De Jerusalém para Jericó

Dom Alberto Taveira Corrêa, arcebispo de Belém do Pará, reflete sobre a responsabilidade pessoal diante das pessoas e dos acontecimentos

Belém do Pará, (Zenit.org) Dom Alberto Taveira Corrêa | 985 visitas

“Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos de assaltantes. Estes arrancaram-lhe tudo, espancaram-no e foram-se embora, deixando-o quase morto" (Lc 10, 30). Não era muito aconselhável "descer para Jericó". E a figura da parábola contada por Jesus não devia ser um primor de comportamento! Até hoje são muitas as estradas pelas quais passa a humanidade, cheias de riscos. São diversos os assaltantes presentes nas "áreas vermelhas" das cidades e do campo. Também a violência enfeitada, com a qual se despojam os pobres, ou o dinheiro público escapa literalmente pelo ladrão da corrupção. Quando tudo parece se iluminar através de um punhado de benefícios sociais, considerados como "dádiva tão generosa", retira-se, através da indignação das ruas, o véu que encobre manobras e abusos. E começou um verdadeiro jogo de empurra entre poderes e instituições. Como o coração humano não mudou, sucedem-se os escândalos, cujos detalhes nos envergonham e entristecem. Quem é o dono do comportamento ilibado? Quem pode atirar a primeira pedra? Até que ponto vai nossa capacidade de enfrentar os problemas e dar o primeiro passo para ajudar a resolvê-los?

Ouvimos nesta semana uma provocação do Santo Padre o Papa Francisco a um sério exame de consciência: "Também hoje assoma intensamente esta pergunta: Quem é o responsável pelo sangue destes irmãos e irmãs? Ninguém! Todos nós respondemos assim: não sou eu, não tenho nada a ver com isso; serão outros, eu não certamente. Mas Deus pergunta a cada um de nós: 'Onde está o sangue do teu irmão que clama até mim?' Hoje ninguém no mundo se sente responsável por isso; perdemos o sentido da responsabilidade fraterna; caímos na atitude hipócrita do sacerdote e do levita de que falava Jesus na parábola do Bom Samaritano: ao vermos o irmão quase morto na beira da estrada, talvez pensemos 'coitado' e prosseguimos o nosso caminho, não é dever nosso; e isto basta para nos tranquilizarmos, para sentirmos a consciência em ordem. A cultura do bem-estar, que nos leva a pensar em nós mesmos, torna-nos insensíveis aos gritos dos outros, faz-nos viver como se fôssemos bolhas de sabão: estas são bonitas mas não são nada, são pura ilusão do fútil, do provisório. Esta cultura do bem-estar leva à indiferença a respeito dos outros; antes, leva à globalização da indiferença. Neste mundo da globalização, caímos na globalização da indiferença. Habituamo-nos ao sofrimento do outro, não nos diz respeito, não nos interessa, não é responsabilidade nossa!" (Homilia na Ilha de Lampedusa, 08.07.2013)

A belíssima e provocante parábola do Bom Samaritano é anunciada pela Igreja inteira neste final de semana. Dos chamados "Padres da Igreja" recolhemos uma compreensão magnífica do relato do Evangelho de São Lucas (Lc 10, 25-27). A humanidade inteira perdeu, pelo pecado, o direito de estar no paraíso, justamente chamado de Jerusalém. E ela desce para Jericó, cidade na qual reina um calor sufocante, a vida febril do mundo, que atrai para baixo. É nesta estrada que é assaltada, despojada das vestes da perfeição, faltando-lhe os mínimos traços da força de espírito, da pureza, da justiça e da prudência.

Eis que veio ao encontro da humanidade aquele que se deixou chamar "samaritano". Só Ele pode demonstrar com os fatos quem é próximo e o que significa amar o próximo como a si mesmo. Cristo é aquele que empreendeu a viagem da Redenção (Cf. Ef 8,8-10). "Ele, existindo em forma divina, não se apegou ao ser igual a Deus, mas despojou-se, assumindo a forma de escravo e tornando-se semelhante ao ser humano" (Fl 2,6-7). Passou pelas estradas do mundo e viu as feridas da humanidade caída, pois sua viagem tem como finalidade visitar-nos! Aquele que quer a misericórdia e não o sacrifício (Os 6,6) derrama seu amor com o vinho e o óleo da Palavra e dos Sacramentos, toma sobre si as enfermidades de todos, pois, por suas chagas fomos curados (Cf. 1 Pd 2,24). Entregou a humanidade à "hospedaria" chamada Igreja, lugar de reunião e moradia para todos. Entregou como penhor duas moedas de prata, o Antigo e o Novo Testamento. À Igreja cabe a alegre e exigente tarefa de cuidar com carinho da humanidade até a volta do Senhor (Cf. Severo de Antioquia, Homilia 89, em "I Padri vivi", Città Nuova, 1983).

A todos os discípulos de Jesus Cristo é confiada a responsabilidade pessoal diante das pessoas e dos acontecimentos. É ainda do Papa Francisco, Papa da ternura e da bondade, que chegam indicações preciosas, quando comentava São Tomé diante das marcas da Paixão de Jesus, visíveis no Corpo do Ressuscitado: "Nós encontramos as feridas de Jesus fazendo as obras de misericórdia, ao corpo e à alma, e eu destaco ao corpo, dos nossos irmãos e irmãs que sofrem, que passam fome, que têm sede, que estão nus, que são humilhados, que são escravos, que estão presos, que estão no hospital. Essas são as chagas de Jesus hoje, e Jesus nos pede um ato de fé nele através destas chagas... Temos que tocar nas chagas de Jesus, acariciar as feridas de Jesus, cuidar das feridas de Jesus com ternura, temos que beijar as chagas de Jesus, e isso literalmente. Como São Francisco, que, depois de abraçar o leproso, viu a sua vida mudar. Não precisamos de um curso de reciclagem para tocar no Deus vivo, mas simplesmente sair às ruas, indo procurar, encontrar e tocar nas chagas de Cristo em quem é pobre, frágil, marginalizado. Uma coisa que não é simples nem natural. Peçamos a São Tomé a graça de ter a coragem de entrar nas feridas de Jesus com a nossa ternura e certamente teremos a graça de adorar o Deus vivo" (Homilia do dia 3 de julho de 2013).

É o tempo da Igreja servidora e criativa na caridade! É tempo de olhar ao nosso redor, para que ninguém passe em vão ao nosso lado!