Cultura, voluntariado e trabalho: três meios de promoção da dignidade humana

Bento XVI propõe a lógica de doar

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Lucas Marcolivio

CIDADE DO VATICANO, segunda-feira, 21 de maio de 2012 (ZENIT.org) - Três movimentos de inspiração cristã foram recebidos em audiência pelo papa Bento XVI na Sala Paulo VI neste sábado (19), por ocasião do aniversário de suas fundações.

Trata-se do Movimento Eclesial de Compromisso Cultural (MEIC, na sigla italiana), que comemora seus 80 anos; da Federação dos Organismos Cristãos de Serviço Internacional Voluntário (FOCSIV) e do Movimento dos Trabalhadores Cristãos (MCL, em italiano), estes dois fundados há 40 anos.

Como explicado pelo Santo Padre após as saudações iniciais, estas três realidades "são devedoras da sábia obra do Servo de Deus Paulo VI, que, como Assistente Nacional, apoiou os primeiros passos dos formandos da Ação Católica em 1932, e, como papa, o reconhecimento da Federação dos Organismos Cristãos de Voluntariado e o nascimento do Movimento dos Trabalhadores Cristãos, em 1972".

Ao papa Montini, Bento XVI tributou "a nossa grata memória pelo impulso a estas importantes associações eclesiais".

Cultura, voluntariado e trabalho, explicou o papa, representam a "trindade indissolúvel" do compromisso diário do laicado católico, tanto no particular como na sociedade. As três áreas têm um denominador comum que é o "dom de si", e o seu objetivo final é a promoção da "dignidade humana".

No que diz respeito ao compromisso cultural, Bento XVI recordou que ele não pode ser limitado "à transmissão de conhecimentos técnicos e teóricos, mas envolve o dom de si mesmo com a palavra e com o compromisso".

Da mesma forma, o voluntariado é "um recurso insubstituível para a sociedade" e não envolve apenas a "doação de coisas", mas também o ato de "dar-se em ajuda concreta aos necessitados".

O trabalho, finalmente, como terceiro aspecto do compromisso dos leigos católicos, "não é apenas instrumento de lucro privado, mas oportunidade de expressar as próprias habilidades, com espírito de serviço, na atividade profissional, seja de tipo operário, agrícola, científico ou de qualquer outro gênero".

Cada ação, em cada uma dessas três áreas, deve ser animada pelo "amor", ou seja, pela capacidade de ver a realidade "através dos olhos de Cristo", doando ao próximo não só coisas materiais, mas, em primeiro lugar, "o olhar, o gesto de amor de que eles precisam".

Esta lógica do doar, disse o Santo Padre, "é muitas vezes mal entendida", mas, ainda assim, ao ser posta em prática através da própria cultura, das próprias habilidades, nos revela uma felicidade profunda, de acordo com a lógica de Cristo, que deu tudo de si mesmo".

O primeiro lugar onde experimentamos o amor gratuito, continuou o papa, é a família, e, "quando isso não acontece, ela se degenera, entra em crise". O modelo familiar, como já observado por Bento XVI na Caritas in Veritate, é extensível "a uma dimensão universal".

A justiça, em si mesma, não é suficiente: "é necessário aquele algo mais, que somente a gratuidade e a solidariedade podem dar". A gratuidade, em particular, é algo que "não se compra no mercado, nem pode ser prescrita por lei". No entanto, "tanto a economia quanto a política precisam da gratuidade, de pessoas capazes do dom recíproco".

Esta audiência com o papa apontou, de parte dos movimentos, a "necessidade de continuar a trilhar o caminho do Evangelho, em fidelidade à doutrina social da Igreja e na lealdade aos seus pastores"; e de parte do papa, "o incentivo a continuar firmes no compromisso com os irmãos".

Falando dos movimentos individualmente, o Santo Padre disse que o MEIC é "chamado a um renovado serviço no mundo da cultura, marcado por desafios complexos e urgentes, para a difusão do humanismo cristão".

A FOCSIV, por sua vez, pode continuar a "confiar principalmente na força da caridade que vem de Deus, levando em frente o seu compromisso contra todas as formas de pobreza e de exclusão, em favor das populações mais desfavorecidas", disse o papa.

A vocação do MCL é "trazer a luz e a esperança cristã para o mundo do trabalho, a fim de conseguir mais justiça social", sabendo olhar sempre "para a juventude, que agora, mais do que nunca, procura formas de engajamento que combinem o idealismo com a objetividade", concluiu o pontífice.

Em carta de agradecimento ao papa, o presidente nacional do MEIC, Ciro Cirotto, escreveu: "O MEIC, Santidade, está empenhado em identificar essas sementes de esperança e em fazê-las germinar. Tem a consciência de ser chamado a responder aos desafios do presente com um engajamento criativo, que não olhe para o que é novo com desconfiança e, ao mesmo tempo, mantenha a fidelidade às tradições humanistas e cristãs do nosso país".

Em entrevista à Rádio Vaticano, o presidente da FOCSIV, Gianfranco Cattai, chamou de "verdadeiro prazer" e "grande satisfação" a audiência com o Santo Padre nos 40 anos da Federação, cujos "fundadores começaram essa experiência a partir do Concílio Vaticano II".

Para Carlo Costalli, presidente do MCL, também entrevistado pela Rádio Vaticano, a audiência com o papa é "um motivo de esperança e de reflexão sobre o que já fizemos".

O encontro com Bento XVI, diz o site do MCL, "evidencia visivelmente a proximidade particular do MCL aos papas destas quatro décadas de vida do Movimento. Mas também a fidelidade ao Magistério da Igreja, que caracteriza o estatuto e a nossa vida associativa".

Na audiência, os membros do MCL entregaram simbolicamente a Bento XVI as chaves das casas para jovens casais construídas em Jerusalém com a contribuição do Movimento.