Cristo não é uma legislação e um católico não pode ser um fariseu

Pe. Hélio Luciano responde a várias questões sobre fé e Igreja

Brasília, (Zenit.org) Thácio Siqueira | 934 visitas

Ultimamente a edição portuguesa de ZENIT tem recebido várias perguntas que abrangem os mais variados temas de fé e de Igreja.

Para respondê-las pedimos ajuda ao Pe. Hélio Luciano, formado em Navarra, mestre em bioética pela Universidade de Navarra, mestre em Teologia Moral pela Pontificia Universidade Santa Cruz em Roma e membro da comissão de bioética da CNBB, que se dispôs com muito carinho a responder as perguntas selecionadas.

Publicaremos a segunda parte no dia 30, segunda-feira. Acompanhe abaixo as três primeiras perguntas relativas ao papel da mulher na Igreja, Concílio Vaticano II e o casamento homossexual. 

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ZENIT: Dizem que é um absurdo as mulheres não serem valorizadas a ponto de não serem pelo menos diaconizas. O que dizer sobre isso?

Pe. Hélio: João Paulo II brindou-nos, em 1988, com um belíssimo texto que fala sobre a dignidade da mulher (Mulieres dignitatem) e deixa-nos claro que o fato de as mulheres não acederem ao sacramento da ordem, não se trata de uma diminuição da mesma, mas simplesmente que existem funções e missões diferentes dentro da vida da Igreja.

O Senhor demonstra claramente a alta consideração da mulher durante a sua vida pública – escandaliza aos apóstolos ao conversar com a samaritana no poço; defende uma mulher adúltera; cura a hemorroíssa, considerada impura; atende às súplicas de uma mulher estrangeira, um escândalo para os judeus. As mulheres dão provas da sua maior fidelidade ao serem elas as primeiras a acreditarem na Ressurreição. Além disso, o Senhor escolhe como mãe a Maria, muito superior em santidade que os Apóstolos.

E, ainda assim, o Senhor decide unir o sacerdócio aos Apóstolos, aos homens. Não o faz por considerar estes melhores ou mais santos que as mulheres – elas davam provas de que o seguiam com maior fidelidade – mas porque assim o quis. Não acusamos a Deus de feminista por dar o dom da maternidade às mulheres. Existem missões diferentes – masculinas e femininas – dentro da vida humana e da Igreja e isso não pode ser considerado exclusão ou preconceito, mas sim a riqueza da complementariedade querida por Deus desde que nos criou diferentes – homem e mulher os criou.

ZENIT: É verdade que o Concílio Vaticano II já está ultrapassado e a Igreja precisa se atualizar urgente? Por exemplo, porque não usar métodos contraceptivos básicos, como camisinha e pílulas?

Pe. Hélio: O Papa Francisco, na sua grata genialidade pastoral, tem insistido que devemos encontrar os problemas atuais das pessoas, sabendo que a doutrina continua a mesma – ele diz que como filho da Igreja pensa em tudo como a Igreja. Isso significa que o ensinamento da Igreja sobre contracepção, aborto, eutanásia – dentre outros – continua o mesmo. Mas antes se faz necessário comunicar a alegria do mistério pascal a nossos irmãos cada vez mais afastados de Cristo. O Papa Francisco diz que não podemos perguntar sobre o colesterol alto a um moribundo.

Às vezes pensamos que ser católico é cumprir, obedecer uma série de normas. Isso é absurdo. Cristo não é uma legislação e um católico não pode ser um fariseu. Os ensinamentos da Igreja – dos quais estes temas sensíveis continuam sendo plena verdade – servem para que a pessoa humana seja mais feliz, vivendo na plenitude daquilo que nos foi pedido por Cristo, convertendo-nos em outros Cristos, no próprio Cristo.

Portanto, em primeiro lugar devemos curar as feridas das pessoas machucadas pelo mundo, que vivem com a falsa alegria do filho pródigo, mas que já começam a se dar conta de que falta algo – tantas depressões, tantos vazios existenciais, tantas faltas de esperanças na vida. É hora de mostrar que seguir a Cristo vale à pena – não como infantilização ou adotar falsas esperanças, mas como Caminho, Verdade e Vida.

Depois de que as pessoas encontrem de fato a Cristo, poderemos mostrar a elas o modo de se aproximar ainda mais dEle, vivendo em plenitude aquilo que ele nos pediu e mostrando que viver assim não pode ser jamais uma imposição externa, mas um encontro profundo e livre com Cristo.

Não precisamos de uma Igreja que se adapte aos tempos, mas de tempos que conheçam a Cristo.

ZENIT: O que dizer sobre o casamento homossexual? Deveria ser mais discutido?

Pe. Hélio: Voltamos a entrar na questão do filho pródigo. São as pessoas que devem nos preocupar e não ideias em geral. É lógico que devemos cuidar das leis que configuram nossa sociedade, mas não por um legalismo ou por querer que a Igreja interfira no Estado ou na liberdade individual das pessoas, mas sim como ajuda a que as pessoas encontrem a si mesmas e a felicidade plena.

Nosso trabalho real é de tentar mostrar às pessoas que serão felizes se fizerem o que Cristo lhes pede. Amor sem liberdade não é e nunca será verdadeiro amor – por isso não podemos e nem queremos impor nada a ninguém. Queremos simplesmente mostrar que Cristo propõe um caminho de felicidade mais plena, mais completa e que esta felicidade está ao alcance de todos.

Matrimônio é algo que se realiza entre um homem e uma mulher, pois dentro da sua essência – de modo natural – está a exigência da complementariedade masculina e feminina. Uma lei que altere a natureza humana não é verdadeira lei, mas uma violência contra o ser humano. Creio, sinceramente, ser uma questão de justiça que a união homossexual seja reconhecida civilmente – seria injusto que duas pessoas que decidiram viver juntas por anos não tivessem direitos adquiridos quanto à herança ou divisão de bens. Porém, equiparar essa união a matrimônio é algo que contradiz o próprio modo de ser do homem e não está ao alcance de nenhum legislador.

Mas repito, nosso trabalho deve ser de evangelizar, de mostrar que seguir a Cristo vale a pena. Ficamos tanto tempo sem anunciar a Cristo ao mundo de modo efetivo – não podemos agora querer impô-lo sem liberdade.