Costa do Marfim: educando-se a mulher, educa-se a nação

Christiane Kadjo, da ONG Educação e Desenvolvimento, ganha o prêmio Harambee

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ROMA, quarta-feira, 9 de novembro de 2011 (ZENIT.org) – Christiane Kadjo recebeu, no último dia 27 de outubro, em Madri, o prêmio Harambee Espanha, pelo trabalho em seu país, a Costa do Marfim, voltado a melhorar a educação e a igualdade de oportunidades para mulheres, através da ONG Educação e Desenvolvimento.

Graduada em Economia e Comércio, Kadjo trabalhou num banco em sua terra antes de se dedicar integralmente à ONG, que opera em centros de formação profissional na capital Abidjan e na cidade de Yamoussoukro. São centros que facilitam o acesso das jovens a trabalhos remunerados ou à criação de pequenas empresas. O prêmio serve ainda para comunicar a situação da África, superando os estereótipos existentes no exterior, além de tentar evitar a emigração, já que a ONG procura oferecer possibilidades de desenvolvimento dentro do país de origem.

Kadjo foi entrevistada por ZENIT em passagem por Roma.

ZENIT: Conte-nos um pouco sobre você.

Kadjo: Eu nasci na Costa do Marfim e estudei num colégio de freiras francesas, que nós chamávamos de les dames. Agora eu trabalho integralmente nas atividades da ONG Educação e Desenvolvimento, no meu país.

ZENIT: E os estudos?

Kadjo: Eu trabalhei num banco, estudei filosofia na Itália, voltei para casa, dei aulas na escola onde tinha estudado, a escola de negócios. E desde 2002 me dedico à ONG para promover a mulher.

ZENIT: A ONG foi fundada por você?

Kadjo: Não. A associação foi criada em 1992. Começou com uma escola. Ela é voltada à educação e à promoção da mulher, nas favelas, na periferia.

ZENIT: Quais são os principais problemas da África hoje em dia?

Kadjo: Nós temos vários, mas um grave na área da educação é o analfabetismo. Na África, a mulher é quem sofre mais esse flagelo. 50% a 60% são analfabetas. Outro é a saúde; as estruturas são deficientes, um médico para cada dez mil habitantes. Mas é a educação o que ajuda a economia a crescer. Educando a mulher, você educa toda a nação.

ZENIT: E qual é a solução para a educação?

Kadjo: Não é suficiente alfabetizar, porque tem muitas mulheres que não passam do ensino médio. E não encontrando trabalho, elas podem acabar em situações moralmente inconvenientes. Nós achamos que é importante apoiá-las e abrir uma escola que dê formação profissional. Para elas arrumarem um trabalho honesto e sustentarem a si mesmas e a família delas.

ZENIT: Que tipo de formação profissional vocês oferecem?

Kadjo: Programas em hotelaria, auxiliares de saúde e gestão de empresas. A gestão de empresas é particularmente útil porque ajuda a abrir microempresas.

ZENIT: Que tipo de microempresas?

Kadjo: Por exemplo, a primeira foi aberta por uma estudante de agronomia, que começou um cultivo de milho. Outra abriu um pequeno restaurante e até empregou uma aluna da mesma escola. Uma terceira compra legumes no mercado e faz um trabalho de higienização para a venda. E por aí afora.

ZENIT: Quantas jovens se formam por ano nesses institutos?

Kadjo. Cada ano mais de cem meninas entram no colégio de Yarani, onde fica o Centro de Capacitação da Mulher. Em Yamoussokro, que é a capital política, nós temos o centro de formação Okassou.

ZENIT: Como vocês financiam as atividades?

Kadjo: Começamos pedindo às interessadas uma pequena participação. Assim conseguimos um pouco na Costa do Marfim. Outro pouco vem da cooperação italiana, junto com o centro Elis de Roma. Outra parte vem da Espanha, onde vários organismos nos ajudam.

ZENIT: Um dos problemas dos estudantes africanos que estudam na Europa é que depois eles ficam na Europa, em vez de levarem o que aprenderam de volta para o seu país.

Kadjo: É verdade. Quando uma pessoa tem um trabalho e uma atividade no próprio país, ela não tem necessidade de emigrar. Uma meta que nós temos é que o cidadão da Costa do Marfim não abandone o país.

ZENIT: E o prêmio?

Kadjo: O prêmio permite, além de tudo, comunicar o que estamos fazendo. Nós pedimos ajuda e por isso é bom podermos explicar o nosso trabalho para quem pode nos dar uma mão. Ajudando as pessoas, você permite que elas progridam para não dependerem sempre do exterior. Uma sinergia: uns ajudam e outros se desenvolvem. Não vamos esquecer que a África tem valores, recursos e muita juventude. Dois terços da nossa população têm menos de 25 anos.