Crise da família, início da crise social

Segundo o filósofo e político Rocco Buttiglione

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Por Francisco Javier Tagle

SANTIAGO, segunda-feira, 24 de novembro de 2008 (ZENIT.org).- O começo da crise da família é o princípio de uma crise social mais extensa, afirmou o filósofo e político italiano Rocco Buttiglione nas páginas do último número de revista Humanitas (www.humanitas.cl). 

Seu texto corresponde à conferência que pronunciou no claustro da Universidade Católica, em Santiago, para a inauguração do «Centro UC para a Família». 

«Os jovens sempre criticaram a autoridade e chocaram com seus pais. Mas aconteceu raras vezes na história que os padres fugiram do seu dever e renunciaram por covardia à sua missão. Mitscherlich e Van der Does de Villebois foram os primeiros em chamar a atenção sobre o risco de uma sociedade sem pai, na qual os jovens homens não interiorizam os valores fundamentais da virilidade, não aprendem a beleza de cuidar de uma mulher e dos filhos gerados com ela», diz o acadêmico, que é membro do Conselho de Consultores e Colaboradores da Revista Humanitas

Em seu texto, o autor começa por explicar que o amor é um ato de vontade, que contém a decisão de resistir diante das provas da vida e do amor. «Poderíamos dizer que o amor é um enamoramento aprovado e sancionado pela razão. O amor não é (só) um estado emocional, mas é a decisão de pôr sua própria vida ao serviço do cumprimento da vocação da pessoa amada na verdade e no bem», assinala. 

Na relação do homem com a mulher, explica, o amor faz que a pessoa já não possa definir a si mesma, mas só através da pessoa amada: «somos uma pessoa na outra e uma para a outra». Desta maneira, afirma que, ainda que o amor contenha muitas penas e problemas, nada torna a vida mais plena como amar e ser amado. 

«O amor gera uma nova vida. Ainda que esta eventualidade em geral esteja presente só vagamente na consciência dos esposos, o fato de que dos atos sexuais nasçam crianças não é só extraordinariamente importante para a sociedade, mas contribui de maneira decisiva para dar forma ao amor do homem e da mulher», explica. 

Daí, adverte, a diferença entre o enamoramento e o amor. Enquanto o primeiro é somente um estado emocional, o segundo responde a um ato de vontade. «O amor conjugal assume conscientemente o desejo sexual e suas conseqüências na geração dos filhos, e oferece seu apoio para que se cumpra o destino, próprio e do outro, de converter-se em pai e mãe, de serem pais», diz. 

É por isso que, assinala Buttiglione, um «simples» estado emocional como o enamoramento não é suficiente para gerar um filho, como é, ao contrário, um amor conjugal estável e fiel, já que neste último prometemos nosso amor, atenção e felicidade, «na saúde e na doença». 

«É claro que quando nos prometemos mutuamente amor e felicidade para toda a vida, fazemos algo extremamente árduo. Quem pode pensar que tem em si a força moral suficiente para estar seguro de que manterá este compromisso diante das imprevisíveis vicissitudes que a vida nos apresenta?», adverte o acadêmico, e responde que «é por isso que os crentes confiam a Deus a esperança de uma promessa cujo cumprimento pode assegurar-se só com a sua ajuda». 

Com relação aos filhos, o político italiano explica que a criação e educação de uma criança «é uma tarefa árdua», pelo que sempre será melhor a presença do homem consciente também de sua responsabilidade. 

«Nos primeiros meses de vida, a criança reconhece sua mãe: acostumou-se por nove meses ao batimento de seu coração. Ao contrário, o recém-nascido não reconhecerá seu pai: é através da mediação da mãe que o pai é reconhecido como tal pela criança», manifesta. A mãe, geralmente, é a encarregada de dar «segurança» à criança, enquanto o pai será quem, habitualmente, lhe ensinará o sentido do «dever». 

«Portanto, o papel masculino e o feminino se diferenciam por razões naturais e funcionais», assinala. Ainda que a distinção não seja rígida e vá mudando com o tempo e o espaço, a diferença é necessária para «sustentar o processo da educação. Além disso, a diferenciação tem uma base natural na estrutura biológica do homem e da mulher», manifesta. 

Buttiglione se pergunta acerca de se é possível uma civilização que rejeite o dom da feminilidade, que fuja da tarefa de preparar as mulheres para serem mães. «Quando ocorre, a sociedade se consome e morre», responde. E agrega: «Em geral, isso marcou mais o destino e decadência de grupos dirigentes reduzidos como na crise final do Império Romano. Mas em nossa época, o fenômeno adquire uma dimensão de massas e ameaça a própria sobrevivência de nossa cultura», adverte. 

Na cultura feminista, exemplifica, a concepção, que é a essência da feminilidade, é vista como negativa; assim também o papel do pai, que também foi questionado mediante a «demonização» da autoridade. 

A crise da família afeta, em conseqüência, toda a sociedade, devido a que «o ideal de fraternidade humana, de todos os homens, seria inconcebível se não existisse a própria experiência da família». Buttiglione expõe em seu texto que a família é o princípio de unidade dos seres humanos, onde a unidade não nasce da opressão, mas da entrega mútua de reconhecimento, liberdade e amor.