na frente de funcionários com interesses econômicos e não espirituais.

As igrejas deveriam estar o máximo possível abertas durante todo o dia, oferecer acolhida a todos, melhor ainda se com um confessor sempre à disposição.

Cada sacerdote, continuou Bergoglio, deve manter viva a memória da origem da sua própria vocação, para que não caia no risco da mundanidade espiritual. Por outro lado, uma igreja sem memória não pode ter futuro.

Outro ponto essencial é nunca deixar sozinhas as pessoas com dificuldades, não exagerando nem a rigidez, nem a condescendência e acompanhando-as sempre, como fez Jesus com os discípulos de Emaús.

A Igreja, acrescentou o Santo Padre, não desmorona nunca, nem sequer no meio de seus escândalos mais graves, como o de pedofilia. Ela continua de pé, graças também à santidade diária de tantos cristãos desconhecidos: esta santidade é muito mais forte que os escândalos.

Respondendo à algumas perguntas sobre “periferias existenciais”, o Pontífice voltou ao seu recente discurso no Centro Astalli, no qual tinha encorajado os institutos religiosos com poucas vocações a não venderem os seus institutos mas a abri-los aos necessitados. A realidade, acrescentou, é melhor entendida a partir da periferia, em vez do centro, que, pelo contrário, corre o risco da atrofia.

Outro tema importante tratado pelo papa Francisco é a questão da nulidade do matrimônio, sobre o qual, disse, existem estudos em andamento e que serão objetos de discussões dos oito cardeais da comissão especial para a reforma da Cúria Romana, e do próximo Sínodo dos Bispos.

Também o tema da nulidade do matrimônio, disse o Bispo de Roma, é comparável ao das "periferias existenciais” e requer coragem pastoral na verdade e na justiça. Não é apenas um problema relativo a que os divorciados possam ou não receber a comunhão, mas implica uma "responsabilidade da Igreja com relação às famílias que vivem nesta situação".

Em preparação para o encontro com o Santo Padre, o Cardeal Vigário para a Diocese de Roma, Agostino Vallini, enviou aos sacerdotes romanos uma meditação, escrita em 2008 pelo então cardeal Bergoglio comentando o Documento de Aparecida, nascido da V Conferência do episcopado latino-americano.

Em sua reflexão Bergoglio aludia às mudanças históricas no mundo e na sociedade, e a necessidade de não nos iludirmos com o possível retorno ao "status quo".

O então arcebispo de Buenos Aires, além do mais, convidava os párocos latino-americanos a serem “pastores do povo e não clérigos do Estado”, e a serem “ardentes missionários que vivem o constante desejo de ir ao encontro do todos os que estão distantes da fé e não se contentarem com a simples administração da paróquia”.

Antes de se despedir do clero da Diocese de Roma, o Santo Padre recebeu em homenagem um ícone, pintado pelo Pe. Massimo Tellan, que retrata São Francisco sustentando a Igreja.

Tradução do original italiano por Thácio Siqueira