Corpus Christi, gratidão pela presença real e silenciosa de Cristo na Eucaristia

Mensagem do cardeal Eusébio Oscar Scheid

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RIO DE JANEIRO, quinta-feira, 22 de maio de 2008 (ZENIT.org).- Publicamos a mensagem do cardeal Eusébio Oscar Scheid, arcebispo do Rio de Janeiro, com ocasião da festa de Corpus Christi.

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Corpus Christi

Nesta quinta-feira após a solenidade da Santíssima Trindade, sairemos, em procissão, pelas avenidas e ruas de nossa cidade para proclamar bem alto a nossa fé na presença real de Cristo na Eucaristia. Enfeitamos os locais da passagem do Senhor para demonstrar-lhe o nosso carinho e devotamento como nosso “pão da vida eterna”, sustento da nossa caminhada, nosso eterno companheiro de jornada na vida presente. É a festa do “Corpus Christi”, de Jesus Eucarístico, sob as aparências frágeis e enganosas de pão...que peregrina pela nova cidade.

Tendo comemorado a instituição da Eucaristia na Quinta-Feira Santa, agora queremos demonstrar a nossa gratidão pela sua presença silenciosa em nossas Igrejas, nos tabernáculos do mundo inteiro.

Permite, meu bom Jesus, que, ao passares tão perto de nós, tão achegado aos nossos problemas e sentimentos, que te exprimamos – com humilde simplicidade – os nossos pobres e sinceros sentimentos.

Tu, na noite da última Ceia, no cenário da instituição da Eucaristia, lavaste os pés dos doze Apóstolos. Tu te despojaste do manto festivo, cingido de uma toalha, te ajoelhaste aos pés de cada um... Água fria, corações ardentes e trepidantes: “Tu me lavarás os pés?”... Ficará para nós, para o mundo, para todo sempre a tua lição de humildade, o teu aniquilamento, o teu anelo de servir: “Não vim para ser servido, mas para servir”, havias dito pouco antes. Tu te ajoelhavas diante das imagens visíveis do Deus invisível na pessoa dos teus mais imediatos colaboradores. Era, ao mesmo tempo, um gesto de humildade, de carinho, de intimidade... Tu os havias de chamar para sempre “os teus amigos, depositários dos mais altos segredos do Pai”.

Passas, agora, ó Jesus Sacramentado, pelas ruas e avenidas por onde também nós, tantas vezes, passamos. Será que temos a fé de vislumbrar-te nos irmãos e irmãs que vão conosco? Cada ser humano é a tua perfeita e sacrossanta imagem (Cf.Gn 1,26). Quero reverenciar-te, louvar-te nesta tua tão sublime imagem: crianças, jovens, adultos e envelhecidos. A tua presença escondida sob a forma de pão – levada triunfalmente em procissão – me confronta com a imagem viva em cada semelhante. Seria eu capaz de enfeitar também para eles, os irmãos e irmãs do cotidiano, as ruas e avenidas da nossa cidade? Seria capaz de lavar-lhes os pés em sinal de haver entendido a tua lição?

Quero ver-te – como Servo sofredor – na pessoa machucada dos moradores de rua, os meninos e meninas de rua. Para eles sobrou apenas a rua. Também tu “não tinhas onde reclinar a cabeça”, como mesmo dizias. A pele, a cor, o corpo desses “habitantes das ruas” me dão uma pálida imagem do que se dizia da tua figura sofrida e sofredora: ”Não parecia mais gente... parecia um verme...” Quem são esses moradores de rua e donde vêm? A resposta é simples e chocante: são irmãos e irmãs que vieram de algum recanto dessa Pátria “amada e idolatrada”. Vieram de uma casa que não tinham e não têm...

