De engenheiro informático a religioso marianista (Parte II)

Como o padre e blogueiro Daniel Pajuelo passa os dias entre o altar e as redes sociais

Roma, (Zenit.org) Jose Antonio Varela Vidal | 522 visitas

Poucos sabem que você é engenheiro informático. Você aplicou isso na vida de religioso marianista?

-Padre Daniel Pajuelo: Nos meus primeiros anos como marianista, eu desenvolvi um software de gestão de bibliotecas para a nossa administração provincial. Agora ele pode ser baixado gratuitamente no meu site. É o “Biblioteca 2000”. Também dediquei muita energia para criar a comunidade virtual Ágora Marianista, que virou o Portal da Família Marianista da Espanha. Também trabalhei como técnico informático em nosso colégio de Valencia e, mais tarde, como professor de tecnologia e de informática para jovens de 12 a 16 anos. Sempre gostei da Segurança de Redes e algumas vezes me pediram para auditar servidores ou resgatá-los de algum ataque cibernético, desmascarar identidades virtuais falsas, recopilar dados para tramitar denúncias por abusos na internet, etc.

E você ainda tem tempo para esses trabalhos?

-Padre Daniel Pajuelo: Eu continuo fazendo algumas dessas coisas, além de pequenos programas e instalação e atualização de alguns blogs. Mas reorientei o meu perfil informático para as redes sociais. Os meus conhecimentos técnicos são de grande ajuda para entender o potencial e os limites da comunicação na internet, além dos perigos. Mas continuo precisando de formação constante, para melhorar a minha presença e assessorar outras pessoas e entidades da Igreja na hora de aterrissar nesse meio. Comecei a estudar no ESIC, uma escola de negócios dos Padres Reparadores. E estou cursando um Programa Superior de Marketing e Gestão de Comunidades em Redes Sociais.

Você fundou o site iMision, junto com outros religiosos. Qual é o propósito e quais são os frutos desse trabalho?

-Padre Daniel Pajuelo: O iMision nasceu de um encontro no Twitter entre a religiosa Xiskya Valladares e eu. Nós dois mantemos uma presença ativa nessa rede social. Depois de sofrer alguns ataques pessoais fortes nessa mesma rede, nós percebemos o quanto é necessário apoiar os católicos presentes nela para que eles não tenham medo, para que a presença deles seja como o sal que dá sabor. O nosso objetivo ao fundar o iMision era triplo: primeiro, possibilitar o encontro digital e físico dos católicos já presentes na rede; segundo, oferecer formação, e, terceiro, realizar um congresso.

Fale um pouco mais sobre esta iniciativa!

-Padre Daniel Pajuelo: O fruto do iMision é uma comunidade formada por oito pessoas de diversos movimentos e grupos da Igreja. Trabalhamos unidos com o mesmo horizonte. Também estão ligadas ao núcleo outras vinte e duas pessoas que colaboram diretamente com o projeto: gestores de grupos do Facebook e do Twitter, designers gráficos, programadores… Em terceiro lugar, temos a comunidade de voluntários, formada por mais de quatrocentas pessoas que recebem e apoiam as iniciativas que nós vamos propondo, e, por último, a nossa comunidade de seguidores, 8.400 no Twitter e 6.900no Facebook. Os frutos do iMision são as conexões entre todas essas pessoas. Estas conexões sozinhas não geram comunhão, mas a facilitam e potencializam. E a comunhão é o que torna visível hoje o Corpo de Cristo no mundo.

Como os nossos leitores podem participar?

-Padre Daniel Pajuelo: Vamos ter um congresso, que já está sendo organizado. Vai ser em Madri, nos dias 4, 5 e 6 de abril de 2014, e a conferência de abertura será do padre Antonio Spadaro, jesuíta, diretor da revista La Civiltà Cattolica e uma das referências nesta nova cultura eclesial da evangelização na internet. Esperamos contar com um excelente grupo de palestrantes. Vamos ter também oficinas práticas e encontros entre os participantes. Achamos que esse evento vai definir um antes e um depois na presença da Igreja espanhola na internet.

Como você vê o desenvolvimento da presença da Igreja nos novos meios digitais nos últimos dez anos?

-Padre Daniel Pajuelo: O pontificado de Bento XVI deu um impulso enorme à presença da Igreja na mídia social. O Pontifício Conselho para a Cultura e o Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais compreenderam de forma admirável que a internet não é só um instrumento, mas um “lugar habitado”, e que a Igreja também está chamada a compartilhar e acompanhar as esperanças, alegrias, sofrimentos e desejos das pessoas na rede.

