De Paris a Jerusalém a pé, em lua-de-mel (II)

Crônica de Mathilde e Edouard Cortés

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ROMA, terça-feira, 13 de novembro de 2007 (ZENIT.org).- Mathilde e Edouard Cortès (http://www.enchemin.org), que partiram de Paris em 17 de junho passado, já percorreram mais de 3.700 quilômetros a pé, mendigando albergue e alimento.



Uma viagem de lua-de-mel «pela paz e pela unidade dos cristãos», feita de sacrifícios e sofrimentos (foram agredidos na Turquia), mas também de encontros inesquecíveis.

Publicamos um segundo extrato de seu diário (o primeiro foi publicado por Zenit em 12 de novembro de 2007).

Sexta-feira, 24 de agosto, 68 dias. 35 quilômetros de Gracac-Pribudic. 1.970 quilômetros desde Paris

As aldeias abandonadas por seus habitantes sérvios continuam se sucedendo. O calor invadiu o descampado. Precisamos de água. Estamos quase no final de nossas reservas e não nos atrevemos a usar os poços abandonados por medo de que tenham sido contaminados com cadáveres ou envenenados. O descampado ondulado e pedregoso não pode nos oferecer outra coisa senão terra seca. Pequenos arbustos nos dão de vez em quando um pouco de sombra. Mas nada de água. Dói-me a cabeça. Meu pano úmido não me protegeu o suficiente deste sol que cai. A sede aumenta. Não falamos. Caminhamos sonhando com um poço. Minha cabeça explode. Estou no limiar das forças. A língua me dói, a garganta arde. Caí sobre uma pedra e me chorei. Edouard tenta me animar. Ao longe aparecem telhados de casas. Estarão habitadas?

Quase pulo sobre esta anciã que enche o balde em um poço de pedra. A água me escorre pela boca, pela garganta, todo o corpo. Bebo dois litros de uma vez. Avidamente. Continuamos outra hora, mas o frescor da água dura pouco. Não me sinto muito bem. Outra aldeia sérvia deserta. Por sorte, há uma casa habitada, em meio a ruínas. Duas mulheres e um homem. Vêm do povoado próximo. «Terão um pequeno refúgio para dormir?» Duvidam por longo tempo… «Não, não, não se vê». Temos vontade de partir para mais longe. Mas a noite cai. Não posso mais. Minha cabeça está doendo. Solto-me sobre uma pedra ante uma casa em ruínas. As lágrimas correm por minha face e vomito de uma vez os dois litros de água bebidos. Dores de cabeça, vômitos, frio e calor. Tenho todos os sintomas da desidratação. Estamos a quilômetros de uma aldeia habitada, e ainda a mais de um povoado. Perguntamos para estas pessoas que nos rejeitaram. «Podemos dormir aqui, na casa abandonada ao lado da sua?», pergunta Edouard, com a secreta esperança de que nos convidem para a sua casa. «Sim, mas cuidado, é perigoso. Não entrem dentro. Fiquem fora». Jogo-me diante deles, tremendo, em meu tapete. Tenho uma insolação. Não sei bem o que me acontece. Edouard a meu lado está inquieto. Vigia-me e me força a beber com regularidade, despertando-me ao longo de toda a noite. E se isso se agrava? O que fazer neste país deserto? Sem telefone? Sem dinheiro? A quase cem quilômetros do primeiro hospital? A nosso lado, ouve-se os risos, os ruídos de cobertores que chegam da única casa habitada da aldeia. Meu coração está triste. Neste descampado deserto, três pessoas não entenderam a sede que temos de sua humanidade! Somos pobres. Nenhuma moeda é capaz de comprar o que reconforta uma acolhida generosa. O céu está coberto. Não há estrelas. Tenho sede de um coração de carne. O seu está seco. Esta noite, dormimos ao lado de sua porta, sobre as pedras e as ruínas de uma casa bombardeada. Meu coração está desidratado pela indiferença. É triste uma noite à intempérie quando não há estrelas.