Passas agora, ó Cristo Sacramentado, diante de hospitais, asilos, obras sociais e... lugares de tolerância e perdição. Como te sentes, Jesus, ao ouvires os nossos lindos cantos e os gemidos dos enfermos, nem sempre bem atendidos? “Queremos Deus, que é nosso Rei!” Saberei reconhecer a tua realeza nesses rostos sofridos dos doentes, dos velhinhos solitários e queixosos, dos mendigos, mendigando um gesto de ternura e carinho? Como louvar-te agora que passas pelos locais de perdição? Parece que sobe aos céus um grito de revolta, que reclama por auxílio e compreensão.

E a procissão passa diante dos prédios do alto comércio, das instituições financeiras, dos palácios do governo, dos centros do saber e da cultura. Tu és tudo para todos, do mesmo modo. Tu és o Bem Comum de cada um de nós. Como te sentirás ao contemplar esses prédios e, em oposição, o amontoado de barracos no alto dos morros?

Gostaria, meu Senhor, que o amor que exigiste dos Apóstolos, após o Lava-Pés, pudesse enlaçar, irmanar os corações de todos. O Sacramento do Amor apela para o amor sem exclusões e sem titubeios. “Amareis a todos, por amor de mim, a meu exemplo: eu vos dei o exemplo”.

Penso, meu querido Deus, feito comida e bebida, nos que carecem do pão e do sustento material. Pessoas, famílias, povos e continentes morrendo à mingua e de subnutrição! Parece até impossível: seres o Deus, o mesmo Deus dos super-fartos e dos famintos. Que o amor, alimentado e reforçado pela Eucaristia nivele as desigualdades sociais, colme os abismos dos desajustes, elimine as gritantes injustiças sociais!

Querido Jesus Eucarístico, não quero ficar apenas nos aspectos sociais e mais visíveis. Quantos corações, sedentos da tua presença real, são triste e enganosamente desviados por seitas e pelo mau exemplo de tantos católicos que não testemunham a sua fé. “Já não sou eu que vivo, mas é o Cristo que vive em mim”, dizia o teu Apóstolo Paulo. Que eu possa ser um ostensório vivo, em que tudo promana de ti e conduz a ti! Não posso ficar indiferente ou surdo aos apelos de correspondência que me lanças... ao passares triunfalmente perto de mim. Devo refletir o teu jeito de ser e de agir, devo testemunhar a tua presença real também em minha pessoa. Que eu possa reviver com objetividade o que diz a Oração de São Francisco de Assis: “Fazei-me instrumento da vossa paz! – Onde houver ódio... que eu leve o amor! Onde houver discórdia... que eu leve a união! Onde houver violência... que eu leve a ternura e a paz! Que eu procure mais amar que ser amado!”

Jesus amado, conservai nossas famílias na santidade perene da aliança de amor. Não permitas essa invasão da impureza, traição e separação no âmbito dos casais que juraram fidelidade e recíproco apoio até à morte.

Que os jovens, as jovens não queimem ou abreviem as etapas de sua vida tão bonita e semeada de esperanças. Jovem que comunga e te adora na Eucaristia será jovem forte, combativo contra o mal, modelo e poço de ideais.

Que os Seminaristas, os Diáconos e Sacerdotes tenham em ti a garantia da fidelidade ao chamado e à missão salvífica. Queres que sejam a memória viva do que celebram: vítima, oblação, oferta de amor gratuito, sem exigências ou condições.

Que todas as pessoas consagradas vejam em ti o Mestre seguro a seguir na busca da perfeição da caridade. Serás sempre o supremo ideal da pequenês, do despojamento, da entrega à vontade do Pai e do anelo de união fraterna.

Tu, ó Jesus Eucarístico, és o protótipo da partilha, da solidariedade, da doação: “Tomai e comei... tomai e bebei”! Que em Ti, alicerce de consistência infinita, se possa apoiar a construção da futura sociedade solidária, da sonhada civilização do amor. Tu és esse amor, feito sacramento.

Diante de Ti agora me calo, para que as pulsações do teu adorável Coração, divino e humano, me instilem os teus sentimentos, o teu modo de plasmar a vida e a história. Amém!

Cardeal D. Eusébio Oscar Scheid

Arcebispo do Rio de Janeiro