Contexto empresarial atual não favorece instituição familiar

Fala Nuria Chinchilla, especialista em conciliação entre trabalho e vida familiar

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Por Inmaculada Álvarez

BARCELONA, segunda-feira, 2 de junho de 2008 (ZENIT.org).- Nuria Chinchilla Albiol, casada e mãe de uma filha, é doutora em Ciências Econômicas e Empresariais pela Universidade de Navarra, licenciada em Direito pela Universidade de Barcelona, mestre em Economia e Administração de Empresas e doutora em Direção de Empresas pelo Instituto de Estudos Superiores da Empresa (IESE) da Universidade de Navarra.

Sobre o tema da conciliação tratou recentemente, a 14 de maio passado em Barcelona, no congresso internacional «Família e Sociedade. A família, paradigma da mudança social», organizado pelo Universidade Internacional da Catalunha (www.unica.edu) e em cujo encerramento participou Dom Javier Echevarría, prelado do Opus Dei.

Na primeira parte da entrevista (publicada em Zenit sexta-feira passada), a doutora Chinchilla mostrava como a mulher mãe que trabalha é o verdadeiro agente de mudança das empresas a favor de uma maior humanização do trabalho. A flexibilidade e o trabalho como objetivos são, em sua opinião, as chaves do desenvolvimento empresarial das próximas décadas.

Foi dito em muitas ocasiões que a crise da família se produz pela incorporação da mulher ao trabalho. O que opina a respeito?

–Nuria Chinchilla: O contexto empresarial que temos não ajuda nem a ser pai nem mãe nem esposos. Deve-se repensar a empresa, visto que a mulher sai de modo massivo ao mercado de trabalho. A situação que vivemos atualmente é insustentável. Evidentemente, o inverno demográfico tem a ver com a mulher que sai ao mundo trabalhista e se encontra com uma empresa rígida pensada por homens e para homens. Essa é a primeira chave.

O que estamos vendo é que a «revolução feminina», entendida no bom sentido, beneficia também o homem, porque o ajuda a «voltar a entrar» no lar. É bom que a mulher ofereça à sociedade seus conhecimentos e valores, e ao mesmo tempo não tenha que renunciar a ser esposa e mãe, o que requer em cada momento uma dedicação de tempo vital diferente.

Evidentemente não é um problema só das empresas; há um enorme problema social, porque as administrações públicas continuam pensando no indivíduo em lugar de pensar na família, que é a verdadeira célula básica da sociedade.

Na família é onde se gera a confiança, que é a base de funcionamento dos mercados e das instituições. Há um problema de geração de contra-valores, de esvaziamento cultural, especialmente nos meios de comunicação. E se os membros da família não têm de conviver e de desenvolver suas competências na família, não se formam pessoas «completas» para a empresa, não só preparadas tecnicamente mas humanamente, capazes de comprometer-se em projetos no médio e longo prazo.

O que passou é que a mulher saiu para o mercado trabalhista e o homem não entrou na casa. Agora estamos em um momento de «inpass» em que a mulher está fora e o homem não está dentro, nem como esposos nem como pais nem como co-responsáveis de um lar. Falo naturalmente em termos de generalizações sociológicas, não de pessoas concretas.

Ambos, homem e mulher, tem de ter a cabeça posta no lar como a primeira empresa, e ter claro que o trabalho é para a família, não a família para o trabalho. Esta é uma questão que não está clara em muitas cabeças, nem de homens nem de mulheres.

Porque o que está acontecendo é que, como o trabalho é mais rígido e a família mais flexível e compreensiva, ao final esta, de tanto estirá-la se rompe. O trabalho é como um gás que se mete nas gretas que deixamos em nossa vida, e que acaba enchendo-o todo se não pomos muros de contenção. Deve-se deixar tempo e energias para estar com a família e para poder dirigir a própria vida.

Que modificações legais a esse respeito teria de pedir às administrações públicas? Por exemplo, a licença maternidade espanhola (16 semanas) é uma das mais breves da Europa...

–Nuria Chinchilla: O ideal é que a lei desse liberdade a cada um para fazer o que em determinado momento decida. Temos de trabalhar com a liberdade das pessoas.

No caso da baixa maternal seria bom que fosse mais longa, também para as empresas. O fato de que seja de um máximo de 4 meses impede que a empresa pense na substituição dessa pessoa, com o que o trabalho costuma recair nos companheiros. Claro, estes, a segunda vez que vejam grávida esta mulher, em lugar de felicitá-la, a farão sentir que é uma egoísta e que joga sobre eles seu trabalho, e este tipo de coisa gera um mau ambiente.

Ao contrário, se a mulher está um ano fora, como sucede em outros países europeus, a empresa terá de buscar uma pessoa que a substitua. Esse ano é fundametnal na vida de uma criança, quando mais precisa da sua mãe (ou do seu pai, nisso não há nenhuma dificuldade, ainda que os neurologistas afirmem que é melhor a presença da mãe, mas cada família tem suas necessidades e sua forma de organizar-se).

–Fala-se com freqüência do problema da conciliação como um problema de igualdade entre homem e mulher. Mas o que está discriminado é a mulher trabalhadora ou a mãe trabalhadora?

–Nuria Chinchilla: Historicamente houve discriminação para a mulher por ser mulher, porque a empresa estava pensada por homens e para homens. Por exemplo, havia casos em que, se eram mulheres, eram «da limpeza», e, se eram homens, «da manutenção». Uma e outra categoria faziam o mesmo, mas uma cobrava mais que a outra. Eram injustiças com as quais havia que acabar.

Mas a verdadeira discriminação nas empresas, como estamos comprovando uma e outra vez nas investigações do IESE, é por causa da maternidade, não pelo fato de ser mulher: por ter filhos ou por poder chegar a tê-los. Na realidade, as leis de conciliação têm a ver com a mulher como com a família que essa mulher tem.

Qual é a contribuição da mulher a uma cultura empresarial mais humana?

–Nuria Chinchilla: A mulher oferece sua visão feminina, que é distinta e complementar da masculina. Em geral o que está oferecendo é mais antecipação das conseqüências de uma decisão sobre as pessoas, portanto está humanizando mais a visãoempresarial, e como conseqüência a melhorar a direção das pessoas.

A mulher (falo como tendência geral, é claro que há exceções em todas as partes), precisamente porque em sua visão integra melhor os sentimentos e emoções das pessoas com as quais trabalha, consegue formar melhores equipes, com maior grau de compromisso.

A regularidade sociológica nos diz que a mulher não busca tanto «pôr a medalha», mas que as coisas saiam adiante, e lhe custa menos trabalhar em equipe. Isto supõe uma mudança com respeito ao homem, que em geral joga mais para ganhar, é mais agressivo em sua maneira de trabalhar.

Em nosso livro, «Donos de nosso destino», falamos disto: o homem antes era guerreiro, e «trabalhava» com seu couraça e sua espada. Agora, os executivos vão à guerra, em lugar de com o cavalo e com a espada, vão com o “palm” e de avião, mas estão jogando o mesmo jogo agressivo. Precisamente se trata de que as pessoas sejam mais donas de si mesmas e de seu destino, e que as famílias descubram suas missões internas e externas.