Corrupção e martírio na história do Vietnã

O diretor da AsiaNews fala sobre tolerância e violência

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ROMA, domingo, 26 de junho de 2011 (ZENIT.org) - A liberdade religiosa tem aumentado um pouco no Vietnã, mas ainda depende do capricho do governo. Mais do que falar em liberdade religiosa, afirma o padre Bernardo Cervellera, teríamos que falar de “uma certa tolerância religiosa”.

O diretor da AsiaNews dá entrevista ao programa Deus chora na Terra, da Catholic Radio and Television Network (CRTN), em colaboração com Ajuda à Igreja que Sofre.

- 10% da população do Vietnã é católica. As coisas melhoraram, mas a liberdade religiosa no Vietnã de hoje é possível mesmo?

- Padre Cervellera: Melhorou um pouco, sim. Por exemplo, os seminários, que antes tinham um limite, um número fixo de candidatos, agora foram abertos, e nós temos muitas vocações. Também existe uma certa tolerância do governo, com o atendimento médico que é feito pelas irmãs, por exemplo, e com a educação nas creches, essas coisas. Eu diria tolerância, não permissão. Mas de alguma forma existe mais liberdade, só que todas essas liberdades dependem da boa vontade do governo, que às vezes vai permitir e às vezes não vai.

- Ainda existe violência contra os cristãos?

- Padre Cervellera: Em algumas regiões, como o norte, e nas tribos das montanhas, ainda existe violência. Em Sung La e em outras dioceses, e em outras cidades menores, vilarejos, os católicos não podem celebrar missa no natal nem na páscoa, e é proibido ter catequese e ensinar a fé para os filhos, porque o governo local não permite nenhuma expressão de fé. Na prática, eles querem destruir a fé católica.

- Como o senhor consegue essas informações?

- Padre Cervellera: A nossa informação vem de fontes de fora do Vietnã. É muito perigoso para eles mandar essa informação. Várias dioceses do Vietnã também tiveram a coragem de publicar notícias e discursos dos bispos nos sites deles, análises e críticas de algumas violações da liberdade religiosa. Essas páginas também nos proporcionam informação.

- O senhor escreve na AsiaNews que a violência anticatólica é uma consequência da corrupção.

- Padre Cervellera: A maior parte da violência contra a Igreja católica no Vietnã atual é resultado de suborno e da corrupção do partido comunista. O Vietnã está em transição. Antes dessa transição, existia uma economia comunista centralizada. Agora eles estão avançando para uma economia capitalista, e muitos do partido comunista estão assumindo o controle, virando proprietários de imóveis que pertenciam às igrejas, ou de templos budistas e edifícios de outras religiões. É ilegal, porque a lei do Vietnã determina que todos esses edifícios e terras que foram desapropriados da Igreja ou de outros donos têm que se devolvidos quando as propriedades deixarem de ser usadas pelo Estado. Esses membros do partido estão ficando com essas propriedades e fazendo centros turísticos, villas, que depois eles vendem no mercado imobiliário vietnamita, que está crescendo bastante. A Igreja tenta reclamar. Aconteceu em Hanoi, Saigon, Vinh, em muitos lugares, e os católicos têm razão de reclamar. Mas a resposta do regime comunista tem sido violenta. Eles prendem os católicos que exigem de volta essas propriedades. Ou agridem, espancam. Um padre foi jogado do segundo andar de um prédio e outro apanhou até ficar em coma. Existe violência, sim, e é uma forma de amordaçar os direitos dos católicos.

- Os católicos vietnamitas precisam de orações...

- Padre Cervellera: Toda a Igreja perseguida precisa. Ninguém resiste ao sofrimento sem a força da oração. E outra reflexão interessante, o Vietnã virou um país com cada vez mais relações comerciais internacionais, e elas têm que ser uma via para transmitir a importância dos direitos humanos e o respeito pela liberdade religiosa. Até os negócios vão melhorar, porque, se a liberdade religiosa não existe, os outros aspectos dos direitos humanos, como a liberdade de empreender, também ficam em perigo.

- É o martírio que faz a Igreja crescer com tanta rapidez?

- Padre Cervellera: Eu acho que sim. O Vietnã, junto com a China, é uma das Igrejas mais perseguidas da Ásia, pelo menos nos últimos séculos. Nos séculos XVIII e XIX nós tivemos uns 200.000 mártires vietnamitas. Isso é semente para uma nova vida da Igreja. E outra coisa que eu acho que faz a Igreja no Vietnã ser tão forte é a unidade.

- A unidade vem de onde?

- Padre Cervellera: A unidade vem da educação que os jesuítas deram e das testemunhas da Igreja diante do povo do Vietnã, ao longo da história da Igreja no Vietnã. Hoje o povo tem mais confiança nas personalidades da Igreja do que nos funcionários do governo.

- Uma dessas grandes testemunhas foi o cardeal François-Xavier Nguyen Van Thuan. O senhor pode nos falar dele?

- Padre Cervellera: Claro! Ele é uma das personalidades mais importantes do Vietnã contemporâneo. François-Xavier Nguyen Van Thuan era sacerdote e foi nomeado bispo uns meses antes que o Vietnã do Norte invadisse o Vietnã do Sul. Ele era o bispo auxiliar de Saigon naquela época. O cardeal Van Thuan deu tudo, tudo, a serviço das pessoas no sul: ele ajudou os pobres, as crianças, ajudou na educação, na construção das casas...

- Por que acabou então na prisão?

- Padre Cervellera: Foi preso, em primeiro lugar, porque era parente do último presidente do Vietnã do Sul e, em segundo lugar, porque era bispo. Era um defensor apaixonado de seu povo e o povo o seguia. Por isso foi preso durante 13 anos, dos quais 9 passou em confinamento solitário.

- Que impressão lhe causou quando o conheceu?

- Padre Cervellera: Era muito tranquilo. Eu o conheci em Roma. Se não recordo mal, o Vaticano obteve sua libertação com a condição imposta pelo governo do Vietnã de que nunca voltaria ao país. Encontrei-me com ele quando era secretário do Conselho Pontifício Justiça e Paz. Era, como diria, muito calmo, mas com um olhar profundo e sempre muito comprometido com o Vietnã. Reunia-se com refugiados aqui na Itália ou com pessoas que vinha de todas as partes do mundo para visitá-lo. Sempre estava trabalhando e sempre apoiando a Igreja no Vietnã, com uma calma muito peculiar, como se dissesse: “Sabemos que Cristo sempre sairá vitorioso. Não há pressa nem angústia”.

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Esta entrevista foi realizada por Marie-Pauline Meyer para "Deus chora na terra", um programa rádio-televisivo semanal produzido por ‘Catholic Radio and Television Network', (CRTN), em colaboração com a organização católica Ajuda à Igreja que Sofre.
Mais informação em www.aisbrasil.org.br, www.fundacao-ais.pt.