Cristãos em Mosul vítimas de jihadistas e dos interesses geopolíticos no Oriente Médio

A milícia do Estado islâmico do Iraque e do Levante tem aliados acima de qualquer suspeita sedentos de dinheiro?

Roma, (Zenit.org) Redacao | 518 visitas

As trágicas e sem precedentes operações de limpeza étnica que nestes dias estão consumindo Mosul por obra dos seguidores do recém-proclamado Estado islâmico do Iraque e do Levante (Isil) e em detrimento dos membros da comunidade cristã, revelam a brutalidade do fundamentalismo islâmico, mas também os efeitos de uma manobra geopolítica que visa dividir a região do Oriente Médio, focando nas diferenças religiosas.

Em Mosul, berço do cristianismo assírio, a comunidade cristã está presente desde o II século e apesar das muitas dificuldades conseguiu sobreviver nos séculos seguintes, tendo um papel de indiscutível importância para o crescimento social e cultural daqueles territórios. Tal importância é confirmada pelas palavras expressas pelo escritor Younis Tawfik, iraquiano de fé muçulmana sunita, que em uma recente entrevista à Rádio Vaticano fala da generosidade que ao longo da história tem marcado a comunidade cristã. Generosidade que resultou na formação dos maiores escritores, artistas e literatos que demonstraram o seu compromisso com a valorização da cultura árabe. Prova disso é o fato de que os primeiros dicionários modernos de árabe e os primeiros estudos sobre esta cultura foram feitos justamente pelos cristãos do Oriente.

Evidências que vão junto com a aberta condenação dos últimos dias do OCI (Organização de Cooperação Islâmica) e do IUMS (União Internacional de Acadêmicos islâmicos), no que diz respeito aos crimes do ISIL. Em particular, as duas organizações têm apontado como estes comportamentos não têm qualquer ligação com o Islã e seus preceitos.

O clima de terror absoluto e de intolerância que o ISIL pratica há semanas nas áreas em que assumiu o controle e que está expulsando os cristãos, sob pena de conversão ou o pagamento de uma taxa para os infiéis, encontraria, portanto, justificativa exclusivamente no espetáculo da guerra midiática ou psicológica, funcional para um projeto geopolítico mais amplo. Esse consistiria na criação do Grande Oriente Médio, a ser implementado por meio de uma estratégia bem precisa e mais conhecida como "estratégia do caos", que visa o ulterior desmembramento dos territórios e das culturas, especificamente as dos iraquianos, para torná-los mais controláveis. Isto por meio do apoio às diversas partes envolvidas no conflito de acordo com a mudança de cenário.

Deve-se ressaltar que os financiadores do novo califado são Turquia, Arábia Saudita e Qatar. Provisões econômicas, mas não somente: o papel da Arábia Saudita é de fundamental importância também para a atividade de doutrinação aos militantes através da estrutura das redes Wahabite. Os sauditas, por agora, são os maiores beneficiários desta situação, pelo caminho da oscilação rumo aos preços altos do petróleo devido à interrupção dos poços iraquianos, líbios e sírios caídos sob o controle (estratégico) dos novos ocupantes.

Certamente os sauditas estão assumindo um papel central na reorganização do mapa do Oriente Médio. Embora assumam cada vez posições diferentes. No conflito na Faixa de Gaza, por exemplo, a Arábia Saudita apoia o Egito e a derrubada do Hamas.

No drama que está ocorrendo, e que agora parece claramente orientado à total fragmentação do mosaico do Oriente Médio, os cristãos, onde não estão adequadamente protegidos, até mesmo por governos europeus, correm o sério risco de desaparecer não só de Mosul, mas de toda a região, com a consequência de que com eles pereceria um patrimônio cultural de valor inestimável.