Crônica do quotidiano

Dom Alberto Taveira Corrêa, arcebispo de Belém do Pará, reflete sobre a eucaristia

Belém do Pará, (Zenit.org) Dom Alberto Taveira Corrêa | 528 visitas

Temos o privilégio de ver, sentir e nos envolvermos com os acontecimentos do mundo, que ficou pequeno, de tal modo a ser chamado de "aldeia global". Parece-nos estar vinte e quatro horas por dia com um "direto" escrito num monitor ligado diante dos olhos. Incomoda-nos quando não podemos estar conectados, através dos diversos meios postos à nossa disposição, pelo que se percebe de nossas reações frente às quedas de rede de nossos aparelhos! Vale até experimentar nossas reações com um dia sem telefone celular! Em alguns casos, pode-se chegar a verdadeiro pânico!

Por outro lado, da mesma forma como acompanhamos num noticiário de Rádio, Televisão ou Internet as notícias políticas, econômicas ou do esporte, passam diante de nós os crimes mais bárbaros, os episódios de corrupção ou mil falcatruas, ou, quem sabe, os acidentes trágicos e as mortes de tantas pessoas. Podemos estar placidamente diante de tudo isso, insensíveis diante do bem e do mal. As páginas policiais dos jornais ou os programas de televisão especializados nos escândalos do dia são considerados com indiferença. Nada nos move de nosso conforto, já que nos habituamos a tudo o que corre em torno a nós. É hora de acordar!

Desenvolveu-se na Igreja, a partir da Bíblia, uma abordagem diferente e profunda dos fatos, estejamos ou não envolvidos neles. A modo de exemplo, a crônica relatou recentemente fatos de adultos que assassinaram crianças, muitas vezes filhos dos que perpetraram os crimes. Saber da notícia pode suscitar um modo de "ver" os fatos, tomando conhecimento e identificando as causas e consequências. Identificar os dramas que se escondem atrás de gestos tresloucados, os vícios que os prepararam, ou, quem sabe, as situações familiares que não os justificam, mas os explicam. Podemos sair da insensibilidade corrente, em vista de um posicionamento corajoso diante do que ocorre na sociedade.

Um segundo passo é "julgar", não a partir dos próprios critérios, ou apenas conduzidos pelo susto suscitado pela notícia. Antes, trata-se de buscar na Palavra de Deus as luzes para entender os acontecimentos. Neste final de semana, dois textos bíblicos iluminam nossa vida (1 Reis 17,17-24 e Lucas 7, 11-17) de forma surpreendente. O profeta Elias é hóspede na casa de uma viúva, cujo filho cai gravemente doente. Curioso é que tanto a reação da viúva quanto a oração de Elias parecem provocar o Senhor Deus. A volta à vida daquela criança conduz ao reconhecimento, por parte da mulher, da missão do profeta! No Evangelho de São Lucas, a situação é mais grave, pois Jesus encontra, na cidade de Naim, junto com seus discípulos, um enterro de um filho único de uma mãe pobre e viúva. Perdendo o filho, aquela mulher perdia o futuro! É com grande compaixão que Jesus lhe diz "não chores", faz parar o cortejo, ordena, como Senhor da Vida, e o jovem é devolvido vivo à sua mãe. "Todos ficaram tomados de temor e glorificavam a Deus dizendo: Um grande profeta surgiu entre nós, e: Deus veio visitar o seu povo" (Lc 7,16). Ainda bem que desde aqueles tempos até hoje, morte prematura de crianças, viúvas pobres e abandonadas e outras mazelas sensibilizam as pessoas!

A Palavra de Deus assim acolhida nos faz enxergar os acontecimentos de forma diferente. Brota maior serenidade e nós nos tornamos ponto de equilíbrio junto das pessoas envolvidas. Entendemos de novo que Deus não está distante dos nossos problemas, que Ele quer a vida em abundância para todos e a nós foi dada a missão de ser profetas da vida e da consolação.

Encontramos, sim, pessoas que se revoltam com os problemas, gritam e fazem escândalos. Há quadros terríveis, para os quais não vemos saídas. Multiplica-se a responsabilidade, quando passamos todo dia por bolsões de miséria, drogas ou outras verdadeiras bombas-relógio, que sabemos prontas para estourarem a qualquer momento. Sensibilidade, presença solidária, gestos concretos de ajuda, busca de soluções, sempre é possível fazer algo para melhorar as relações com as pessoas e "agir" de forma diferente. É o terceiro passo. Sim, qualquer fato, à luz da fé, acende uma lâmpada que suscita mudança na vida, mesmo que ocorra do outro lado do mundo. Mais ainda quando nos faz olhar ao nosso redor, para que ninguém passe em vão ao nosso lado.

Há grandes e importantes bandeiras em nosso tempo, como os Direitos Humanos, o Meio Ambiente, a superação da Corrupção, a participação consciente na sociedade. Como sabemos que muitas vezes não se vai além de discursos, cabe aos cristãos a tarefa de dar alma a tudo isso, como fruto da conversão quotidiana ao Evangelho de Jesus Cristo. Começaremos em casa, suscitando reflexão sobre os fatos que nos cercam ou a crônica quotidiana dos meios de comunicação, para depois ampliarmos no raio de ação, cada um segundo suas possibilidades e dons recebidos de Deus.

Por outro lado e de forma contraditória, em nome de direitos das pessoas, banaliza-se a vida com o aborto, uniões contrárias à natureza, tráfico de pessoas, manipulação genética, propaganda e estímulo à pornografia, erotismo desenfreado. Também aqui, ver, julgar e agir de forma diferente, para melhor! É tarefa para os cristãos em nosso tempo.

Sabemos muito bem que os desafios são imensos, mas a certeza da graça de Deus nos faz pedir confiantes: "Ó Deus, fonte de todo bem, atendei ao nosso apelo e fazei-nos, por vossa inspiração, pensar o que é certo e realizá-lo com vossa ajuda". 

Dom Alberto Taveira Corrêa

Arcebispo Metropolitano de Belém