David Rosen: Confiamos que Francisco continuará a combater o anti-semitismo

O rabino cumprimentou o papa Francisco e destacou a suas relações com os judeus da Argentina

Roma, (Zenit.org) Anita Sanchez Bourdin | 930 visitas

O rabino Rosen é diretor de relações inter-religiosas da Associação Judaica Americana. Ontem esteve estar com o Papa Francisco na audiência com as delegações de diferentes Igrejas e outras religiões.

ZENIT entrevistou-o após o encontro.

ZENIT: o que lhe disse o Papa?

- Rabino David Rosen: Quando a pessoa está no meio de uma delegação, até mesmo numa audiência privada com o papa não se permite uma conversa real. Disse-lhe que esperava que ajudasse a aprofundar nas relações entre judeus e católicos ainda mais e esperava que também contribua para promover a paz na Terra Santa.

ZENIT: O que ele respondeu?

- Rabino David Rosen: Assentiu com a cabeça e disse sim, sim e sorriu e segurou minhas mãos. Não houve tempo para muito mais.

ZENIT: O que espera para os próximos anos nas relações entre judeus e católicos?

- Rabino David Rosen: A coisa mais importante é que estes "Vaticanistas", que diziam que as relações do Vaticano com os judeus diminuiram depois de Bento XVI, e depois de João Paulo II e que teríamos um papa sem nenhum interesse especial nesta área, todos eles erraram. Podemos prever com confiança que a relação entre católicos e judeus será um ponto importante deste pontificado. Você sabe que, também hoje, na audiência privada, o Papa Francisco destacou nestas palavras um compromisso especial com a relação entre judeus e católicos, e ontem quando falou na sua missa de início deu as boas-vindas aos “representantes judeus e representantes de outras religiões”, de tal forma que éramos os únicos, junto com representantes de outros grupos cristãos, que mencionou pelo próprio nome.

ZENIT: Assim, podemos esperar um aprofundamento ainda maior da relação entre a Igreja católica e o povo judeu.

- Rabino David Rosen: Se me perguntasse quais assuntos pendentes eu gostaria que se tocasse, eu diria que o principal desafio é o desafio educativo. Houve uma transformação revolucionária no ensino da Igreja e no enfoque de judeus, judaísmo e Israel onde moram comunidades judaicas junto com as comunidades católicas como nos Estados Unidos. Portanto estas mudanças foram interiorizadas nas instituições educativas da Igreja e na base. Mas há muitos lugares no mundo onde não há comunidades judaicas e onde os judeus não aparecem na "tela do radar" católico, e lugares onde, até mesmo os bispos não conhecem o conteúdo de "Nostra Aetate", e que não faz parte da educação católica. Então, o fato de que o papa Francisco provenha da Argentina – na Argentina e no Brasil existe uma comunidade judaica -, mas na maior parte da América Latina, não existe e portanto, acho que é muito importante obter o seu apoio, orientação e instrução – nas igrejas e escolas paroquiais e na formação dos sacerdotes de todo o mundo – que esta deve ser uma parte integral do seu programa educacional.

ZENIT: O papa Bento diz que a pessoa não pode ser católica e anti-semita: Qual é a sua avaliação do pontificado de Bento XVI, do ponto de vista da relação entre judeus e católicos?

- Rabino David Rosen: O pontificado de Bento XVI tem sido muito importante e eu acho que muitas pessoas na comunidade judaica não entenderam o importante que foi. Porque não somente foi sobre os passos de João Paulo II em todo o seu pontificado. Mas também seguindo os passos de João Paulo II fez algo muito importante: dado que poderiam ter dito que a visita de João Paulo II à sinagoga de Roma e à Terra Santa, em Israel, foram ações idiossincráticas de um homem que tinha uma experiência pessoal de amizades judaicas quando criança, e pelo impacto da Shoah, sentia em si mesmo a necessidade de fazer estes gestos. Bento XVI seguindo seus passos e fazendo exatamente as mesmas ações, de fato, consagrou estas ações no tecido do pontificado e da Igreja no seu conjunto.

Por isso, seria natural agora que o Papa Francisco visitasse a sinagoga de Roma, para chegar à Israel, à Terra Santa e em muitos aspectos, estes passos naturais foram facilitados pelo papa Bento XVI, seguindo os passos de João Paulo II

ZENIT: Na França, Marc Knobel acaba de publicar um livro importante sobre o anti-semitismo nos anos 2000-2013. Como responder a estas novas formas de anti-semitismo?

- Rabino David Rosen: Infelizmente o anti-semitismo está voltando à moda outra vez. Depois do impacto da Segunda Guerra Mundial pensamos que tínhamos controlado o vírus. Mas agora está brotando em todos os lugares com muitas formas diferentes. E uma das mais recentes é da Hungria, onde se vê uma espécie de neofacismo anti-semita, e então se vê em alguns lugares, como na França e Bélgica um anti-semitismo que é uma saída das frustrações árabes, que se centra no conflito israel-árabe e gera hostilidade contra qualquer pessoa que apoie Israel. E depois vemos anti-semitismos procedentes de determinados círculos da nova esquerda que querem retratar Israel como um substituto dos Estados Unidos. Todos os tipos de novo anti-semitismo que estão aparecendo, da direita à esquerda, requerem uma resposta importante e desde já confiar e esperar que o papa Francisco seja muito forte neste tema porque ele o entende. Entende e também experimentou o bombardeio de um centro judeu em Buenos Aires, no Centro da AMIA, onde 85 judeus foram assassinados, fo um dos primeiros a chegar lá, para mostrar a sua solidariedade e também para emitir uma declaração pedindo à autoridades argentinas deter os autores, participou no evento comemorativo, e no ano passado celebrou na catedral um evento comemorativo Kristal Nacht. Temos todas as razões para esperar que Francisco vai continuar com o mesmo compromisso de lutar contra o anti-semitismo como Bento XVI e João Paulo II.