O papa Francisco, por exemplo, tem uma atividade constante nas redes sociais…

-Padre Daniel Pajuelo: A pessoa do papa Francisco e o estilo comunicativo dele estão sendo uma revolução para uma Igreja milenar, que se sentia segura ao se expressar numa linguagem que hoje não é mais entendida. A encarnação é um processo contínuo, que não termina em uma época. Sacralizar formas do passado, que foram muito válidas e deram resultado na sua época, mas que não têm mais significado para o homem de hoje, é uma coisa que pode ir contra o verdadeiro espírito do evangelho. No evangelho nós descobrimos com admiração que Cristo, sendo de condição divina, não se apegou à sua condição e se despojou, tomando a forma de um no meio de tantos, tornando-se um homem como nós. E aquele, que foi o caminho escolhido por Deus para nos salvar, é o caminho que a Igreja está chamada a percorrer em todo o seu peregrinar pela história.

Mas nem todos pensam assim…

-Padre Daniel Pajuelo: Eu acho que esse grande impulso está sendo liderado de cima e ainda não chegou completamente às bases. Poucas dioceses, congregações e movimentos escutam esse chamado à evangelização pela internet. Neste sentido, há muita estrada pela frente ainda.

Qual é o aspecto que mereceria mais atenção e mais recursos?

-Padre Daniel Pajuelo: A formação. Antes de entrar nessa arena, precisamos nos livrar de preconceitos. Toda mudança nos assusta, parece sempre que o tempo passado foi melhor, mas, se mantivermos essa atitude ou demonizarmos os jovens e as novas formas de interconexão, só vamos nos isolar, virar objetos de museu e morrer sozinhos e incompreendidos. Eu acho que as dioceses, as conferências episcopais, têm que apostar forte em formar primeiro os seus delegados de comunicação. Hoje a comunicação é algo muito delicado, que nós temos que cuidar bem, colocar nas mãos de gente muito santa e bem formada. Depois, criar escolas que deem formação de qualidade para todo tipo de agentes pastorais.

Então temos que entrar nas redes sociais com decisão, é isso mesmo?

-Padre Daniel Pajuelo: Eu acredito que nós temos que dar um abraço institucional e dar apoio e recursos para iniciativas que já estão acontecendo nos nossos países. Também acho que não vai passar muito tempo antes que algumas dioceses e conferências episcopais comecem a ter as mídias sociais integradas no seu planejamento de comunicação.

Você também é compositor musical e tem algumas músicas bem recebidas pelos jovens. O que inspira você a compor?

-Padre Daniel Pajuelo: A relação com Deus! É dela que surge tudo, ela é o motor dos motores de toda a minha vida, é dali que nasce a inspiração para escrever e gravar as músicas. Enquanto eu componho, eu rezo e medito o que estou escrevendo. Quando você comunica, você tem que cuidar da forma, mas principalmente do conteúdo, e esse conteúdo, para mim, sempre é Cristo.

E agora, quais são as suas tarefas como padre e os planos para o futuro?

-Padre Daniel Pajuelo: Eu estou me dedicando à educação em nosso colégio marianista de Carabanchel [em Madri]. Sou muito feliz com os jovens. Eles não param de me ensinar coisas novas, me tornam mais humilde, tiram o melhor de mim e me obrigam a me renovar o tempo todo. Pelo voto de obediência, eu sirvo na minha província e trabalho em nosso projeto missionário. Não sei o que o futuro está guardando, mas sei que tudo o que eu fizer vai ser feito em discernimento com os meus superiores e irmãos de comunidade. Eu faço parte de uma grande família, a família de Maria, que trabalha para transmitir a luz a Cristo ao mundo. Essa tem sido e vai ser a minha missão até o final dos meus dias, se Deus quiser.

Que mensagem você dá aos religiosos em formação que gostariam de ter uma presença evangelizadora nas redes sociais?

-Padre Daniel Pajuelo: Não é qualquer forma de presença que vale a pena. Por isso, tem que se formar bem, para usar a linguagem adequada em cada momento e aprender a viver bem no tempo da internet. Nós temos que ser honestos e transparentes, e, ao mesmo tempo, mostrar o rosto mais materno e acolhedor da Igreja. Temos que viver o perdão e a humildade também na internet, e por isso não podemos devolver insulto por insulto, temos que deixar o sarcasmo de lado e estar dispostos a reconhecer os erros. As métricas são importantes, como o número de seguidores no Twitter e os “curtir” no Facebook, mas eles não podem ser o nosso objetivo prioritário.

Manter a comunidade no espaço digital, enfim...

-Padre Daniel Pajuelo: Não podemos esquecer que não somos franco-atiradores, nem superstars. Somos uma grande comunidade, que é a Igreja. Temos que criar laços entre católicos, mesmo pensando diferente em alguns temas. Seguir pessoas que pensam diferente ajuda a cultivar a escuta e a nos colocar na pele do outro. Se nos cercamos só de quem pensa igual, ficamos encerrados, não evangelizamos nem somos evangelizados. Não precisamos ter medo. Deus nos chama a jogar as redes e Ele está conosco!

Para conhecer o iMision: http://imision.org

Para seguir o padre Daniel Pajuelo no Twitter:  https://twitter.com/smdani

Blog do padre Daniel Pajuelo: http://smdani.marianistas.org